Dissecando as relações raciais através do Caso OJ Simpson - segunda parte

PARTE II: Mesma cor, dois universos.

No último domingo a série documental produzida pela ESPN — OJ: Made in America — foi premiada com um Oscar. 
Eu recomendei esse documentário no meu perfil pessoal do Facebook, assim como a idéia dessa série de textos surgiu justamente quando eu terminei de assistir todos os episódios e disse pra mim mesma: WOW!
Logo, nada mais justo do que publicar mais um episódio da série mais controversa dos anos 90 analisada por um viés histórico por nada mais nada menos que: eu mesma.

Se você não leu a primeira parte então PARA TUDO e vem cá:

Pronto? ÓTIMO.
Esse segundo texto será de uma leitura mais fluida, sem muita teoria: isso deixaremos para o terceiro.

E essa imagem ficará aqui como um simbolo de onde quero chegar no final de tudo.

Você vai achar em alguns momentos que o texto está confuso, sem nexo ou que o foco está sendo na vida banal e cheia de futilidades de um OJ Simpson milionário. Mas é aquela coisa: confia e vamos seguindo nossa lógica, continuando de onde paramos: os anos 70. 
Preparados?


1970 - Governo Nixon
Após os anos 60, década auge da militância negra, Richard Nixon assume a presidência dos Estados Unidos e coloca como prioridade de governo a volta da "Lei e da Ordem" com um discurso de combate à permissividade, a criminalidade e a baderna no país.Muitos sulistas altamente racistas, se identificando com esse discurso de "volta à ordem" começam a apoiar o Partido Republicano, partido de Nixon. Em 17 de junho de 1971, o presidente declara que o abuso de drogas é o inimigo público número um do país e lança o que ficou conhecido como "Guerra contra as Drogas". Punir o criminoso passa a ser o foco e não as tentativas de eliminar as causas do crime. Assim começa a ser montada a "Era do encarceramento em massa".

Com a escalada lógica do primeiro texto, vocês podem presumir que os anos 70 foram ótimos para OJ Simpson. Estão corretos.
Foi sua década auge e isso só pôde acontecer porque o cara cumpria uma função importante na mídia se apresentando como esse cara negro que não vê cores, que não acha que a raça seja um fator realmente relevante e que consegue agradar negros e brancos sem criar grandes desconfortos em nenhum dos lados: com as lutas pelos direitos civis tendo mudado toda a sociedade, um personagem como o que OJ incorporava em sua vida pública e pessoal era necessário e todas as oportunidades pra ele só crescer nesse meio foram dadas. Esse foi basicamente o assunto principal do primeiro texto dessa série, onde tentamos mobilizar história e questões psicológicas do negro que tenta sobreviver em meio a uma sociedade que tem o racismo como um de seus pilares estruturantes.

Agora vamos tentar ir um pouco além.
Com seu sucesso, OJ Simpson conseguiu façanhas raras para um homem negro e formou uma rede de contatos invejável que lhe permitiu sonhar cada vez mais alto, algo que costuma acontecer quando você é alguém famoso e carismático em ascensão. Em seu ciclo de amigos próximos começaram a aparecer figuras como empresários, executivos de Hollywood, milionários por profissão e celebridades diversas. Robert Kardashian é um dos amigos de OJ que exemplificam bem essa relação: em condições normais seria inimaginável pensar em uma amizade entre um garoto negro vindo da periferia de São Francisco e um empresário multi milionário praticamente desconhecido na grande mídia; mas essa amizade não só aconteceu, como se tornou uma extensão importante da vida de OJ que se tornou uma figura constante na vida da família Kardashian — Jenner, compartilhando a rotina e também todos os luxos que essa relação permitia.

Essa foto me deixou realmente contente, porque é tipo a família Kardashian-Jenner com OJ Simpson fazendo algum tipo de viagem provavelmente muito chique, mas por um instante eu consegui imaginar toda essa galera batendo essa foto aqui em Peruíbe depois de mandar aquele frangão com farofa pra dentro — gente como a gente.

Nessa época o protagonista de nossa história também começa a receber convites e resolve investir pesado na carreira de ator: e não foi tipo ex-BBB fazendo pontinha em qualquer bosta não, meus amigos — o cara foi chefe de segurança do edifício que pegou fogo no premiado The Towering Inferno (no Brasil, Inferno na Torre) e foi provavelmente o primeiro negro a interpretar um astronauta norte americano no cinema — eu não achei nenhum antes ao menos — no não tão premiado assim Capricorn One.

OJ ao lado de atores de peso como Steve McQueen e Paul Newman em Inferno na Torre (1974) e OJ ao lado desses caras que eu não faço idéia de quem sejam em Capricorn One (1977)

Carreira no esporte indo bem, filmes relevantes sendo feitos, convites para participar de campanhas de publicidade, trabalho como comentarista na TV… ATÉ ANDY WARHOL PINTOU O PARÇA EM 1977!

Mesma época em que ele pintou o famoso Pelé, outro grande ídolo conhecido por ter posicionamentos políticos certeiros e a luta racial como um dos seus maiores pilares e… OPA PERA

Com todo esse sucesso e com todo esse dinheiro entrando, os gostos de OJ e seus hobbies começam a espelhar sua condição financeira e sua rede de contatos: o tênis, o golfe, as festas luxuosas, os espaços vips e outros elementos que dificilmente identificamos como pertencentes ao mundo negro passam a definir a rotina e personalidade de OJ Simpson.

