Dissecando as relações raciais através do Caso OJ Simpson - terceira parte

PARTE III: “… ele está fugindo da polícia, então agora ele é negro.”

Essa terceira parte de nossa série vem como uma continuidade direta da parte dois. O plano original era manter as duas partes juntas mas ninguém aqui quer ler um livro no Medium, não é mesmo?

Mas, há quem queira.
Então aqui vão os links da parte I:

E da parte II:

Então, se você já tomou sua água, já foi ao banheiro ou já tirou sua soneca, vamos seguindo de onde paramos pois acho que já temos elementos suficientes para iniciar nossa análise que, se pudesse ser resumida em apenas uma imagem, com certeza seria com essa aqui:

Nicole e Oj em um momento de 0st3nt4çã0 f0r4 d0 n0rm4l

Aqui, tentarei mobilizar um dialogo um pouco mais denso entre raça, classe e gênero. Para isso, usarei como motor uma cena protagonizada pelo personagem Chris Darden no segundo episódio de American Crime History, os acontecimentos exposto na parte II dessa série de textos e um artigo maravilhoso da intelectual negra Sueli Carneiro.

Fique confortável e vamos lá:


Em seu texto Gênero, raça e ascensão social, Sueli Carneiro, muito brilhantemente analisa esses três elementos na sociedade brasileira sob uma perspectiva que, em minha opinião, casa perfeitamente com todos os fatos apontados sobre a vida de OJ nessa série de textos. 
Toda citação presente nesse texto foi retirado desse artigo fodão da Sueli que você pode ler clicando aqui: AQUI

Para iniciar a conversa, citando o trabalho Da cor do pecado de Edith Piza, Sueli nos diz:

“…a construção da identidade é um processo que se dá tanto pela 
aproximação com o outro (aquele com quem desejamos nos assemelhar e que é qualificado positivamente) como pelo afastamento do outro (de quem nos julgamos diferentes e qualificamos negativamente). Na tentativa de diminuir o medo e a ansiedade causados pela possível semelhança ou dessemelhança entre eu e o outro reproduzo imagens que me aproximem do positivo e me afastem do negativo”.

No primeiro texto falei sobre a questão da identidade e da dupla consciência: a tendência do negro que vive em uma sociedade racista de se enxergar a partir de uma concepção branca do que seria ser negro, de reproduzir concepções vindas da branquitude sobre o comportamento negro e tentar se afastar do que é convencionado pelo branco como um “negro problemático” incorporando os ideais também brancos do que seria um negro aceitável. Esse é um processo de formação de identidade como qualquer outro, do qual a fuga depende de uma tomada de consciência racial que muitas vezes é difícil de se conseguir em sua plenitude. Nesse processo de formação identitária, o negro inconscientemente passa a ver o mundo conforme os ideais brancos do que seria o outro e entra em uma lógica onde os demais negros deixam de ser seus semelhantes e passam a ser o outro a ser evitado.

Pensando nisso, vamos voltar até uma cena do segundo episódio de American Crime History: the people v OJ Simpson.
A cena ocorre quando Chris Darden, que depois fará parte da promotoria no julgamento de OJ, tem uma breve discussão ao ver seus vizinhos acompanhando o caso pela TV e torcendo por OJ.

Segue o diálogo na integra entre Chris Darden [C]e seus vizinhos [V]:

C — Eu não sei o que vocês estão comemorando. Jim Brown era um jogador muito melhor. 
V — Chris, qualé. O O.J é daqui. Ele estudou no colégio Galileo!
C — E daí? O.J nunca retribuiu! Você vê algum parque por aqui batizado em nome dele? Algum centro infantil? Agora, Jim Brown, ligava para os negros, ele era um ativista. Ele lutava! Depois que O.J ficou rico ele nunca mais voltou. Ele se tornou branco.
V — Bem , ele está fugindo da polícia, então agora ele é negro. **risos risos risos**
“OJ nunca retribuiu.” — em inglês: “OJ never gave back.” E na cena ele menciona o Jim Brown! Lembra que falei sobre ele primeiro texto?

Talvez vocês não saibam, mas “give back” é mais do que um verbo que significa “devolver” ou “retribuir” na comunidade negra norte-americana: give back é um conceito. Podem testar, joga ai no Google “blacks celebrities who give back” — você irá encontrar uma série de listas e sites falando sobre negros famosos que contribuem com a comunidade de onde vieram ou não.

