Querido Corpo,

Talvez você já tenha vindo com uma memória ferida de outras existências.

Eu não sabia.

Eu te vi frágil, mas eu tentei lhe proteger.

Não entendia muito bem como, então te deixei adoecido.

Fui me assustando com você, com suas reações.

Fui me entristecendo desde cedo com algumas limitações.

Eu não tinha muita força, assim achava.

Não aprendi a cuidar de você muito bem.

Eu aprendi muito sobre o medo, e um pouco sobre recuar.

Mas eu queria ir lá fora, num dia de sol, e quantas vezes lhe pestanejei.

Um pouco crescida, eu entendia que risos e opiniões externas eram a sua verdade.

Eu tinha um espelho, mas só conseguia ver imperfeições, faltas.

Eu te deixei crescer assim, acreditando que faltava.

Quando finalmente passei a ver a sua beleza e a gostar um pouco mais de ti, algo fugiu do meu controle.

Você foi agredido, mais uma vez.

Dessa vez, eu não conseguia nos proteger.

Foi então que eu desenvolvi a sensação de não querer estar presa a ti.

Eu comecei a desentender ainda mais porque você era desamado, até odiado, por mais que eu quisesse te levar pelo mundo comigo.

O tempo passou e fui te conhecendo, te moldando com o que eu escolhia para te cobrir.

Fui intercalando o gostar e querer me ver livre de você.

Algumas vezes você foi desejado de uma forma apavorante lá fora, e foi assim que eu te levei a fugir comigo, mas queria te esconder.

Então quando adulta, eu voltei a te descuidar.

Te encher de coisas para lhe esquecer.

Levei você para andar por aí, e nessa caminhada eu lhe destruí um pouquinho.

Não tomei conta de você, mais uma vez.

Um dia, quando estávamos quase enfim nos entendendo, você se lembrou de tudo…

Então me prendeu de verdade com você.

Me derrubou no chão e tentou dizer mais algumas verdades.

Eu não escutei.

Eu não conseguia, por mais que tentasse.

Parecia que tínhamos cortado o fio da nossa voz.

Hoje estou aqui, ouvindo seus gritos mesmo mudos.

Te confortando, te protegendo.

Te lembrando também dos dias de sentir alegria no rosto, quando o calor por dentro era tanto que aquecia a pele.

Das noites de sono tranquilo, do coração refletir as sensações que não possuem forma.

Te dizendo coisas que você sempre quis ouvir, e que eu achava que deveriam ser ditas lá fora.

Falo com você um pouquinho todos os dias, na tentativa de você agora, me escutar.

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