Uma análise pedagógica do filme Coach Carter que talvez te deixe meio triste

Principalmente se você acha que o filme é uma grande lição de vida

Bem, vamos lá:

Um belo dia, no meu último ano da licenciatura, uma das minhas professoras pediu para que fizéssemos uma análise sobre qualquer filme que fosse ambientado na escola. O objetivo era focar nos sujeitos — professor, alunos, pais de alunos e direção — assim como, focar também no projeto de ensino que era posto pelo filme, seja de modo consciente ou não.

Certo.
O problema é que eu simplesmente sempre achei “”””filmes de escola”””” um baita de um saco.

Desculpa, eu sei que muita gente curte e tal, mas a fórmula de Sociedade dos Poetas Mortos além de já batida e brega, chega a ser surreal. Ok que, como educadora, dá aquela esperança de que se um dia eu subir em cima da mesa e gritar uns poemas, com certeza irei conquistar toda a juventude e pá, mas não é assim que a banda toca, mermão. Assim sendo, fui atrás de ficções que fugiam do esquema Robin Willians de filme edificante e nisso eu parei no maravilhoso mundo dos filmes de escolas da periferia.

Essa sub-sub-categoria de filmes é particularmente interessante, não é?
A história é SEMPRE a mesma com algumas variações: “olha esses alunos do mal eles nunca terão um futuro desse jeito e vão cair na criminalidade porque não entendem a força da educação” *PLIM* surge um professor idealista disposto a salvar aquelas pobres almas daquela situação.

Geralmente, sempre são alunos periféricos de maioria negra sendo salvos por almas brancas maravilhosas como as de Hilary Swank ou Michelle Pfeiffer, professoras que desafiam o sistema aplicando um método não tradicional para finalmente conquistar seus alunos.

Então, já cansada de um monte de filmes com o roteiro similar e sabendo que não iam aceitar se eu fizesse uma análise de Rock n’ Roll High School — filme musical dos Ramones — resolvi acatar a sugestão, abrir meu coração, me limpar dos meus pré-conceitos e tocar uma análise sobre Coach Carter — Treino para a vida.

Topei porque: 1) Samuel L. Jackson melhor pessoa e 2) Não tinha como ser outro filme white guilty sobre brancos salvando alunos negros e pobres, afinal, o professor herói da vez também era negro, né mesmo?

Esse texto é uma adaptação menos acadêmica da análise que entreguei para a Faculdade de Educação da USP — OU SEJA — o foco aqui é discutir a pedagogia que o filme mostra. Se tu odiar educação, pedagogia e dorme só de ouvir falar, essa é a hora de abandonar esse texto.

Supondo que alguém aqui possa não ter visto o filme, vou dar aquela resumida via ESSA AQUI É A SINOPSE SÓ CLICAR NESSE LINK QUE ABRE.

Bem, todo mundo manja que o filme é uma história real. E eu poderia até fazer uma análise sobre a pessoa Ken Carter e seus discursos reais, mas estamos falando do filme sobre sua “obra” — uma ficcionalização hollywoodiana — e é sobre as mensagens contidas NO FILME que falaremos aqui, beleza? Então Beleza.

SIM, esse texto vai ter aqueles famosos SPOILERS então se você não gosta deles, pode parar por aqui, a gente entende, acontece, mas o filme está na Netflix — se quiser assistir e voltar, a gente te espera.

Pronto? Então vamos lá:

Vamos começar então pelos sujeitos, né mesmo. E esse Ken Carter ai? Segundo o filme, qualé desse cara?

Samuel L. Jackson em cena de Coach Carter: Só por essa foto já sabemos que ele é alegrão, sorridente e passa a mão nas carecas dos outros, mas tem mais.

Ken Carter, como conta a sinopse, foi um ex-aluno do Colégio Richmond que conseguiu ascender socialmente após a conclusão de seus estudos e hoje tá lá, bem casado com uma mulher negra (ó que afrocentrado ele parabéns ), é dono de uma loja de artigos esportivos e tem um filho matriculado em um dos melhores colégios da região.