1979: Caso Eula Love.
Eula May Love foi uma mãe e dona de casa nascida no estado sulista da Louisiana e que se mudou para Los Angeles para tentar uma vida melhor longe do racismo do sul. Desempregada e sem conseguir manter suas contas em dia, passou a receber pressão da companhia de gás para pagar uma conta atrasada de cerca de 50 dólares. No dia 3 de janeiro de 1979, dois oficiais da polícia foram até sua casa cobrar a conta em atraso. Eula se desesperou com a situação e saiu de casa segurando uma faca de cozinha tentando fazer com que os policiais fossem embora. Durante a discussão, os policiais dispararam 8 tiros em Eula e a mataram instantaneamente, na frente de seus filhos.
Eula Love (1939–1979)
O caso causou revolta na população negra e a repercussão dele fez com que os policiais envolvidos fossem a julgamento. Ambos foram inocentados alegando legitima defesa, afinal, a faquinha de cozinha de Love devia mesmo ser uma grandíssima ameaça maligna para DOIS policiais ARMADOS.
Um advogado negro, atuante em Los Angeles e especializado em direitos civis, iniciou uma investigação para confirmar a má conduta policial e com isso conseguiu que os filhos de Eula Love recebessem uma indenização paga pela cidade. O nome desse advogado era Johnnie Cochran.

Os anos 70 estavam chegando ao fim, era hora de dar mais um passo: se mudar com a família para Brentwood.
Como explicar Brentwood pra vocês? Talvez dizendo que é um bairro de Los Angeles que fica entre Beverly Hills (o lar das patricinhas da Sessão da Tarde) e Bel-Air (o lar do Tio Phil, da Tia Vivian e de todo resto da parte rica da família de Will Smith em Um Maluco no Pedaço)

O luxo, a ostentação e a futilidade eram plano de fundo da história de Alicia Silverstone nesse filme de 1995 que todo mundo assistiu e que foi gravado em uma época onde nem soava assim tão estranho colocar uma atriz negra pra fazer o papel de moradora da região.

Brentwood, assim como os bairros vizinhos, era o lar das celebridades e dos milionários — muitos negros de L.A provavelmente nem saberiam dizer onde essa joça ficava em 1977, época em que OJ Simpson se mudou pra lá fazendo parte do seleto grupo de dois ou três negros que tinham cacife o suficiente para viver na região. Lá ele comprou uma casinha humilde com piscinas (sim, no plural, meu bem), quadra de tênis e até cachoeira, assim como ficou conhecido por dar festas fodonas para seus brothers famosos, milionários, empreendedores e geralmente brancos na mansão conhecida como Rockingham por ficar em uma avenida de mesmo nome.

Agora pensem: olha esse entorno, olha essa ostentação, olha todo esse luxo. Você ainda ia querer ficar correndo em uma quadra, com um uniforme pesado e apanhando de um monte de macho suado pra ganhar a vida? Pois é, OJ também não. Se aproveitando de seus contatos no mundo do show business e no mundo dos negócios, OJ anuncia à imprensa a sua aposentadoria do mundo dos esportes.
Segundo ele, esse era um meio bem cruel e efêmero pois com o fim do auge físico vinha sempre o fim da fama, logo, ele preferia aproveitar todas as portas que estavam se abrindo em outros ramos pois acreditava que isso era uma garantia de conseguir algo com que pudesse se “sustentar e durar”.
Em 1979, OJ Simpson se aposenta oficialmente em seu último jogo profissional e inicia uma nova etapa da vida — um nova etapa sem a sua até então esposa, Marguerite L. Whitley

1979 - 1980 - Caso Arthur McDuffie e as Revoltas de Miami 
Em dezembro de 1979, o vendedor de seguros Arthur McDuffie, 33 anos, foi espancado por 4 policiais brancos até a morte após passar o sinal vermelho e dirigir sua moto sem licença. Após a sessão de espancamento, os policiais atropelaram a moto de Arthur para fazer parecer que os ferimentos no corpo foram resultado de um acidente ocorrido durante a perseguição policial. Não há provas de que ele tenha resistido fisicamente à prisão antes de começar a apanhar.
Arthur McDuffie (1946–1979) — a cidade em chamas e manifestantes sendo presos pela polícia de Miami.
Os quatro policiais foram indiciados por homicídio culposo e fabricação/adulteração de provas físicas.

Devido a testemunhos inconsistentes, a arma do crime não foi identificada e um juri totalmente branco determinou que isso era motivo suficiente para absolver os réus em 19 de maio de 1980. Após o veredicto, a população se revoltou e fez a violência explodir geral em Miami em nove dias de distúrbios mais violentos do que os que ocorreram na Revolta de Watts em Los Angeles em 1965. Foi declarado estado de emergência e a Guarda Nacional precisou intervir.
Os motins deixaram 57 mortos, mais de 1400 presos e 125 milhões de dólares em danos materiais

OJ e Marguerite se separaram oficialmente após 12 anos de casamento, 3 filhos, diversas entrevistas, capas de revistas e até um comercial (que você pode assistir aqui) juntos.

Em 24 de junho de 1967, OJ e Marguerite se casaram em São Francisco, quando ele tinha 19 anos e ela 18.

O casamento começou a dar ruim com o auge da fama de OJ, já no início dos nos 70, onde ele passava tempo demais fora de casa e exigia que sua mulher fosse a dona de casa e mãe perfeita em tempo integral, o que gerou vários pedidos de divórcio que eram depois cancelados — em diversas entrevistas nos anos 60 e 70, OJ deixava claro que queria uma esposa que exercesse um “papel tradicional”.

OJ Simpson, Marguerite e seus filhos em foto do com presidente Gerald Ford (aquele que ninguém no Brasil lembra que existiu), em 1976.

