Um ano

Acordei pensando em 2015. E como sou um tanto exagerada, fiquei na cama mais um pouco não apenas fazendo algumas visitas nos últimos 12 meses, mas em algumas décadas também.

Dia 31 de dezembro sempre foi um dia sentido de uma forma muito semelhante, em qualquer ano ou lugar que eu estivesse.

É um dia de férias da vida.

No último dia do ano, o tempo respira mais demorado…

Nesse intervalo, a gente pode olhar para as coisas mais importantes, em uma perspectiva de pausa e revisão.

Desses pensamentos surgem muitas clarezas, a alma fica sensível às suas buscas, que não se limitam a um curto espaço de tempo.

Percebi, nessa hora a mais que levei para levantar, que os anos carregam características mais fortes de colheita ou plantio. E 2015 foi pra mim o ano da colheita. Embora eu tenha plantado tantas coisas também, já que nada é uma coisa só.

Comecei o ano em Paris, depois fui para Atenas, Istambul, outra vez Viena, e outra vez Lisboa…Recomecei em São Paulo com minhas duas malas de bagagem. E alguns momentos de extrema dificuldade em me readaptar. Fui lutando, fazendo apostas, tentando oportunidades, matando a saudade do calor, do rodar da saia num dia de sol, do chinelo pelas mesmas ruas, do sabor, dos amigos.

Entrei em um novo trabalho e demitida, aflorei algumas águas paradas. Fui pra casa, e lá fiquei, por meses. Mas ainda assim, fiz aulas de coral, estudei para ser educadora e contadora de histórias. Não consegui me formar em nenhum desses cursos, e não estive em nenhuma das apresentações finais. Senti essa ausência mais forte quando sentei para assistir uma delas. Desaguei em um choro do que poderia ter sido um ano sem depressão.

Uma velha amiga me perguntou qual era o motivo para eu estar mais uma vez deprimida. Eu não acho que houveram razões específicas, mas talvez elas formaram gotas d’água que ajudaram o rio correr.

Toda essa tristeza foi um presente e um aprendizado. Quando percebi isso, saí correndo para dar conta dos dias que me ausentei. Me voluntariei em muitos lugares. Discuti poesia e liberdade no centro, ajudei a organizar a reconstrução de uma praça em Santo André, fui em escolas ocupadas no Taboão, fiz rodas de palavras, falei mais de poesia, chorei junto.

Cuidei dos meus gatos, da minha casa, das plantas, do que senti… Foi como desconstruir coisas gigantes para começar novamente das pequeninas.

Encerro esse ciclo deixando ainda correr as águas profundas, quando lembro de tudo que fui nesses meses, de tudo que pensei, desisti e recomecei. Me despeço de um imenso ano , questionador em suas pausas, mas cheio de força de transformação. Aceno para novos dias renovada de esperança, mais consciente da impermanência e de mim mesma, cheia de sonhos por construir e realizar.

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