Mas… retribuir o quê? Devolver o quê?
Afinal, se um negro pobre saí de uma comunidade negra carente e passa por um processo de ascensão social fora dela, pra quê ele precisaria “devolver” algo para o lugar de onde veio?
Bem, a questão é simples e bem menos material do que você provavelmente julgou: considera-se que sem a comunidade negra onde nasceu e cresceu, sem o apoio e as lutas travadas por essa comunidade no passado, esse negro que ascendeu socialmente sequer existiria. Isso pode não ser falado em alto e bom som, mas é um esquema que funciona no subjetivo de muitos negros que se tornam celebridades: ao conseguir acesso ao dinheiro que nunca tiveram ou que sabem que outros negros do país nunca terão, a celebridade negra o usa para trazer melhorias para os seus demais. Essas melhorias podem aparecer por meio de doações financeiras, de declarações públicas visando a melhoria da população e dos bairros negros ou pelo financiamento de estrutura para esses bairros, como os parques e centros infantis que Chris Darden cita.

Mas “OJ nunca retribuiu”.
“Ficou rico” e “nunca mais voltou”.
“Se tornou branco”.
Obviamente ele não se tornou de fato branco, mas como falamos no texto II, sua imagem pública agora era totalmente ligada ao mundo e aos gostos lidos como brancos e não ter seguido a regra implícita de manter contato e colaborar com a melhoria dos seus provavelmente não ajudou a mudar essa idéia. Tá, beleza que ninguém é mesmo obrigado a ajudar o outro se não quiser, mas entre outras coisas, esse modo de vida demonstra que OJ simplesmente não mais via os demais negros como “os seus”.
Em toda sua carreira houve insistência em se firmar como um grande exemplo de mobilidade social individual e independente que só chegou onde chegou graças ao talento e a perseverança. Graças ao país legal em que nasceu e que lhe deu oportunidades maravilhosas. Graças ao fato de ter se envolvido no mundo dos esportes, esse mundo perfeito onde só te julgam por seu talento e jamais por sua cor. Não foi isso que vimos no primeiro texto?
Pois então, lá (no final dos anos 60 até metade dos anos 70) OJ ainda mantinha uma imagem muito atrelada a sua família negra e a seus amigos negros do mundo do futebol, mas ao abandonar todos esses campos e optar por mergulhar em um mundo completamente branco, suas referências também são alteradas, assim como suas percepções de mundo.
A comunidade negra já não cumpre mais um papel que trás um sentimento de pertencimento em nenhum campo, porém o outro mundo, o mundo branco, também é incerto. É preciso cunhar estratégias para sobreviver ali dentro.

Sobre isso, Sueli Carneiro — aquela linda — também fala.
Ao analisar o ascensão social do homem negro brasileiro, a autora conceitua a coisa como um mito, algo que não existe efetivamente. Isso porque, no Brasil, qualquer homem negro, por mais rico e famoso que seja, não tem poder real: não é dono de bancos, de canais de TV, de multinacionais ou conglomerados industriais, não tem real poder político e nem uma importância intelectual e acadêmica reconhecida por todo o país.

“Qualquer poder que o homem negro exerça ele o faz por delegação do branco de plantão que pode destitui-lo a qualquer tempo, por isso é consentida a mobilidade individual de alguns negros ao mesmo tempo que é controlada e reprimida a mobilidade coletiva posto que o negro em processo de ascensão individual esta fragilizado e sob o controle do poder do branco e uma das garantias exigidas pelo poder branco a este negro (para que ele não caia) é a sua lealdade.
(…)
Mesmo os negros que devem o seu sucesso aos seus próprios talentos pessoais são prisioneiros desta perversa dinâmica e vêem-se impotentes para transferir o seu prestigio pessoal para o seu grupo racial.
Embora desfrutem individualmente de uma situação privilegiada sabem que não representam nada que tenha relevância politica social ou econômica porque os negros enquanto coletividade são considerados a parcela descartável de nossa sociedade e, se bem sucedidos individualmente, servem apenas para legitimar o mito da democracia racial.”