Com a mudança para Brentwood a situação do casal que se conheceu em São Francisco durante a adolescência piorou consideravelmente, ainda mais quando OJ passou a se dedicar em tempo integral a áreas não exatamente ligadas ao esporte competitivo como por exemplo: AS SARRADAS.
Dois anos antes do divórcio oficial, OJ estava em uma boate maravilhosa de chique quando conheceu uma loira de apenas 18 anos que trabalhava como garçonete no local: Nicole Brown. Na mesma época os dois começaram a sair sem se importar muito com o detalhe de que OJ era casado porque né, pra quê?
Quando finalmente se separou de sua esposa, OJ fez o que todo bom pai milionário faria: expulsou ela e as crianças da mansão em Brentwood no início dos anos 80 e passou uns bons anos tendo que ser pressionado pela justiça para pagar ajuda financeira aos filhos.
Algumas coisas nunca mudam.

Chegamos então aos anos 80: uma era feliz, cheia de alegria, danceterias, penteados feios, hard rock, poperô, ombreiras e ricos sendo ricos.

1981: Caso Ron Settles 
Ron Settles era um estudante de 22 anos que jogava futebol americano na Universidade do Estado da Califórnia.
No dia 1º de junho de 1981, Ron dirigia pela cidade de Signal Hill (que fica há uma meia hora de carro de Los Angeles), quando foi parado pela polícia por dirigir acima do limite de velocidade. Após uma discussão breve, Ron acabou sendo levado para a delegacia, preso por desacato.
Ron Settles (1959–1981)
Na manhã seguinte à sua prisão, Ron foi encontrado severamente espancado e pendurado pelo pescoço em sua, já sem vida. A polícia, obviamente alegou que foi um caso de suicídio, afinal as pessoas costumam espancar a si mesmas quando querem se matar.
Nenhum policial foi sequer indiciado pela morte de Ron, até que um advogado negro que se especializou em direitos civis, resolveu intervir e abrir um caso civil para conseguir uma indenização para a família e denunciar para a sociedade e para a mídia a conduta assassina da polícia.
A investigação conseguiu provar que a morte ocorreu por estrangulamento e não enforcamento, tendo sido um claro caso de assassinato ocorrido enquanto o jovem estava sob custódia da polícia. O advogado responsável pelo caso se chamava Johnnie Cochran. Sim, ele de novo.

A vida em Rockingham era bem divertida, com certeza.

Aquele era um bairro amigável, com mansões enormes, passarinhos felizes pousando pelas placas e policiais que faziam rondas enquanto acenavam e sorriam para os moradores.

Muitos do que moravam lá até hoje contam sobre o convívio amigável com a polícia de Los Angeles que sempre estava por lá, pronta para servir e ajudar o cidadão de bem, com muito carinho e dedicação. OJ, por exemplo, mantinha uma amizade cordial com muitos dos policiais da área que costumavam visitar sua casa e brincar com seus filhos.
Amigos pessoais também contam que uma bandeira norte-americana era hasteada em Rockingham todas as manhãs e que OJ se apresentava como um grande patriota que honrava os símbolos e os princípios do país que lhe abriu tantas portas. Portas financeiras, mas não só.

No primeiro episódio do documentário OJ: Made in America somos apresentados a Joe Bell, um amigo de infância de OJ que também entrou no mundo do futebol universitário e compartilhou com ele alguns de seus anos de glória. Em uma fala onde tenta exemplificar a mudança drástica de vida que tiveram, ele usa o exemplo do sucesso com as mulheres e de como elas surgiam aos montes de todos os lugares:

“Não eram apenas mulheres, eram mulheres brancas. Belas mulheres brancas…”

Fica óbvio na fala de Joe Bell que a aproximação de mulheres brancas qualificava a experiência. As mulheres negras eram apenas mulheres, coisas comuns, corriqueiras e esperadas, mas ter a atenção de uma mulher branca significava muito mais para o homem negro que estava em processo de ascensão, como se fosse um sinal de que ele realmente é visto e aceito de um modo diferente por toda a sociedade. É mais do que um amor ou uma esposa: é uma mensagem.

Agora OJ tinha uma “bela mulher branca” para si e isso obviamente deveria significar muito pra ele, se não de modo explicito, com certeza de um modo interno e psicológico. Nicole era uma mulher belíssima que fazia sucesso por onde passava e de fato ficava muito bem nas fotos — quem poderia imaginar que aquele garoto que praticava pequenos furtos enquanto crescia em um project chegaria assim tão longe?

Mas, além de talvez ser a realização de um sonho e um signo de poder, Nicole Brown era também um ser humano (fato que a série e o documentário aparentemente esqueceram de mencionar).
Nascida na Alemanha ocidental em 1959, Nicole era filha de mãe alemã e pai americano. Mudaram-se para a Califórnia quando ela ainda era uma criança e lá viveram uma vida consideravelmente confortável. Pouco antes de terminar seus estudos básicos, Nicole começou a trabalhar em uma boate de luxo em Berverly Hills. Foi lá que conheceu diversas celebridades e, entre elas, seu futuro marido, OJ Simpson. Segundo contam amigos, a paixão foi imediata, tanto que Nicole decidiu não ir para a faculdade para poder se manter perto de OJ. Durante a relação acabou se tornando uma das melhores amigas da Kris que na época era Kardashian mas que hoje é Jenner (o nome do meio da Kendall Jenner é “Nicole” em uma homenagem de Kris a sua amiga).
Nicole casou com OJ em 1985, mesmo ano em que se tornou mãe pela primeira vez, aos 26 anos.

Nicole fazendo graça com sua irmã mais velha e sendo linda sozinha mesmo.

A família de Nicole não era exatamente pobre (meu sonho é um dia ser pobre igual a família dela era naquela época), mas também não eram exatamente multi milionários como OJ e nem tinham o mesmo prestígio na alta classe de Los Angeles. Logo, o relacionamento foi muitíssimo bem aceito entre todos os familiares de Nicole que na verdade ficaram é felizões de ver que agora a época das vacas gordas iria começar já que OJ fazia questão de “colaborar financeiramente” com todos.

