Duas
Dentro de mim há duas pessoas.
Uma trata, a outra maltrata.
Uma fica bem escondida atrás do peito, e precisa de força pra sair, ou apenas do brilho do mato, um olhar amoroso, ou um céu de nuvens bailantes
A outra está presente o tempo todo em um canto da cabeça. Faz doer e latejar, desce pelo pescoço, vai pela coluna, embrulha o estômago.
A primeira é discreta, e aparece nos momentos mais raros. Muitas vezes é chamada ao tom dos conflitos, é quando ela já se ocultou além da conta.
A segunda aproveita desta ausência, e em muitos dias, até meses, reina absoluta. Ela é quem acusa, quem aponta o dedo, quem diz coisas piores dentro do que lá fora.
A que trata, acolhe tudo, entende. Aprende a se amar, a se cuidar, a apreciar cada pedacinho do ser.
A que destrata encolhe tudo, até mesmo o que é grandioso. Fala coisas horríveis ao pé do ouvido, não deixa passar um sequer erro, é perfeccionista exagerada, mas não intenciona a melhora ou a compreensão, o que ela gosta mesmo é do desconforto, do remorso, da culpa que volta a uma memória infinitas vezes. Ela é aliada a todos que criticam, atesta cada julgamento como verdadeiro.
Aquela que está ao meu lado fala sem muitos receios, é a verdade pura, é a luz que ilumina as sombras, é a coragem. Mas como parte de sua linhagem, esse impulso muitas vezes dá voltas antes de conseguir surgir.
A que maltrata é pura racionalidade, mas não a favor da inteligência. Ela limita quando escolhe o que pode e o que não. Aponta os erros também lá fora, e tem uma lente de aumento que enxerga cada palavra errada… Tem um ouvido muito bom, consegue captar tons falhos de voz, julga a própria insegurança que ela mesma produz
Enquanto isso, a outra, é um pouco surda. Como não escuta muito bem, percebe todas as coisas. Desde as frases ainda não ditas, ensaiadas com um olhar e mover de pescoço. Capta intenções, antecipa acontecimentos. Ela, muitas vezes tenta dar a mão a outra, pra mostrar o sol, ou a lua, pra dizer sobre as belezas lá fora e dentro, pra tentar transmitir um pouco o que é esse sentir sem motivos, apenas por existir. A outra larga a mão, não aceita, não perdoa, há algo machucado que a protege, como uma casca.
Aquela que está comigo me embala em sonhos que dizem o que não consegui ouvir. Mostra em desarranjos de imagens os símbolos para aquilo que não entendi nas linguagens convencionais.
A outra é pesadelo desperto, transmuta dias de sol profundo em cinza, ou traz chuvas dilacerantes como fogo.
Aquela que se esconde em sua essência de coragem, sente tremer o coração antes de sair. Sai pela boca e deixa um rastro de brisa refrescante que contrasta com a pele quente. Essa sensação faz provar que existe, e que a vida é isso, o arriscar-se nas coisas mais frágeis e poderosas.
Nessa hora, a outra se encolhe dentro de sua casca, pois não há como competir com a força do que é único. Fica ali esperando aquela voltar pra algum canto escondido para assim provocar mais uma contaminação de angústia. Só que ela não sabe, que a cada vez que faz isso, é atingida por uma gota de amparo, que enfraquece a sua casca da indiferença.