Ele é um homem sério, disciplinado, autoritário porém de modo justificado, com fortes concepções morais e, principalmente, preocupado com o futuro dos afro-americanos que, como ele, cresceram na periferia. Seu objetivo maior é tentar dar uma vida digna para aqueles garotos afastando-os da criminalidade e da prisão — objetivo que, segundo ele, pode ser alcançado casos seus alunos consigam bolsas para a Universidade. Só daí a gente pensa “esse cara só pode estar certo, não tem como isso ser errado”, mas ainda tem o plus de que ele é o FUCKING SAMUEL L. JACKSON! Quem não colocaria fé no Samuel L. Jackson, né gente?

O filme começa com Carter voltando ao seu antigo colégio para assistir uma partida de basquete entre o time da casa (Richmond Oilers) e o time da escola onde estuda seu filho (St. Francis). O jogo termina e Carter passa lá nos bastidores pra dar um salve pra um brother das antigas — o técnico atual do time do Colégio Richmond. Nisso começa um diálogo entre os dois onde o atual técnico demonstra sua insatisfação em ocupar o posto ao mesmo tempo em que convida Ken Carter para assumir a missão (o que eu, se fosse amiga dele, iria achar escrotisse, tipo, porra, tu tá ai falando que o trabalho é mó merda e quer jogar a bomba na minha mão, pô?).

Em meio a gritaria dos alunos no vestiário, o técnico atual desabafa com Carter sobre como não consegue avançar seu trabalho com o time devido aos diversos problemas disciplinares dos alunos: a alta evasão, a impossibilidade de “envolver os pais no caso”, assim como a impossibilidade de “ir buscar os jovens na rua para que eles frequentem a escola e os treinos”. Enquanto rola esse diálogo e as reclamações comem soltas, nós — os espectadores — ouvimos o desenrolar de uma briga banal entre os alunos no vestiário. Eu nem lembro porque os caras estavam brigando, mas era algo meio besta pra mostrar mesmo como os cara não tava ali pra brincadeira, sabe? Então damos de cara com violência verbal, intimidação e a ênfase em instintos animalizados de jovens que realmente não sabem se comportar.

“… tão zangados e indisciplinados”, são os termos com que Carter descreve os alunos que observa enquanto fala sobre sua insegurança em assumir tal posto. Toda essa cena é montada justamente para que o espectador identifique um ambiente de caos e desordem, criando assim expectativa quanto a possibilidade de Carter aceitar ou não assumir o posto de novo técnico. Aí tem toda uma cena com ele pedindo conselho pra sua amada esposa pra ver se topa ou não topa e a gente fica como? Em casa, assistindo e pensando “nossa, mas eu nunca aceitaria esse desafio e WOW ele aceitou que homão da PORRA! esse é corajoso!”.

Já era, o cara já ganhou nossa empatia. Já somos #TEAMCARTER desde criancinha. E isso, não só porque o ator é fodão, claro. Tem todo um jogo aí:

Seu personagem é o típico professor herói da ficção - de um altruísmo extremo, aceita o emprego não pelo salário, mas para ter a chance de “fazer o bem” promovendo uma mudança na vida daqueles alunos.

“Esses alunos são alunos-atletas. ‘Alunos’ vem antes.” — essa frase é dita pelo Treinador Carter e faz a gente concordar na hora com ele. “Claro que ser aluno é mais importante, esse cara tá muito certo! Seja lá o que ele fizer, eu vou apoiar!”

Então, ele não só se propõe a fazer um controle de frequência e notas dos seus jogadores pra melhorar essa parte “aluno”, como também impõe toda uma nova regra de linguagem, comportamento e moral para os jovens: se exige o uso de pronomes formais, se estimula o respeito ao próximo e o controle dos impulsos juvenis. Há até mesmo uma cena em que Carter pede, em tom de repreensão, pra que os alunos demonstrem “classe” e não se comportem como “marginais”. Mas isso não é por mal, obviamente. O cara é do bem. Ele tá dando conselhos que nossos pais nos dariam e tudo soa de boa porque é pro bem da molecada. Ele até proíbe o uso da palavra nigger fazendo todo um discurso sobre o quanto o uso da palavra foi cruel com os ancestrais negros de todos ali e que por isso seu uso não é aceitável — baita consciência racial, hein — as minorias vão à loucura!