Mas ok, vamos voltar pro OJ
além de ter uma bela mulher, uma bela mansão e belos contatos, OJ Simpson se mantinha como um herói do esporte e seu legado foi bastante celebrado durante a década. No inicio dos anos 80 ele entrou para o Hall da fama do futebol universitário e também para o Hall da fama do futebol profissional (apesar de muitos protestos pedindo a retirada dele do Hall depois da acusação de assassinato, ele ainda se mantém firme e forte por lá, como você pode ver aqui)

1983 - Caso Henry McCollum e Leon Brown
O corpo seminu de uma garotinha de 11 anos foi encontrado já sem vida em uma cidadezinha do interior da Carolina do Norte. Ela apresentava sinais de estupro.
A polícia iniciou as investigações e resolveu seguir os rumores sobre o comportamento estranho de Henry McCollum, um garoto negro de 19 anos, mesmo sem a existência de qualquer prova física que o ligasse ao crime.
Henry disse à polícia que não tinha nada a ver com o assassinato, mas na noite de 28 de setembro de 1983, foi levado ao Departamento de Polícia e trancado em uma sala de interrogatório. O questionaram por cinco horas, durante as quais repetidamente prometeram a Henry que ele poderia partir se lhes desse a informação que eles queriam. Sua mãe, chorando no corredor e implorando para ver seu filho, não foi permitida no quarto.
Depois de cinco horas de interrogatório, Henry assinou uma confissão dizendo que ele e seu meio-irmão Leon Brown, de 15 anos, tinham sido parte de um grupo de meninos que estupraram e mataram Sabrina Buie. Depois, sem entender as conseqüências de sua confissão, perguntou: "Posso ir para casa agora?". Depois de ouvir a confissão de Henry e ser ameaçado com a pena de morte, Leon também assinou uma confissão. Ambos eram portadores de deficiência intelectual e não puderam contar com um tutor ou advogado durante o interrogatório.
Ao irem a julgamento, ambos voltaram atrás, dizendo que tinham sido obrigados a confessar. No entanto, mesmo com a investigação falha, ambos foram considerados culpados e condenados à morte. A sentença de Leon Brown acabou sendo reduzida para prisão perpétua, sendo condenado apenas pelo estupro. Já McCollum foi condenado à pena de morte e aguardou no “corredor da morte” durante três décadas.
Durante seu tempo no corredor da morte, Henry reafirmou sua inocência a todo momento. Como um criminoso sexual condenado por atacar uma criança, ele foi alvo de violência e assédio vindos dos outros presos e com sua deficiência intelectual, foi facilmente aproveitado por outros, o que o fez desenvolver comportamento suicida.
Henry McCollum aos 51 anos e Leon Brown aos 47 após serem inocentados e libertos.
Em 2014, resolveram finalmente fazer testes de DNA com elementos presentes na cena do crime. Os exames confirmaram que os dois eram inocentes... Ao todo, foram 31 anos de encarceramento.

Aproveitando as oportunidades vindas com o governo Reagan, OJ entrou de cabeça no mundo do empreendedorismo fazendo parcerias de negócios com Robert Kardashian, comprando filiais, investindo em ações de empresas em que era garoto propaganda, sendo responsável por parte de uma grande rede de hotéis e afins.
Firma-se então um caso incrível de ascensão social, um grande exemplo de que jovens negros e pobres podem sim prosperar. Quando perguntado sobre isso, era comum que respondesse que tudo aquilo não veio por acaso, foi produto de muito esforço pessoal, de muito talento individual e da capacidade que ele teve de construir uma imagem sendo “apenas ele mesmo”. Ou seja, ele não tinha amarras raciais, não precisava se apegar a isso, não precisava ver cores porque sabia que o glorioso Estados Unidos era a terra da oportunidade, bastava apenas o jovem negro lutar e empreender para conseguir alcançar conquistas semelhantes ou até maiores do que ele. 
OJ, sem perceber, se tornou um porta voz do patriotismo, da meritocracia e do esforço individual como único meio para se chegar longe.

“No dia que você assumir a total responsabilidade por si mesmo, no dia que você parar de dar desculpas, esse será o dia que você vai começar a chegar ao topo” — Ronald R… Ops, OJ Simpson ensinando que o negócio é parar de reclamar e ir trabalhar duro sem ficar de mimimi.
Governo Reagan e a Lei Antidrogas de 86
Ronald Reagan assumiu a presidência dos Estados Unidos em 1981 e com ele trouxe um plano neo-liberal de total desmantelamento do estado de bem estar social que havia sido montado no governo de Franklin Roosevelt para tentar resolver os problemas trazidos com a Grande Depressão de 1929.
Seguiu-se uma era onde a desigualdade social do país aumentou de um jeito nunca antes visto: os ricos ficaram cada vez mais ricos e os pobres chegaram a níveis preocupantes de miséria. Havia um super investimento no empresariado e investimentos ínfimos nas áreas mais pobres do país.
“As nove palavras mais aterrorizantes da lingual inglesa são “eu sou do governo e estou aqui para ajudar”, disse o cuzão que com seu governo ajudou um monte de rico a ficar ainda mais rico.
Com a falta de recursos, estrutura e empregos nas periferias, a criminalidade cresceu consideravelmente e o crack (uma droga muito mais barata do que as outras disponíveis) se tornou uma verdadeira epidemia entre a população carente, o que fortaleceu o tráfico e as gangues locais.
Para lidar com todo esse problema social e de saúde pública, Ronald Reagan assinou a Lei Antidrogas de 1986.
A lei veio para reforçar os discursos de Nixon sobre as drogas, tirando tudo do plano retórico e colocando no plano prático: encarceramento e porrada em quem fosse pego com drogas por ai sim.
O problema principal foi que a lei previa penas diferentes para diferentes tipos de drogas baseada na ciência do "quem manda sou eu e eu faço o que quero". Quem fosse pego com 5 gramas de crack era condenado a pagar uma pena mínima de 5 anos na prisão, mas quem fosse pego com 500 gramas de cocaína não precisava disso não. Porquê? Sim, porque Deus quis. Não há outra explicação.
O resultado óbvio é que as celebridades, executivos e endinheirados continuaram cheirando seu pó sem problema algum enquanto o pau comeu solto para o pessoal periférico que só tinha acesso à droga mais barata ou que só morava no meio do fogo cruzado.

