Hoje

Tenho 35 anos.

Agora.

O dia em que era esperado um sol, nasceu com chuva, uma garoa que limpou as ruas cinzas de petróleo.

Estou nascendo.

Não cresci mais e da pouca altura passo despercebida da idade.

Meus cabelos brancos surgiram todos com muito risco, e foram deixados ali, depois de um cansaço de arrancar os seus antecessores.

Alguns dias atrás percebi também um cansaço marcado em meus traços. Era um cansaço fixo, permanecia ali estático, ainda que eu movesse as linhas das minhas expressões.

Disse assim ao espelho que não há como disfarçar absolutamente mais nada.

O tempo passou e ainda passa, dançando como uma criança que rodeia por mim eternamente em névoas cor de lembrança. Algumas vezes brinca de ultrapassar o meu corpo e me torna de novo uma menina.

Sou tão adulta, e ainda sinto tantas coisas de outros tempos.

Memórias boas surgem repentinas depois de tão esquecidas, parecem querer me animar e lembrar a descontinuidade da vida, assim como elas mesmas são.

Sou só eu, aqui dentro de mim. Eu tracei cada passo.

Inseguros, medrosos, apavorados, tristes, alegres, histéricos, eufóricos, descontrolados.

Ainda preciso aprender tanta coisa!

Ter paciência, lidar com o inesperado, responder perguntas, conversar em outras línguas.

E quantos desafios ainda, como mulher, me esperam por aí.

Quantas situações não quistas ainda hei de me esquivar.

Palavras, expectativas, rótulos, olhares, limitações impostas, julgamentos, interrupções.

Ainda não aprendi a ajustar o foco da máquina do olhar.

E andei um tanto desfocada nesses últimos tempos.

Tenho limpado minha janela, dia a dia, incansável.

Hoje, a primeira presidente mulher foi derrubada.

Agosto. Momento turbulento na política, na astrologia, o tempo fechou mas aqui dentro de mim dançam fagulhas querendo crescer para tomar proporção de uma fogueira e transformar-se.

Ainda preciso recuar, ganhar força e fôlego, minha cabeça gira, oscila entre feliz e triste.

Tenho 35 anos.

Hoje, aprendi sobre o imperfeito.

Aprendi sobre o que eu já tentei.

Sobreviver a turbilhões dentro e fora de mim, renascer, reconfiar. Esperar novos dias, aproveitar segundos de paz, clareza, felicidade. Rir da confusão, não dar alimento para ela crescer, e como uma flor de asfalto, florescer onde puder.