Todo e qualquer desvio de função (tipo ir conferir se os meninos estão mesmo na sala de aula ou ir buscar os meninos em uma festa porque eles são atletas adolescentes e obviamente não tem nada que ficar festejando por aí) é retratado de modo romanceado na narrativa com o objetivo de fazer o espectador ter empatia com Carter e percebê-lo como um homem honesto de intenções nobres que realmente se esforça até conseguir alcançar o que busca. É aquela coisa, beleza que extrapola um pouco os limites da atribuição de um professor ou treinador de basquete, mas a gente, se quer mesmo fazer um bom trabalho, tem mesmo que fugir do contrato, trabalhar por fora, usar nosso tempo livre pra se dedicar aos pormenores mesmo que não sejamos pagos pra isso, afinal — professor deve trabalhar por amor, não por dinheiro. Fora que: o cara tem um projeto foda por trás de tudo isso, então vale a pena.

Treinador Carter é todo trabalhado pra ser um personagem forte que causa empatia — ele é nosso pai, aquele nosso tio que deu um duro danado pra comprar um Corsa e sempre diz “rapaz, se eu tivesse tido a oportunidade de estudar igual você teve eu iria longe, então dá valor.”

O controle que Carter exerce em seus alunos soa ao espectador como uma preocupação justificada, afinal, ele é o único que vê a verdade e que sabe o caminho para tirar aqueles jovens da condição em que estão e isso porque ele mesmo passou por tudo aquilo e conseguiu outra história pra si. Seus esforços exagerados são postos como dedicação e convicção, os castigos aplicados (geralmente meter mais exercícios pros moleques fazerem, bem naquela lógica de quartel militar onde se você responde mal o superior tem que pagar várias flexões e tal) são seus sinais de seriedade e o paternalismo de seu personagem é posto como um modelo — todas essas são características criticáveis no mundo pedagógico, mas que no contexto do filme, são apresentadas como ferramentas justas de um homem com um projeto audacioso cujo o espectador torce para que seja aplicado com sucesso. Afinal, ele é um negro lutando contra uma sociedade racista… ou não é?

Fica então o mistério porque agora:

Vamos falar dos alunos e da comunidade escolar:

Os jovens do Richmond Oilers — o time de basquete dos anti-Charlinho: os garotos que só não queriam estudar

Como um filme pautado na figura de um professor herói, os alunos em Coach Carter, são personagens extremamente marcados pela tragédia em uma tentativa um tanto quanto banal e previsível de enfatizar seus lugares sociais. Tem 15 alunos no time de basquete e quatro deles aparecem com mais destaque na parada: o filho do presidiário, o pai adolescente, o envolvido com o tráfico de drogas, o que teve o irmão mais velho assassinado — metade dessas trajetórias são apresentadas sem aprofundamento visando apenas marcar o lugar social desses alunos. As outras são pra gente ver como os moleque tá fodido mesmo e ficarmos nos perguntando “poxa, amigo, ce tá zuado assim, porque você não estuda?”

Em um filme ambientado no espaço escolar e onde o bom rendimento e a meta de conseguir um futuro melhor por meio da educação são os assuntos principais, não se vê uma única interação entre os alunos e os demais professores. Os professores falam dos alunos sem a participação dos mesmos enquanto os alunos não proferem sequer um julgamento sobre qualquer outro membro da comunidade escolar que não seja próprio Treinador Carter.

Ao conhecerem o Treinador Carter os alunos reagem com desdem devido a abordagem formal feita, totalmente estranha a rotina escolar. As roupas e os maneirismos do novo treinador são alvo de chacotas por não fazerem parte da realidade daquele grupo. “Você é da igreja? Algum tipo de pastor engravatado ou coisa assim?”. Esse encontro de risos e zombaria é imediatamente interrompido por Carter com sua rigidez e exigência de seriedade e formalidades. O estranhamento, óbvio e justificado, é elevado ao máximo quando o treinador apresenta seu contrato para os alunos que imediatamente ridicularizam e rejeitam o projeto. A tensão desperta a rebeldia de alguns jovens e a tendência adolescente em rejeitar autoridades em uma cena que termina em uma tentativa de agressão ao Treinador Carter que se defende, gerando o seguinte diálogo:

Aluno: — Os professores não devem tocar nos alunos.
Treinador Carter: — Não sou um professor, sou um treinador de basquete.