Durante as décadas de 80 e 90, longe do esporte, OJ foi construindo uma narrativa para si que casava perfeitamente com os projetos políticos hegemônicos da época. Eram um homem bondoso, temente a deus, patriota e com gostos caríssimos. Vivia em um bairro onde o conflito racial era inexistente, tinha uma belíssima mulher ao seu lado e gastava seu tempo em clubes exclusivos jogando golfe com senhores brancos que usam casaco de lã amarrado no pescoço. E essa construção sobre si não ficava só entre os seus chegados: era uma imagem também percebida pelo público, seja ele branco ou negro.

Isso explica o fato de um programa popular como Flesh Prince of Bel Air ter usado essa piada sobre como esquiar é um esporte para brancos ricos E para OJ Simpson, em 1991 — OJ era a representação da exceção entre os negros, daquele que vive e se identifica com um mundo que é branco, ao contrário de Will; assim como explica o fato de terem escolhido representar OJ Simpson desse modo em um episódio de Family Guy onde Peter Griffin volta para o final dos anos 80.

No final dos anos 80 todos os itens antes mencionados se mantiveram na vida de OJ. Ele era ator de novelas televisivas (sim, nos EUA também tem novela, a diferença é que lá eles também tem Hollywood e aqui a gente tem a Carminha e a Nazaré Tedesco, então pra quê ver as novelas deles?), atuava em filmes, se mantinha como comentarista esportivo e bom rapaz.
Dois acontecimentos foram particularmente importantes para manter OJ como um assunto também nos anos 90. O primeiro foi sua participação no já clássico filme de Leslie Nielsen, The Naked Gun (o nosso Corra que a polícia vem) fazendo o papel do policial que só se lascava e que se você assistiu direito a Sessão da Tarde, com certeza se lembra.

Segunda melhor atuação de OJ Simpson: a primeira foi durante seu próprio julgamento.

O segundo foi a presença ilustre do OJ Simpson em várias capas de jornais e programas de entrevistas após ele ter sido acusado de espancar sua esposa e de cometer crime federal ao fugir quando recebeu ordem de prisão pela agressão.

É, isso mesmo que você leu.

Caso Ricky McCargo
Ricky McCargo saiu de sua casa em um distrito de Nova York para ir trabalhar, no dia 6 de fevereiro de 1984, porém encontrou o seu carro bloqueado por uma porrada de carros e não conseguia sair. Os carros não identificados pertenciam a policiais que estavam fazendo uma investigação para ver se encontravam drogas na casa do vizinho do Ricky. Quando os policias à paisana voltaram para perto do carro do Ricky, ele, que obviamente não sabia que eram policiais, deve ter dado uns grito putaço porque né, tava atrasado pro trabalho por causa dos sem noção. O caso é que isso se tornou uma discussão enorme que chamou a atenção dos vizinhos de Ricky que se aproximaram pra acompanhar a treta. Durante a discussão, um dos policiais simplesmente atirou no rosto de Ricky, o matando na hora.
Os policiais envolvidos testemunharam dizendo que o jovem havia ameaçado um deles com um objeto que não sabiam se era uma faca ou uma arma, logo, atiraram por legítima defesa. ENTRETANTO, cerca de 27 moradores da região assistiram a cena e testemunharam dizendo que na hora em que foi baleado, Ricky estava com as mãos para o alto implorando pela própria vida.
Sim, o juri inocentou todos os envolvidos. E sim, também era um juri formado somente por pessoas brancas.

No final do 1988, OJ e família seguiram com amigos para passar o fim de ano no Havaí. Lá eles curtiam como qualquer outra família rica com amigos ricos curtiria um final de ano no Havaí até o momento em que Nicole Brown deixou um dos filhos do casal se aproximar de um homossexual em um restaurante. Testemunhas garantiram que esse ato fez OJ ficar doido do cu e iniciar uma discussão violenta com a mulher que basicamente estragou toda a viagem e durou por dias. Para quem não sabe, o pai de OJ era assumidamente gay e talvez essa rejeição à homossexuais tenha a ver com isso e com o fato de OJ ter sido criado somente por sua mãe ultra cristã desde os 5 anos, quando seu pai deixou a família. 
MAS ENFIM, toda essa treta culminou nos fatos do dia 1º de janeiro de 1989.

Nesse dia, a polícia de Los Angeles recebeu uma chamada pedindo socorro. A atendente conseguia ouvir Nicole ser espancada ao fundo da ligação. 
A gravidade da situação parecia óbvia. Um policial foi enviado para ajudar e encontrou Nicole extremamente machucada, sangrando e toda suja de lama pedindo desesperadamente para que ele prendesse OJ pois, segundo ela, ele iria matá-la.
O policial deu voz de prisão. OJ disse que iria se vestir para poder acompanhá-lo até a delegacia, mas em vez disso, subiu em um dos seus carros e saiu fugido em alta velocidade pelas ruas de Los Angeles.