O mito da democracia racial aqui só serve ao caso brasileiro. No caso norte-americano, poderíamos trocar o termo por “mito da meritocracia” ou “mito das oportunidades iguais independente das questões raciais” e estaríamos novamente localizados geograficamente aonde OJ Simpson se encontrava.
Na sociedade norte-americana, ao contrário da nossa, existe uma classe média negra de certa forma numerosa, alguns negros ali conseguem ter parcelas de poder consideradas por Sueli como realmente relevantes e mobilizadoras, porém a grande maioria (as celebridades no caso) não o tem. O give back vem como reconhecimento dessa realidade, o saber que o Estado realmente não fará muito pelos negros coletivamente mesmo que permita que alguns consigam fugir das estatísticas, então é preciso usar as armas que a sociedade capitalista fornece para tentar remediar o problema coletivo.

Ou usar as armas que a sociedade capitalista fornece pra garantir o seu individualmente mesmo e fodasse mermão. Esse parece ter sido o caso.

OJ Simpson era um atleta que sentiu que sua fama poderia não durar naquele meio então resolveu estender sua atuação para ramos que fossem dar um retorno financeiro mais duradouro. Para isso, OJ contou, além da esperteza e carisma, com sua rede de contatos: sem ela, ele teria conseguido se enfiar no mundo empresarial apenas com força de vontade e simpatia? NÃO.
(até porque força de vontade e simpatia uma porrada de gente por aí tem)

Bill Cosby: antes de ser conhecido como um notório misógino e estuprador, foi um bom exemplo de conduta do negro midiático esperada nos anos 70 e 80 e que mostram que a linha entre “comportamento modelo” e “uncle tom” era bem sutil.

Sem cumprir um papel importante na sociedade branca norte-americana sendo uma figura que colaborava com um certo projeto político e com uma certa visão de mundo, OJ teria prosperado tanto? Não também. Talvez hoje em dia, talvez se tivesse ficado famoso nos ano 90, mas com certeza isso não era algo comum de se ver nos anos 60 e 70 entre os negros que mantinham uma consciência racial apurada.

Após as lutas por direitos civis dos anos 60 e a assinatura de leis contra a segregação e o racismo, a situação do negro norte-americano melhorou, mas apenas em partes e apenas para alguns. 
As políticas governamentais trazidas por Nixon e Reagan trouxeram uma nova realidade de preconceito e racismo muito mais difícil de ser combatida e denunciada. Os casos apresentados no boxes do texto 2 são apenas os que foram reportados e tiveram alguma cobertura da imprensa: feche os olhos por um minuto e tente imaginar a totalidade de mortes, prisões e espancamentos pelos quais negros e latinos anônimos tiveram e ainda têm que passar.
Todos os casos apresentados, sejam de violência, abuso, descaso da justiça ou revoltas da população são apenas fragmentos que espelham uma nova realidade que persiste até os tempos atuais — vide as revoltas de Fergunson, Baltimore e o surgimento do movimento Black Lives Matter.

OJ Simpson foi um homem que fez parte do reduzido número de homens negros que conseguiu viver longe dessa realidade.
Enquanto nos anos 60 foi blindado por transitar em instituições onde as lutas raciais não chegavam e em meios onde sua utilidade como jogador era mais importante que sua cor o fazendo acreditar que essa era uma prova da ausência de racismo; nos anos 70 e 80, se isolou em meios onde os negros eram raros e onde a questão racial não era debatida pois a única língua compreendida era a língua do dinheiro.
O modo que a polícia de Los Angeles agia em Brentwood talvez seja a melhor ilustração do funcionamento da lei dentro de uma sociedade de classes. Os moradores que ali viviam não compreendiam a revolta do povo negro, não conseguiam admitir ou visualizar a hipótese de que a polícia pudesse ser violenta e racista pois nunca precisaram lidar com o tratamento que as periferias recebiam. A cada revolta que explodia, seja a de Miami, seja a de Los Angeles, o discurso fomentado entre a população branca era justamente aquele que coloca o negro e o pobre como descontrolados e furiosos que atrapalham o bom andamento do país e da ordem, o que só pode ser explicado por uma sociedade onde o narcisismo da branquidade coloca as suas narrativas como as únicas disponíveis e que condicionam todo o restante da população.
OJ era um fruto de sua época e uma ferramenta importante para o bom funcionamento de todo o sistema de exclusão que oprimia e matava negros em lugares distantes de Brentwood.
Quantas vezes questionamos o racismo e somos interrompidos com exemplos de pessoas que individualmente conseguiram furar esse bloqueio? Quantas vezes uma capa de revista com uma pessoa negra é usada para banalizar denúncias e nos calar pois, afinal de contas “se ele conseguiu, você também consegue”. O racismo se torna então um elemento do passado, um erro na história mundial que pode ser esquecido quando nos deparamos com negros em mansões, em telas de cinema e em propagandas de sapatos.
O dialogo entre o povo negro e a branquitude permanece inexistente ao passo que inexiste uma total compreensão de histórias e realidades distintas. Realidades que se mantêm distintas porque é de interesse do sistema que assim seja.

