O quarto e o jardim

Cheguei com cautela à casa de refugiados sírios em Salzburg, na Áustria. Pensava em retratá-los como projeto do curso Migração, do fotógrafo alemão Tobias Zielony. Queria olhar para a vida que aquelas pessoas tateavam ali, para a espera entre a dor do que foi destruído e a incógnita do ainda por vir, e fugir de uma representação vitimizada.

Corredor da casa de refugiados em Mülln, Salzburg, com acesso ao jardim

Em Salzburg, o espaço da Cáritas no bairro de Mülln abriga apenas sírios, que em países europeus têm prioridade no processo de asilo e— ainda que a guerra não seja exclusividade da Síria. Diante de todo o horror, pode-se dizer que eles têm sorte: no centro histórico da cidade, vivem em quartos individuais ou para famílias, têm uma ampa cozinha coletiva e um jardim de frente para o Rio Salzbach, com bancos, mesas, árvores e brinquedos para as crianças. A poucos quilômetros dali, famílias de outras nacionalidades, muitas afegãs, vivem em colchões sob tendas. Em Traiskirchen, a 20km de Viena, o abrigo com capacidade para no máximo 1.800 pessoas tinha 4 mil refugiados no início de agosto — a maior parte sem cama, dormindo ao ar livre.

Foi no jardim de Mülln que meus recém-conhecidos — Omran, Bassel, Tareq, Barakat, Adeb, Ahmad, Mohamed, homens que viajaram sozinhos, alguns na esperança de no futuro trazer a família de forma segura — dividiram comigo seu almoço, mostraram fotos de parentes, amigos e bens deixados na Síria e contaram como chegaram a Salzburg. “A história é sempre a mesma”, disse-me Omran, cujo plano de ir à Alemanha foi frustrado na Áustria por um policial no trem, depois de ele repetir a tal história de seus conterrâneos: mais de dois meses de viagem, grande parte dela a pé.

Bassel no jardim

Para Omran, o pior dos dias em Salzburg era a expectativa. Eles passam meses ali, entre seus quartos e o jardim, sem saber se aquela cidade será a sua, sem saber quando saberão. Não autorizados a trabalhar, seu contato com o mundo externo depende de voluntários que lhes mostram Salzburg, desenham com as crianças e dão aulas de dança e alemão (as aulas oficiais de língua, oferecidas pelo governo, só começam depois que o asilo for aprovado). Em quatro meses, Bassel, que conseguiu uma vaga num curso intensivo, já consegue se comunicar em alemão. Alguns falam inglês; outros, como a família de Lin, apenas árabe.

Lin e Ranim brincam no quarto, observadas por Ahmad (à esquerda) e pelo pai, Ebraheem

Lin, 4 anos, viajou durante dois meses com suas irmãs mais velhas, Tasneem e Ranim, e os pais, Rana e Ebraheem. Fico sabendo que eles conseguiram a permanência na Áustria, mas no início de agosto, quando estive lá, eles ainda esperavam. Falando comigo por meio de dois comandos em alemão — “foto” e “venha, rápido” — , Lin me levou ao quarto da família. Sem falar árabe, fiquei por ali, fotografando o compasso de espera da tarde, por vezes monótono, mas também lúdico e amoroso. De vez em quando, Ranim conseguia ser minha tradutora com o que já sabia de alemão, aprendido nas aulas dos voluntários.

Lin no quarto da família; sua mãe, Rana, prepara o jantar (abaixo)

Eu, que havia chegado antes do almoço e ia ficar apenas um par de horas, jantei com eles — e foi sem dúvida minha melhor refeição em Salzburg (pão árabe, arroz com castanhas, batata e frango). Fui acolhida. Eles não sabiam quem eu era, de onde eu vinha, o que faria com aquelas fotos. Confiaram em mim, abriram sua casa, deixaram que entrasse com uma câmera fotográfica.

Voltei no dia seguinte, pois desejava conhecer mais mulheres — os homens ainda são maioria, mas elas também vêm. Muitas não quiseram ser fotografadas. Rawan disse que era comum que passassem por ali, tirassem fotos e fossem embora, e ela estava cansada, mas concordou. Ficou surpresa quando voltei mais uma vez, para dar a eles fotografias impressas e um convite para a exposição que os alunos fariam na Fortaleza de Hohensalzburg, castelo medieval onde a Summer Academy tem salas para seus cursos de arte no verão. Eu exibi a série que, por sugestão do Tobias, chamei de “O quarto e o jardim”.

Ahmad e Ranim à espera do tempo passar
Barakat no jardim
Rawan no jardim

Muitos foram à exposição, incluindo Rawan. Perguntei se gostava da fotografia escolhida, feita num momento não posado para a câmera. “Acho estranho, porque sempre estou sorrindo nas fotos. Mas eu sou triste por dentro, e você captou isso”, disse ela, que viajou sozinha da Síria com destino a Salzburg, porque seu irmão já morava na cidade. "Gosto daqui, quero ficar".

De volta a Berlim, fico sabendo pelo Facebook que alguns dos meus novos amigos já fizeram a entrevista oficial para a permanência, ou mesmo já conseguiram os papéis. Omran me escreve para dizer que finalmente tem seu próprio apartamento: "Agora você sempre tem onde ficar em Salzburg. Pode vir quando quiser."


É comum ouvir que os refugiados devem ser gratos pelo que os Estados que o recebem fazem por eles — porque eles não teriam obrigação de recebê-los. Transforma-se em moral uma questão que é política.

Na obra O cidadão — exibida no pavilhão alemão da Bienal de Veneza até 22 de novembro — , Tobias Zielony fotografa refugiados ativistas de Berlim como seres políticos, e não como vítimas ou devedores. Por meio da fotografia, Tobias revela sua potência. É um contraponto às imagens de destruição que nos acostumamos a ver quando refugiados são o tema.

Pensando nessa frequente visão de que imigrantes devem algo, são um incômodo e por isso têm que obedecer e agradecer, decidi exibir na exposição dos alunos um vídeo que fiz por acaso: Ebraheem lê o livro didático de alemão e se esforça para pronunciar a palavra "Entschuldigung". A graça da dificuldade da língua, acompanhada por Omran, torna-se um tanto constrangedora após tantas repetições da palavra — porque, em alemão, ela significa "desculpas".

https://vimeo.com/140538096


Omran, Rawan, Bassel, Rana, Ebraheem, Tareq, Adeb, Ahmad, Tasneem, Lin, Ranim, Barakat, eu é que sou grata por tanta gentileza e hospitalidade.

Na exposição dos alunos. Foto: Maria Hellekalek-Auer
Lin e eu