Operation Hammer (Operação Martelo).
Em 1982 se iniciou uma polêmica sobre a possibilidade de proibir a prática policial de aplicar "mata-leão" em suspeitos e afins pois isso estava gerando uma série de mortes na comunidade negra e latina. Na época, o chefe da polícia de Los Angeles, Daryl Gates, deu a seguinte declaração sobre o assunto:
"Negros podem ser mais propensos a morrer com o mata-leão porque as artérias deles não abrem tão rápido como acontece com as " pessoas normais".
A esse sujeito muito respeitoso e nada racista, foi confiada a missão de cuidar da segurança da cidade de Los Angeles durante os Jogos Olímpicos que foram realizados por ali em 1984: isso significa que ele ganhou autorização oficial para varrer toda a cidade prendendo todos os traficantes e membros de gangues, fossem eles conhecidos ou apenas suspeitos, usando a violência que fosse necessária.
Esse método de ação foi a base do que ficou conhecido como Operation Hammer, uma operação policial que consistia em vasculhar todas as áreas consideradas perigosas (que por coincidências eram sempre os bairros negros), entrar em residências, fichar indivíduos - tudo que fosse necessário para que se conseguisse um mundo colorido sem crime e sem drogas. A questão é que rapidamente ficou óbvio que o objetivo principal não era exatamente o de conter a violência, mas sim o de "mandar uma mensagem" pra toda a população, ou seja, tu não precisava ser inocente, isso não adiantava em nada se você tinha "cara de quem pode dar trabalho".
A grande maioria dos detidos passava um ou dois dias na prisão, apanhava pra caramba e depois era liberado com um atestado de "ok, esse não fez nada, pode sair, mas estamos de olho". Assim, a Operação Hammer foi duramente criticada como uma operação de assédio cujo principal objetivo era intimidar jovens negros e hispânicos.
As queixas dos cidadãos contra a brutalidade policial aumentaram 33% no período de 1984 a 1989. Não a toa, foi nessa época que a banda de rap N.W.A, de Compton, região atingida pela operação, escreveu e lançou a música Fuck tha Police.
Em 1988 por exemplo, a polícia de LA entrou em um conjunto de apartamentos onde moravam dezenas de mães, crianças, idosos etc e simplesmente desceu a porrada em quem encontrou pela frente, além de destruir tudo - de televisões, a janelas, espelhos, móveis, portas.
Video de moradora da região mostrando os estragos causados e descrevendo a violência sofrida (em ingles).
Os caras destruíram simplesmente a porra toda! Um bagulho que tu olha e pensa "Meu deus eles devem estar atrás do helicóptero do Aécio! Do Pablo Escobar! O negócio ai deve ser gigante!", mas na verdade eles encontraram menos de 20g de cocaína e cerca de 170g de maconha. Só.
O caso foi parar na TV e ficou gravado como um dos grandes exemplos de abuso, assédio e má conduta policial.

Bem, você provavelmente deve estar pensando agora “noss mas agora o oj se fodeu, já era”. Érrrr, não. Com apenas uma ligação para um de seus amigos próximos que era policial em Los Angeles , OJ conseguiu fazer o caso se tornar apenas mais um “homem discute com esposa após noite de bebedeira e saiu por aí de carro pra esfriar a cabeça”. Obviamente a mídia dançou em cima do caso, mas dançou de um modo exatamente igual é feito ainda nos tempos atuais:
- Suporto caso de agressão.
- A esposa estava bêbada.
- Já está tudo bem.

Esse caso gerou uma das coisas mais medonhas que eu já tive o desprazer de assistir, essa entrevista absurda aqui:

O entrevistador diz que o motivo de retomar o assunto não é o de “remoer” o que passou, mas sim o de tentar falar sobre como as coisas “podem ser distorcidas a tal ponto em que você é retratado como o vilão da história”. E não para por ai, claro que não. Seria fácil demais. Oj explica que nem foi uma briga assim tão grande, que eles só discutiram e deram uns gritos porque beberam demais, mas que a imprensa é foda, né. Então o entrevistador coroa toda a situação soltando um “esse é o meu ponto… É que chegou a tal ponto em que você foi por um bom tempo tratado pela imprensa como um agressor!” PORRA MANO OLHA QUE ABSURDO! O cara agride a mulher e é tratado como um AGRESSOR?????Mas onde já se viu?! Assim não dá!
É então que OJ explica que foi tudo um mal entendido, que ele felizmente recebeu muito apoio de todos e que não perdeu nenhum contrato ou trabalho por causa do “incidente”.

Vamos deixar a análise disso para o terceiro texto. Agora o que importa mesmo falar é que não, esse não foi o primeiro caso de agressão de OJ contra Nicole Simpson.
Segundo os diários de Nicole, a primeira agressão aconteceu em 1978, quando eles sequer estavam oficialmente juntos pois OJ ainda era casado.
Segundo os registros policiais, em 1989 já constavam 8 registros feitos por Nicole na polícia de Los Angeles, todos eles tirados de casos semelhantes que ficaram por isso mesmo. Nicole mantinha guardadas consigo, fotografias expondo os diversos hematomas que OJ deixava nela a cada briga (não, eu não vou colocar as fotos aqui, a imprensa sensacionalista já fez o favor de divulgar essas fotos por tudo que é canto, se você procurar, acha fácil).
Assim, sendo, porque ninguém nunca fez nada sobre isso?
Existem duas respostas possíveis.
A fácil é: dinheiro.
A mais complexa tem a ver com o fato da misoginia ser um dos pilares que sustenta a sociedade em que viveram ou vivem OJ, Nicole, Casey Affleck, Victor, você e eu.
Mas trabalharemos mais sobre isso no próximo texto.