É esse dialogo que mostra aos demais alunos que acompanhavam o confronto que aquela autoridade é diferente das demais, como se estivesse fora da lógica educacional cotidiana já conhecida — uma lógica mais rígida, fora dos padrões e para a qual as regras correntes já não valem. É um argumento que tenta fazer com que os alunos percebam que a porra ali é séria por meio da intimidação.

Em todas as interações entre alunos e treinador fora do tempo de jogo de uma partida de basquete, o que se observa é a tentativa por parte dos alunos de se encaixar dentro das novas regras com muito estranhamento e um esforço perceptível. O mínimo atraso é punido, mesmo quando justificado. Qualquer questionamento da autoridade do treinador é penalizada com flexões ou voltas na quadra de basquete. O uso de palavrões e gírias também é motivo para a penalidade. Na minha época de escola só isso já faria os alunos quererem rasgar os pneus do carro do professor, mas no filme nenhum desses motivos é suficiente para que os alunos se revoltem. Só há um, entre todos os motivos possíveis, que realmente causa revolta a ponto de abandonarem o time e o sonho de ganhar o campeonato estadual: a exigência em frequentar as aulas e tirar boas notas nas provas.
Porque, claro — meio merda tu ter que correr pra caramba porque atrasou dois minutos e com justificativa válida, meio merda também tu estar semi nu com umas mina daora em uma piscina depois de ter dado mó duro pra vencer um jogo e aí vem seu treinador te tirar de lá a força fazendo tu pagar mó mico — MAS ESTUDAR? Não! Isso já é demais!

Para os alunos, o basquete é o motivador que os leva à escola todos os dias e “vencer no basquete é vencer na vida”. Qualquer exigência fora do mundo do basquete soa aos alunos como pura bobagem. Por mais que eles aceitem o contrato imposto em um primeiro momento, não conseguem de fato entender e valorizar a questão das boas notas e da chance de frequentar a universidade como um motivador, pelo contrário, entendem que o Treinador está misturando mundos, que a missão deles como alunos de Carter é de vencer os jogos de basquete e nada mais que isso. Em duas ou três ocasiões são proferidos sermões longos a fim de motivar e despertar os alunos para a importância de se ter boas notas, mas aparentemente eles continuam cagando e andando.

O comportamento dos alunos não é muito diferente do comportamento dos demais professores e da direção da escola. Ao contrário do que se poderia esperar de uma instituição de ensino, todo o corpo docente e direção da escola ficam contra o contrato e o método de Carter durante grande parte do filme.

(Taí uma coisa que eu mesma nunca entendi em filme de escola. Tem lá o professor esperto e legal que se compromete a melhorar SOZINHO o rendimento dos alunos, mas aí vem a direção e fica 200.0% TRIGGERED PUTAÇO do tipo “hey! quem você pensa que é pra melhorar isso aqui? eu batalhei demais pra tudo estar uma merda, então por favor, ponha-se no seu lugar” — eu fico tipo: mas q)

A personagem da diretora funciona meio como uma alegoria pras instituições educacionais e a argumentação dela contra o método de Carter é simples: apenas 50% dos alunos da escola de fato se formam (grande maioria desses alunos, mulheres) e o Índice de Rendimento Acadêmico do colégio sempre foi o menor possível, logo, se 5 entre os 15 jogadores de Carter ao menos terminarem a escola isso já poderia ser considerado uma vitória. Pensar em levá-los para a Universidade seria então uma utopia completamente fora das possibilidades daquela instituição de ensino.

Se vê que a instituição opera com baixíssimas expectativas e exigências, já sabendo que a evasão e o fracasso escolar são uma realidade permanente ali dentro, porém sem qualquer vontade de trabalhar com esse fato e promover qualquer mudança. Há de fato um tom que nos dá a entender que a instituição escolar serve ali apenas como um mecanismo de escapismo da realidade. Diversas vezes a direção diz frases como “você está estragando o único momento feliz que esses alunos terão na vida” ou “deixe que aproveitem a juventude como quiserem pois depois daqui eles só terão o pior”.

José Carlos Libâneo, um teórico da educação, tem um artigo que se chama “O dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do conhecimento para os ricos, escola do acolhimento social para os pobres”. Lá ele mostra como instituições internacionais do nipe do Banco Mundial e a ONU, criaram todo um discurso muito bonito sobre como as escolas deveriam funcionar nas áreas pobres do mundo, mas que na real só reforçam uma dualidade onde ricos aprendem conteúdo de fato enquanto pobres tem um maior foco na escola como lar de acolhimento para problemas sociais. O PONTO É: o Colégio Richmond consegue não ser nenhum dos dois casos! Não rola preocupação institucional em fornecer conhecimento aos alunos, mas também não há nenhuma proposta real de acolhimento social conforme o esperado diante do perfil da escola. O objetivo é o de que esses jovens possam aproveitar os bons momentos da vida no espaço escolar, seja com suas amizades ou jogando basquete, antes que eles finalmente entrem em contato com o mundo e caiam em uma provável condição de marginalidade, em um determinismo que chega a beirar o absurdo e o irreal. EM RESUMO: já que todo mundo ali obviamente vai se foder mesmo, então que ao menos eles possam dar umas gostosas risadas aqui na escola enquanto isso.

O corpo docente também está presente porém de modo sutil: eles estão na sala de aula, tocando seus projetos que são desconhecidos para o espectador e só são mencionados quando se percebe que eles não estão assim tão a fim de prestar contas sobre o desemprenho dos alunos pro Treinador Carter (o que facilmente poderia ser interpretado como falta de costume dos cara, já que a própria instituição aparenta nunca ter se importado com esses dados.) Não vemos dinâmicas didáticas ou opiniões dos professores sobre seus alunos. É como se fossem parte da paisagem. Eles estão lá, apenas esperando que os alunos cheguem até eles, mas sem fazer nada para que isso realmente aconteça. Única vez que eles levantam a bunda e fazem algo é quando o Treinador Carter, esse homem cheiroso, faz com que eles aceitem dar aulas de reforço pros alunos. Coisa que, mais uma vez, a gente vê que poderia ter ajudado desde o começo, mas como a escola nunca se importou, precisou do Deus Carter baixar lá pra rolar.

E bem, apesar do antigo treinador ter dito no inicio do filme que não tinha como envolver os país nos assuntos da escola, a gente vê sim os pais dos meninos do time aparecendo o tempo todo pra falar sobre a educação dos filhos — mesmo que não dentro dos moldes esperados

Imagens que provam que os pais frequentam a escola sim, inclusive, OCTAVIA SPENCER TE AMO BJS

Sabe, tem um artigo muito louco escrito por um tal de Daniel Thin onde ele analisa a relação de famílias populares (jeito acadêmico de pesquisadores ricos dizerem “famílias pobres”)e a escola. Nesse artigo (que tá aqui, só clicar) ele diz, entre outras coisas, que a relação da família pobre com a escola é mais instrumental: elas se preocupam muito sim com a educação dos filhos, mas pensando no quanto isso pode ser ou não útil pro futuro desses jovens. Nessas, essas famílias acabam vendo com maus olhos tudo que é lúdico e não diretamente relacionado ao mundo escolar de um modo mais tradicional — e isso fez eu lembrar da minha mãe gritando coisas como “EU NÃO TE MANDO PRA ESCOLA PRA VOCÊ FICAR DESENHANDO ESSA SUA PROFESSORA TÁ COM PREGUIÇA DE ENSINAR?” ou meu pai falando “MAS TU NÃO TEM MESMO QUE FAZER EDUCAÇÃO FÍSICA, JOGAR VÔLEI NÃO VAI TE AJUDAR EM NADA MESMO, NÃO SEI PRA QUÊ ISSO” (essa parte do meu pai eu pessoalmente adorava porque credo educação física eu queria era sarrar).

Enfim, no filme, os pais dos alunos do Colégio Richmond veem o jogo de basquete como mais importante que as notas ou a frequência dos filhos. Não há uma separação entre trabalho e jogo onde o primeiro ganha um viés de seriedade que falta no segundo, pelo contrário, no filme observamos pais indignados com o fato de que seus filhos podem ficar sem jogar basquete, mas que aparentemente nunca se incomodaram com as faltas ou as baixas notas dos mesmos, dinâmica completamente contrária ao artigo do tal do Daniel Thin.

Se pensarmos que o basquete na comunidade afro-americana cumpre de fato uma função social, sendo uma atividade comunitária que ativa mecanismos de pertencimento e que está presente no imaginário da população como um instrumento possível para se escapar de lugares sociais impostos, poderíamos entender a reação desses pais dentro da lógica posta por Thin. Seriam então pais preocupados com práticas escolares associadas a uma função social e que podem servir como uma oportunidade de mudança para seus filhos (no caso, o basquete poderia levar aqueles jovens a uma carreira profissional cercada de riquezas, luxos e afins), porém, o filme planifica tanto a figura dos pais dos alunos que o que poderia ter sido visto como um sinal de preocupação dos pais com o futuro de seus filhos acabou por se transformar em um reforço de lugares sociais e de estereótipos que acaba por cair na desqualificação simbólica que o próprio Daniel Thin condena: são então os pais ignorantes, totalmente alheios ao que de fato é importante para o futuro de seus filhos e que não tem a iluminação necessária para notar que o Treinador Carter é o único caminho viável para dar um bom destino aqueles jovens.

(na real tem apenas uma mãe que foge dessa regra acima, mas ela o faz por “medo de ver outro filho ser assassinado” — aliás, nessa cena, quando ela entrou na loja do Treinador Carter eu meio que já até sabia o que diabos ela ia dizer… previsível…)

Temos então o cenário perfeito para a ascensão de um grande herói e de uma história que vai fazer todo mundo chorar: alunos pobres e relapsos, uma instituição sem projeto que sucumbiu ao determinismo, professores conformados e pais ignorantes, incapazes de refletir sobre o melhor para seus filhos interagindo em um cenário periférico onde temas como a criminalidade, a violência, o tráfico e o encarceramento estão a todo tempo vindo a tona.

E o que isso gera no psicológico de quem assiste o filme? Reações tipo essas aqui:

Fãs do filme falando no Filmow sobre como Coach Carter é emocionante, motivador e uma puta lição de vida, meo!

MAS E AÍ?

Bem, a Cynthia Greive Veiga tem um artigo massa onde afirma que a preocupação com o acesso universal ao ensino só foi possível no momento em que as classes medias e altas já se percebiam como totalmente civilizadas em oposição ao povo das camadas mais pobres (ARTIGO AQUI). Essa parcela não escolarizada da população, trazia problemas aos planos da elite por colocar em risco um projeto de uma nação pacífica, ordeira e homogeneizada culturalmente. A escolarização serviu então como um dispositivo fundamental para aprofundar a teoria da civilização, tornando gestos e ações previsíveis. O Estado, com o seu monopólio dos saberes, pôde finalmente aplicar um projeto que produzia a previsibilidade (a população pobre é munida com um conteúdo básico de saberes para que desejem e se tornem parte do grupo dos civilizados, fazendo com que os conflitos sociais possíveis sejam diminuídos ou anulados através do controle de impulsos e emoções, a aplicação de uma nova carga moral e a criação de desejos que mantêm o jovem pobre dentro da ordem capitalista sem questioná-la) e homogeneizando as relações sociais através da criação de jovens bem-comportados, modelos amenos de convivência social.

Tem esse documentário bem massa que “denúncia” como funciona esse processo civilizatório que usa a escolarização como ferramenta em regiões da Índia

Esse papel civilizador da escolarização seria então tarefa e competência do Estado e das instituições, né? Mas aí eu te pergunto: qual o papel do Estado em Coach Carter?

SIM!

Ele simplesmente NÃO EXISTE como mecanismo em interação com a instituição escolar. O Estado só aparece nas entrelinhas quando se fala das prisões.

E a instituição escolar? Bem, ela é retratada no filme como fraca, sem um projeto claro, que apenas existe como etapa de passagem para alunos que naturalmente irão ser engolidos por uma sociedade cruel assim que abandonarem aquele espaço.

Nesse sentido, o Treinador Carter faz no filme o papel de Estado, aplicando um projeto civilizatório que visa transformar aqueles “marginais” em “cidadãos”.

SIM! O cara é tipo o Rei Sol com os bagulho de “O Estado sou eu!”. E é mesmo.

Tipo, se liguem:

Em uma das cenas mais simbólicas do filme, acontece uma audiência pública para que toda a comunidade escolar discuta sobre uma paralisação dos treinos e jogos imposta pelo Treinador Carter e que só teria fim quando os seus alunos finalmente sacassem que ele não tava ali pra zoera. Após ouvir as reclamações e os pedidos da comunidade presente, Treinador Carter pede a palavra e faz o seguinte discurso bem bonito:

Vocês precisam pensar na mensagem que estão passando para os garotos. É a mesma mensagem que passamos para atletas profissionais: que estão acima da lei. Estou tentando ensinar a esses meninos a disciplina que irá ajudar suas vidas e lhes dar escolhas.
Se confirmarem o fato de que garotos de 15, 16, 17 anos, não precisam honrar as regras simples de um contrato de basquete, quanto tempo acham que vai demorar até que eles estejam indo contra as leis? Eu joguei basquete no Richmond há 30 anos. Era a mesma coisa na época. Alguns dos meus colegas acabaram na prisão. Alguns deles acabaram mortos. Aceitei o emprego porque queria fazer mudanças em um grupo especial de alunos e esse é o único modo que conheço para fazer isso. Se cancelarem a paralisação, não vão precisar me demitir — eu saio.

Esse discurso funciona como síntese do projeto de Carter: ele não é o típico professor Robin Willins que quer despertar em seus alunos o amor pelo conhecimento para que eles aprendam que a educação é uma arma contra o sistema. Como negro, Carter se preocupa com as vidas daqueles garotos pois não quer ver ser repetida a história de seus colegas, hoje mortos ou encarcerados.

Até aí tudo bem.

Mas a garantia de vida e de ter escolha só virá quando esses meninos negros aprenderem que é preciso respeitar as leis e o sistema ou não haverá escolha. Carter tenta emular o Estado em uma tentativa de fazer com que seus alunos entendam que as leis são importantes pois, caso contrário, o Estado não terá alternativas a não ser matá-los ou mandá-los para a prisão.

Tipo, o filme todo tem aquele climão de “poxa, ser negro e latino na periferia é tenso e cruel”, porém, só é assim por culpa exclusiva desses negros que não entendem que o Estado está lá e precisa ser obedecido. Todo o discuso é culpabilizador e esquece que em uma sociedade classista e racista o jovem negro é morto sem precisar de justificativas para isso. É a velha fórmula sendo aplicada: o negro e o pobre tem problemas com a lei porque não conseguem se adaptar a elas por pura falta de caráter ou consciência. Não há ai desigualdade ou peso social envolvidos. São os jovens negros que precisam entender que ou se adéquam ao sistema vigente ou serão mortos, por culpa exclusivamente deles mesmos.

Para completar, assim que o treinador termina o discurso ameaçando se demitir, os pais dos alunos, já postos como ignorantes, comemoram — como se não tivessem ouvido nenhuma palavra do discurso, como se eles mesmos não se importassem com a lei ou com a mensagem que estão passando para seus filhos e que é denunciada por Carter. Tudo besta, menos o Carter. Ele é foda, o resto é moda.

Lembram do texto do José Carlos Libâneo que eu mencionei lá no meio do texto? Se não lembra, cá está o texto outra vez, e agora foca na página 20 porque lá estará tudo o que falarei abaixo:

Então, o Treinador Carter é o Estado aplicando seu projeto de ensino para as periferias e países pobres, exatamente como dito no texto. Pode reparar: em momento algum do filme o professor tenta fazer os alunos terem paixão por aprender ou entenderem a importância do conhecimento, o que se busca é dar aos alunos as “competências e habilidades mínimas para a sobrevivência e o trabalho”, sendo que aqui a sobrevivência é entendida em seu sentido literal: ou você aumenta suas notas e vai pra faculdade ou vai morrer quando sair da escola.

O mérito é medido por avaliações de caráter quantitativo independentes dos processos de aprendizagem e formas de aprender (sua nota é o que importa, mas não se você realmente pegou o conteúdo), assim como se preza pela aprendizagem de valores e atitudes úteis para a vida cidadã com ênfase na sociabilidade e ideais de solidariedade.

“…ensinar as futuras gerações a exercer uma cidadania de “qualidade nova”, a partir da qual o espírito de competitividade seja desenvolvido em paralelo ao espírito de solidariedade. Assim ocorre uma renúncia, uma negação da expectativa de divisão de classes e há um ajustamento para uma atitude “cidadã” que diminua as diferenças e a miséria, incutindo uma noção de solidariedade e amenização das lutas de classes e diferenças raciais, sociais, culturais, entre tantas outras.

Esse é o papel da escola periférica segundo os planos das agencias internacionais. E é exatamente esse o papel que o Treinador Carter cumpre no filme.


Coach Carter é então mais um filme sobre o professor herói, mais um clichê que termina com alunos periféricos abandonando as possibilidades marginais da sociedade e dizendo “você salvou minha vida, professor”. Um filme que surge como uma lição de vida, apresentando a trajetória de coragem de um professor negro que não se deixou levar pelo descaso institucional, as críticas de pais ignorantes e a revolta de adolescentes indisciplinados. O filme é sobre Carter e seu método de sucesso que em um primeiro momento soa ao espectador como uma lição de vida e uma crítica anti-racista, mas que quando analisado, mostra mais um discurso meritocrático, culpabilizador, liberal e sem qualquer preocupação com o ensino ou os métodos de aprendizado.

Mas aí você vai me dizer “ah, mas para, ao menos ele alcançou os objetivos dele e alguns alunos foram sim pra universidade ow”. Verdade. Mas já reparou em outra coisa?

A redenção desses alunos até acontece, mas não produto de uma reflexão moral mais ampla ou como resultado de uma mudança de percepções sobre a educação: todos os alunos que abandonam a revolta juvenil e aceitam se empenhar para ter boas notas, o fazem por causa de gatilhos externos.

  • Um dos garotos percebe que deve estudar após ver o primo ser baleado.
  • Outro nota a importância de seguir com o estudo ao perceber que será pai adolescente e que não tem nada para oferecer a seu filho no futuro.
  • O último, se redime após sua mãe fazer um discurso sobre como já teve um filho assassinado e não quer que essa situação se repita.

É a condição de marginalidade sendo limitadora ao mesmo tempo que funciona como mobilizadora da mudança. Não foi “a educação” que motivou a mudança, nem mesmo a moral, nem mesmo o respeito ao Treinador Carter: a mudança veio pelo medo de se manter dentro de um ciclo de desgracera que possivelmente resultaria em morte para muitos daqueles jovens.

Assim sendo, a aprendizagem funciona independente do ensino e da pedagogia — basta se esforçar que o aluno consegue chegar a universidade. A instituição não precisa mudar, os professores não precisam adaptar seus métodos ou pensar em meios de atingir aqueles adolescentes, o Estado nem precisa investir no ensino público ou realmente tentar melhorar a qualidade da escola: afinal, a mudança só virá por meio do esforço pessoal, do sacrifício e dedicação dos alunos — o problema é individual e se todos os alunos da escola pública pararem de reclamar e começarem a se esforçar DE VERDADE, então todos podem sonhar com a faculdade um dia porque meritocracia existe e é linda ❤……………………………………………….. NOT

“OS 12 PASSOS PARA TER SUCESSO NA VIDA”: aposto que os dois primeiros são “Pare de ser vitimista” e “A PM é sua amiguinha, seja legal com ela”.

Bem, esse texto ficou enorme, não é?

Para finalizar: depois de tudo isso não surpreende tanto assim saber que o Treinador Carter do mundo real é hoje um cidadão que dá palestras caríssimas pra empresas e empresários dando valiosas dicas de “””como ter sucesso na vida””””: é a educação para reestruturação capitalista sendo posta em prática, favorecendo a boa sociabilidade capitalista e contribuindo para que a educação permaneça como um braço forte do processo civilizador.

E tudo isso com uma roupagem que nos faz acreditar que estamos assistindo uma baita crítica ao sistema quando, na verdade, estamos vendo uma fórmula do sistema para culpabilizar minorias e se manter exatamente do mesmo jeitinho que sempre foi.

E ai? Decepcionado?