A sociedade capitalista precisa da desigualdade para se alimentar e sobreviver. Reagan jamais teria conseguido cumprir seu mandato se boa parte da população não tivesse se beneficiado de suas políticas enquanto outra parte perecia. OJ foi uma dessas pessoas que se beneficiou com o neo liberalismo de Reagan e, como é impossível separar as questões, com o racismo e o elitismo postos pelo sistema jurídico e político da época.

Sejamos sinceros, qual seria a real viabilidade de OJ Simpson sair vivo ou em liberdade após fugir de uma ordem de prisão se ainda fosse um homem negro vivendo em um project em São Francisco? Qual seria a viabilidade de OJ Simpson não perder suas chances dentro do sistema se tivesse sido um homem negro pobre agredindo uma mulher branca de condições financeiras melhores? Basta pensar na quantidade de casos vistos no texto II onde vemos homens negros inocentes sendo encarcerados sem investigação. Basta lembrar da quantidade deles que acelerou para não ser parado no trânsito por uma polícia que entendiam como violenta, mas acabaram mortos no final justamente por isso.
Lembrando que isso não é uma celebração da justiça punitivista, um pedido para que todo mundo seja abusado e morto igualmente, mas sim uma constatação que o sistema punitivista — seja aqui ou nos EUA — só o é por completo quando lida com sujeitos muito bem delimitados.

Mas ai você me pergunta
“Se o negro que vive integrado ao mundo branco é sempre vigiado e cobrado para se manter na linha, o fato de OJ ter agredido sua esposa, uma mulher branca, não era fator suficiente para que ele fosse descartado pelo sistema?”

Pois é, não.
E explicarei a vocês o porquê.

OJ Simpson tinha consciência de seu papel?
Nunca saberemos, talvez ele realmente acreditasse no funcionamento justo do sistema do qual usufruía.
Porém, sua relação com Nicole nos dá boas dicas de que internamente ele tentava meios constantes de se manter no topo, de cumprir sempre com a lealdade que lhe era cobrada e de mandar mensagens à branquitude, mesmo que apenas simbólicas.

Partindo de conceitos antropológicos, Sueli Carneiro afirma que a união de semelhantes apresenta-se como “o estado zero das relações sociais”, isso porque a união entre diferentes foi desde o começo dos tempos um elemento que permitia aumentar o campo das relações sociais ligando “grupos que segundo certos critérios se entendem estrangeiros e por isso mesmo perigosos uns aos outros”. Nada mais comum e natural, logicamente.
A questão, para Sueli, é como esse principio funciona entre diferentes tipos de negros quanto à relações amorosas com pessoas brancas dentro de uma sociedade racista.

Eu sei o que você agora deve estar pensando… POW SUZANE, TU VAI ME PARAR O TEXTO PRA METER CRITICA SOBRE PALMITAGEM, SÉRIO?
1º me respeita q aqui as fita é outra;
2º sei que você já leu demais, seus olhos estão doendo e tal, mas sério: confia em mim mais uma vez.

Voltando de onde paramos,
Os diferentes tipos de negros em relações amorosas com pessoas brancas, segundo Sueli Carneiro:

  • Para homens e mulheres negros comprometidos com a mudança das relações raciais, o relacionamento com pessoas brancas não é entendido como objeto de consumo, símbolo de status nem garantia de mobilidade social. Os companheiros brancos nesse caso são parceiros, “seres humanos que não simbolizam êxito, mas sim a possibilidade do encontro da solidariedade e do amor entre grupos étnicos e raciais diferentes”;
  • Já para negros envolvidos em um processo de mobilidade social individual descolado das estrategias de luta de suas comunidade, a relação inter-racial “representa a consolidação de uma aliança sem a qual esta mobilidade estaria comprometida”. Nesse sentido, seus companheiros brancos são objetos, símbolos e mensagens a serem enviadas e recebidas.

Para Sueli, nossa sociedade é patriarcal e branca, logo, são os homens brancos que detêm de fato o poder simbólico e real. Até aqui estamos de acordo e sem grandes novidades.
Dentro dessa lógica onde apenas o homem branco é um elemento totalmente dominante, a mulher branca permanece então com parcelas limitadas de poder porque também é atingida e destratada quando as lógicas patriarcais falam mais alto.
Para um homem negro que visa uma ascensão e uma aceitação plena dentro dessa sociedade branca e patriarcal, a mulher branca se torna um elemento de dialogo e aproximação, um modo do negro deixar de fazer parte do grupo dos estrangeiros e ser inserido dentro da sociedade patriarcal branca por meio de uma aliança. O poder aquisitivo semelhante é obviamente importante para conseguir firmar essa aliança, afinal, além de patriarcal e branca, nossa sociedade também é condicionada pela classe e só a união desses três elementos estruturantes consegue de fato dar poder ao sujeito de um modo pleno. Permanecer com a mulher negra, nesse sentido, é como um sinal de que a ascensão não foi completa, pois, como dissemos no texto II, a mulher negra é o cotidiano, o esperado — se a condição econômica mudou, o homem negro nessas condições quer sair da estaca zero, quer mostrar que consegue ir além em todos os campos. 
Contudo, como formulado na discussão sobre o mito da ascensão social do homem negro, o poder pleno só é dado ao sujeito branco e só é alterado sob sua tutela em uma lógica determinada historicamente pela dominação exercida pelo homem branco sobre os negros. O resultado de mais de 5 séculos disso é um sentimento de impotência social, política e econômica que acomete toda a população negra e principalmente os homens que, diante dessas condições, se percebem psicologicamente incapacitados de cumprir o papel patriarcal de serem os provedores do lar: incapacidade também dada historicamente pela escravidão, pela dificuldade de ascender socialmente em uma sociedade capitalista branca e pelo genocídio da população negra que atinge principalmente a porção masculina do povo; todos esses, elementos que fizeram e ainda fazem com que mulheres negras raramente sigam a lógica patriarcal de serem responsáveis apenas pelos afazeres do lar e da maternidade enquanto apenas os homens trabalham (que curiosamente era a conduta que OJ Simpson exigia de sua primeira esposa, Marguerite).

Sendo assim, ter uma mulher branca ao lado durante um processo individual de ascensão social pode representar a possibilidade de uma revanche histórica simbólica.

“A mulher branca permite a esse homem negro apresentar-se diante do homem branco aliviado do complexo de castração porque tornou se capaz de tomar a mulher dele, condição indispensável para que homens machistas que historicamente não puderam defender suas mulheres e tiveram que cedê-las a outros, sintam se recuperados em sua auto estima e capacidade fálica.”

Sabemos que dentro de uma lógica patriarcal, ter a mulher ao lado não é o suficiente. É preciso dominar. É preciso ter certo poder sobre ela e o privilégio de poder transformar um ser humano feminino em apenas um objeto, algo que se pode valorar e regrar. A desumanização de mulheres é um dos pilares desse controle e sem ela a sociedade patriarcal ruí.

“…a desumanização de mulheres funciona como elemento de afirmação da humanização do homem negro porque o inscreve na lógica masculina dominante e ao fazê lo eleva-o a mesma categoria dos homens brancos o que, por conseguinte, ratifica o mito da mobilidade social do homem negro.”
Semelhanças com a atualidade não são apenas coincidência.

SIMPLIFICANDO
Ao agredir sua esposa, OJ não quebra com a lógica da sociedade que serve, pelo contrário: ele reforça essa lógica e mostra domínio sobre os mecanismos dela.
A mensagem implícita é: ok, ele tem grana e bate na mulher, nós também fazemos o mesmo, se for pra lascar com ele por isso, a gente também pode perder, então vamos só tomar um chá e deixar isso pra lá.

Aqui chegamos ao ponto chave de todos os três últimos textos:
Só conseguimos entender plenamente o caso OJ Simpson quando compreendemos sob quais pilares se constrói a sociedade em que vivemos.

  • O racismo é um elemento estruturante sem o qual OJ teria sido quem foi e, principalmente sem o qual, OJ não teria recebido a solidariedade da comunidade negra norte-americana.
    Isso porque vivemos em uma sociedade de classes e os negros pobres estavam vivendo o pão que o diabo amassou enquanto podiam ver um OJ próspero sendo exibido na TV, no cinema e nas colunas sociais. OJ conseguiu fugir dessa realidade e se manter em uma posição onde não dialogava com o sofrimento da população negra ao mesmo tempo que era usado pela mídia hegemônica como uma modelo a ser seguido por toda essa população. Sabe-se que os ricos não são atingidos pela lei do mesmo modo que os pobres, sabe-se que Brentwood não recebe o mesmo tratamento violento que a população negra recebe nas periferias onde vivem. Um homem negro que por muitas vezes foi representativo para jovens negros que sonhavam em conseguir sair da lógica de exclusão, sendo preso e perseguido pela polícia em rede nacional, despertava sentimentos que dialogavam com toda uma vivência negra de violência, com décadas de convivência com uma polícia que é entendida como racista e não confiável e com a consciência de que a ascensão social é um mito: não importa o quanto o negro prospere, se a sociedade branca decidir, pode o derrubar quando quiser. Mesmo os que jamais se identificaram com a figura de OJ Simpson não poderiam ficar imunes ao caso, pois, como afirmam os vizinhos de Chris Dardem na cena apresentada no início desse texto, estar envolvido em uma questão policial o reaproxima da comunidade de um modo não antes visto.
  • Tudo isso piora consideravelmente quando lembramos que grande parte da população branca simplesmente desconhecia ou fingia desconhecer a realidade de opressão que fazia parte da vida dos negros. Os ricos de Brentwood, os empresários de Beverly Hills, os golfistas de Bel-air: todos esses personagens que por tanto tempo fizeram parte da rotina de OJ poderiam até acreditar em sua inocência (até por não verem as agressões contra Nicole como algo realmente preocupante), mas não poderiam colocar a violência e o racismo da polícia como um elemento realmente definitivo para criar dúvidas sobre o caso pois simplesmente nunca precisaram lidar com isso. Nunca se preocuparam em saber como viviam suas empregadas ou os que serviam suas mesas e provavelmente, se soubessem, diriam que eram os próprios negros pobres os culpados.
  • Tudo isso poderia ter tido rumos extremamente diferentes se não vivêssemos em uma sociedade absurdamente misógina onde a violência contra a mulher não é mobilizadora ou levada com a seriedade necessária. Mulheres, sejam ricas ou pobre, brancas ou negras, sabem que o sistema judiciário e a mídia também não existe para servi-las e percebem que o tratamento é desigual em uma lógica que favorece sempre o agressor e principalmente o agressor que está envolvido na dinâmica do capital com algum privilégio. O fato de OJ Simpson ter um histórico de agressão contra Nicole Brown não necessariamente indica que foi ele o assassino, mas o fato de que ele nunca foi punido por isso, com certeza colabora para que os sentimentos da população feminina se apresentem sensíveis às suas alegações de inocência e críticas aos seus defensores.

Estamos então diante de um julgamento que não foi somente mais um caso judicial envolvendo uma celebridade problemática.
Estamos diante de uma disputa onde podemos acompanhar os mais diversos elementos sociais em debate e em confronto. Um debate fomentado por uma mídia que por diversas vezes reforçou todas essas relações de opressão ao abusar do racismo e do sexismo em suas abordagens sobre o caso.

É impossível compreender a vida de OJ Simpson sem um conhecimento sobre a sociedade da qual ele foi fruto.
E é impossível compreender seu julgamento, seus desdobramentos e sua situação atual sem praticar o mesmo exercício.

Falar de OJ Simpson se tornou então mais do que falar sobre um homem.
Falar sobre OJ Simpson é hoje um elemento que mobiliza tudo o que nos é sensível.
É falar sobre tudo o que faz com que nosso sistema sobreviva;
E tudo o que faz com que nosso sistema seja questionado.


É isso.
Acabou.

Se você chegou até aqui: parabéns. Você realmente gosta de ler!

O próximo texto, focado no julgamento, virá, porém ainda sem previsão porque esses últimos dois realmente deram trabalho, rapaz.

Espero que tenha colaborado com algumas reflexões e respondido algumas perguntas que precisam sempre ser feitas.

Então, 
até a próxima.
;)