1989 - Caso dos CENTRAL PARK FIVE
Trisha Meili era uma mulher branca que praticava corrida no Central Park de Nova York no dia 9 de abril de 1989, quando foi atacada violentamente, espancada e estuprada de um modo que a fez ficar a beira da morte. A violência foi tamanha, que a garota passou 12 dias em coma. A notícia chocou a sociedade por suas notas de crueldade e se iniciou uma enorme cobrança pública para que a polícia prendesse o responsável pelo crime bárbaro.
Cinco adolescentes moradores do Harlem foram presos e expostos na imprensa como principais suspeitos de terem cometido o crime: eram 4 garotos negros e um latino, todos membros de gangues do bairro, todos pobres e entre os 14 e 16 anos. Rapidamente o público pediu pela pena de morte dos garotos, antes mesmo de qualquer evidência que os ligasse ao crime ser apresentada.
Os cinco adolescentes presos e atacados de diversos modos pela mídia por um crime que não cometeram. Existe um documentário sobre o caso feito em 2012: “The Central Park Five”.
Os garotos acabaram confessando a participação no crime, dando relatos extremamente violentos que foram expostos pela imprensa e aumentaram ainda mais o clamor pela morte de todos eles. Entretanto, foi provado que os detetives usaram artifícios para convencer os suspeitos a confessar, como fingir que haviam encontrado provas ou ameaçando os meninos com surras.
O polêmico julgamento teve ampla cobertura da imprensa que os retratou como "lobos", "predadores" e "degenerados", reforçando todos os estereótipos possíveis sobre a violência e o descontrole sexual de homens negros. Parte da população se engajou em uma campanha pedindo "penas adultas para crimes adultos", tanto que um famoso empresário da época chegou a comprar a primeira página de alguns jornais para publicar uma carta escrita de próprio punho pedindo a pena de morte para todos os garotos envolvidos: esse empresário era Donald Trump.
Os garotos foram condenados e presos, mas devido a idade, não pegaram a pena de morte.
Em 2002, um homem que já estava na prisão cumprindo pena por outros crimes, confessou ser ele o responsável pelo ataque. As provas de DNA confirmaram sua culpa, as mesmas provas que aparentemente ninguém pensou em testar quando resolveram prender os 5 jovens.
Eles foram liberados em 2002, após passarem 12 anos na prisão.

OJ Simpson era um nome muito caro.
Empresas o usavam como rosto para publicidade, seu nome assinava marcas, empresários de sucesso o acompanhavam em seus passeios banais. Ninguém ai nesse meio quer perder dinheiro por causa de uma mulher, até porque, sabe como é nosso mundo “mulheres são loucas”, “mulheres exageram”, “se apanhou é porque mereceu”. Era muito mais fácil banalizar a situação e tratar de modo leve, sem represálias, do que deixar com que tudo crescesse e causasse uma perca de dinheiro que nenhum dos envolvidos queria. E essa foi a lógica que acompanhou todos os 12 anos de casamento, basicamente. 
Segundo amigos, familiares e os escritos nos diários de Nicole, o comportamento de casado de OJ nunca havia seguido sua lógica de se apresentar como um bom moço para a mídia. As traições eram um elemento constante que OJ nunca se importou de esconder, porém, se Nicole saísse sozinha de casa… er… ai já era demais, sabe como é. Além disso, Nicole acreditava que em caso de separação ou de escândalo público, sua família ficaria do lado de OJ pelo simples fato de que ele era o dono da grana.
O fato da polícia ter registrado 8 ocorrências de agressão grave contra OJ antes e nenhuma delas ter causado efeito algum nem na vida dele e muito menos na vida dela provavelmente ajudou Nicole a manter a relação porque né, o que mais ela faria? Até que em 1992 ela resolveu dar um basta na situação e alegando “diferenças irreconciliáveis”, pediu o divórcio.

Isso poderia facilmente ter acabado aqui e ser a história de como OJ Simpson se tornou o esportista aposentado mais rico e famoso de todos os tempos e de como Nicole Brown seguiu sua vida e se tornou uma mulher livre, empoderada e dona de si.
Mas infelizmente a vida real não é uma fanfic da internet.

1922 - Caso Rodney King e as Revoltas de Los Angeles
Rodney King já havia passado pela prisão e estava na condicional.Já no sexto mês de liberdade, acabou saindo de carro com uns amigos depois de ter passado da conta na bebida. Nesse dia, 03 de Março de 1991, policiais notaram que ele estava acima do limite de velocidade em uma estrada de Los Angeles e sinalizaram para que ele parasse o veículo. Com receio de ser pego dirigindo alcoolizado na condicional, King resolveu acelerar e acabou em uma perseguição. Quando finalmente foi parado, seus dois amigos desceram do carro e foram brutalmente surrados pela polícia enquanto ele assistia. Quando King enfim saiu do carro, até tentou revidar, mas acabou sendo surrado por quatro dos policiais.
O espancamento de Rodney King foi filmado por uma testemunha, George Holliday - e você encontra o vídeo com extrema facilidade no Youtube - ele tentou mandar a fita para a corregedoria do Departamento de Polícia de Los Angeles, mas foi ignorado. Então enviou a fita para o canal de televisão KTLA que transmitiu o espancamento de Rodney King  menos de uma semana depois.
O vídeo rapidamente se tornou um fenômeno midiático e um assunto comentado por todo o país, trazendo o debate do abuso policial direcionado a pessoas negras a tona. Os quatro policiais que bateram em King foram a um julgamento coberto pelas mídias de todo o país.
As imagens eram de uma brutalidade tamanha que toda a população negra e não só, estava certa de que esse seria um caso exemplar: era impossível os policiais não serem condenados após toda aquela repercussão violenta.
Entretanto, no dia 29 de Abril de 1992, um juri composto somente por brancos resolveu inocentar os acusados acreditando na alegação de que Rodney era um homem de alta periculosidade e apanhou daquele jeito pois era uma ameaça aos policiais.
Diversos militantes e porta-vozes da causa negra foram até a TV e aos meios de comunicação denunciar o absurdo. Um dos que recebeu mais destaque foi um advogado negro, especialista em direitos civis e com ampla atuação em casos de abuso policial contra negros pela cidade de Los Angeles: seu nome era Johnny Cochran.
Para além das denúncias públicas, o veredicto gerou um sentimento de fúria e decepção na população de Los Angeles que culminou nas Revoltas de 1992.
Diversos policiais e cidadãos brancos foram atacados, casas foram queimadas e diversos tiroteios tomaram conta dos bairros.
Los Angeles em 1992 — esse dia foi loko
Segundo Cornel West, “...essa monumental sublevação foi uma demonstração de fúria social justificada, que transcendeu os limites de raça e classe (...)raça foi o catalisador visível, e não a causa subjacente”. A população de Los Angeles e de outras cidades como São Francisco, Las Vegas, Georgia (e até mesmo em uma rua em Toronto no Canadá) descontou todo seu ódio reprimido por um sistema desigual e uma justiça falha em seis dias de revoltas que terminaram com 53 mortos, 2,383 feridos e 11 mil detidos.
A série American Crime History: The people v OJ Simpson, começa com cenas do espancamento de Rodney King e da famosa revolta.

