As sete inconveniências que se tornaram recorrentes quando virei um (quase) vegetariano

Decidi que queria ser vegetariano aos 15 anos. Foi bem espontâneo, na verdade. Não houve pesquisa prévia, não houve nenhuma lista de prós e contras, não houve nenhum motivo específico. Foi no estilo “vou virar vegetariano” e virei. Ou quase. Tendo histórico de anemia, não podendo me dar ao luxo de uma dieta controlada e não querendo forçar os meus pais à se adaptarem a uma escolha que fora minha, resolvi manter a carne branca no prato (entende-se: peixe e frango, ocasionalmente peru).

No começo, meus pais não me apoiaram. Meu pai, de propósito — mas com uma intenção mais humorística do que malvada- fazia churrasco todo domingo. Eu comia meu arroz com salada, com um pouquinho de raiva pela suposta provocação. Depois de passar uns meses, meus pais aceitaram que eu não iria mesmo comer carne vermelha e começaram a investir mais em carne branca. Mesmo eu não querendo, a minha família teve de se adaptar minimamente ao meu “novo estilo de vida” como eles chamaram.

Durante meu crescimento, sempre encarei pessoas vegetarianas positivamente. Quando, entretanto, virei semivegetariano, percebi que não é bem assim. Vamos, então, listar os principais comentários que eu mais odeio.

Inconveniência #1: “mas você é tão magrinho, se parar de comer carne…”

É bem chato ser fiscal de corpo alheio, viu. E pior que as pessoas não comentam isso com um tom de preocupação, não. Está mais pra um julgamento, como se eu fosse burro por escolher não comer carne. Minhas respostas variam de “pois é, né” até “relaxa, eu como quatro pães no café da manhã”.

Inconveniência #2: (pela quinta vez:) “mas tem certeza que você não quer?”

Sim. Absoluta. Nunca estive tão certo em toda minha vida. A única verdade imutável em minha existência. Estou inquestionavelmente e decisivamente sem dúvidas nenhuma de que não quero.

Inconveniência #3: “comigo é sem frescura, como tudo o que tiver na mesa”

Ah, que legal, né. Bom pra você. Fico feliz, de verdade.

Inconveniência #4: “presunto nem é carne, deixa de frescura!”

Joga aí presunto no Google, vai

Inconveniência #5: “…mas você ainda come carne branca, não faz muita diferença…”

Que bom que você sabe de toda a minha história com a alimentação, todos os meus motivos para virar (quase) vegetariano e todas as minhas preferências, né.

Complemento: existem estudiosos e pesquisas que apontam falhas na dieta vegetariana quando ela se destina, segundo os praticantes, à salvar a vida animal. Com a lógica capitalista do mercado, cada vez mais acadêmicos têm questionado o efeito real do vegetarianismo no combate ao abuso animal.

Segue alguns links sobre a relação capitalismo — vegetarianismo:
A Questão do Capitalismo Vegano
O Vegano Capitalista
Capitalismo combina com sustentabilidade?
Wikipédia: Veganarquismo

Complemento 2: aqui vai algumas diferenças entre o consumo de carne branca e carne vermelha, para quem se interessar, também.

Inconveniência #6: “eu esqueci de avisar que era um churrasco, mas tudo bem por você, né?”

Pô, tudo bem, não almocei, mas tudo bem. Tem música… e suco.

Inconveniência #7: estar na casa de um amigo, esquecer de avisar que você é (quase) vegetariano e ter que recusar o almoço da tia

Foi mal, tia. De verdade. Aposto que estava gostoso.

Em resumo, não sinto falta nenhuma de comer carne vermelha. Na verdade, quando sair de casa e puder adaptar minha dieta, sem interferir a dos meus pais, pretendo também cortar a carne branca. A questão é: se você é um vegetariano, ou (quase) vegetariano, você com certeza passará por inconveniências. Mas acredita: você cresce com elas. Ou pelo menos se diverte. Eu espero.