Após a separação, OJ Simpson iniciou um ciclo de comportamentos abusivos insistindo em perseguir e assediar a ex-mulher enquanto ela tentava viver sua vida de solteira. Se ela saísse pra dançar, lá estava OJ a observando. Se saía pra jantar, lá estava OJ também. Dizem que ele até contratou “olheiros” para informá-lo da localização de Nicole sempre que necessário. Se é verdade, eu não sei, mas isso não diminui o problema, de todo modo. Com as insistências constantes e as promessas de “eu vou mudar”, “eu te amo” e “eu não sou mais o mesmo”, Nicole resolveu tentar outra vez e reatou com OJ Simpson em 1993, com cada um morando em uma casa diferente e disposto a frequentar uma terapia de casal, ets.
O ponto é que o “retorno” nem deu tempo de acontecer de verdade, sabe?
Isso porque, em 25 de outubro de 1993, a polícia recebeu outra chamada vinda da casa de Nicole Brown — dessa vez, seu marido estava tentando invadir sua casa com gritos, socos e ameaças. Era mesmo o fim da relação e talvez o inicio de um recomeço para Nicole.

1991 - Caso Latasha Harlins
13 dias após o espancamento de Rodney King, Latasha Harlins, uma jovem estudante de 15 anos de Los Angeles, foi assassinada com um tiro na cabeça dado pelas costas por Soon Ja Du, uma coreana dona do mercadinho onde a menina tentou comprar um suco.
A câmeras de segurança do local registraram todo o ocorrido que também foi registrado por outras duas testemunhas.
No vídeo é possível ver Latasha chegando ao caixa com a garrafa de suco e o dinheiro para pagá-lo, mas sei lá porque diabos, a dona do local começou a gritar e bater na garota que, após desistir da comprar e se virar para ir embora, recebeu o tiro - o vídeo também pode ser facilmente encontrado no Youtube.
Latasha Harlins (1979–1991)
Soon Ja Du foi a julgamento e no dia 15 de Novembro de 1991, o juri a declarou culpada e sugeriu que fosse aplicada a pena máxima de 16 anos de prisão, porém a juíza Joyce Karlin resolveu não seguir a recomendação do juri e sentenciou a assassina à prestar 400h de serviços comunitários e uma multa. A juíza tomou essa decisão baseada no fato de ter achado a reação de Du "compreensível" e achar improvável que ela cometesse um crime sério novamente.
Tipo, sim, a mulher fica puta, pega uma arma e mata uma criança mesmo sabendo que estava sendo gravada e observada, mas aparentemente isso é compreensível e nem demonstra uma tendência da assassina de repetir o feito.
Veja bem, ser pego com crack poderia fazer você passar até 30 anos na cadeia por ali, então era realmente difícil para quem vivia o caos policial ver um caso desses terminando desse modo.
Um militante da causa negra afirmou na época:Racismo não é a coreana matando ela. Racismo é um sistema judiciário que permite que isso aconteça.
O caso de Latasha foi citado em músicas de Tupac e Ice Cube, além de ter sido mencionado como um dos incidentes que culminaram nas Revoltas de Los Angeles de 1992. Durante as revoltas a loja de Soon Ja Du foi queimada e nunca mais foi aberta.

Em 12 de junho de 1994, a polícia de Los Angeles foi pela última vez à casa de Nicole, mas dessa vez não era ele que havia pedido socorro. Nicole foi encontrada morta em sua residência aos 35 anos de idade. Seus dois filhos dormiam na casa quando seu corpo e o de seu amigo Ron Goldman foram encontrados no local.

OJ Simpson foi considerado o principal suspeito de ter cometido o crime e o que se seguiu foi um agitado ano onde seu julgamento foi o assunto mais falado em todos os Estados Unidos da América. Durante o julgamento, um advogado negro especializado em direitos civis e com um vasto currículo ligado a luta por justiça a negros vítimas de violência policial, entrou em seu time de advogados de defesa e foi fundamental para a conclusão do caso: seu nome era Johnnie Cochran.


… Acabou…
E é, realmente não foi assim tão fácil…

A essa altura você que está lendo já percebeu o que tentei fazer aqui: mostrar trajetórias distintas de indivíduos com origens tão iguais.
Trajetórias que no final de tudo, já não são mais tão distintas assim.

Mas não vamos estender isso ainda mais.
Pode sair pra respirar, dar sua pausa, ler outras coisas e, quando estiver a fim, basta clicar nesse link e acompanhar as conclusões: