Jornalistas argentinos dão exemplo de dignidade

O editorial que o jornal La Nación publicou em 23 de novembro, no dia seguinte à vitória do candidato de oposição na eleição para a presidência da Argentina, provocou uma vigorosa reação dos jornalistas da própria empresa. Com o título “Chega de vingança”, o texto ousava comparar a luta armada de resistência ao regime militar nos anos 1970 aos recentes atentados em Paris e defendia uma revisão nas penas dos que cometeram crimes durante a repressão naquela época. O próprio presidente eleito desmentiu o editorial, sem citá-lo, em sua primeira coletiva após a vitória, garantindo que manteria os processos.
Pelo twitter, os protestos dos jornalistas se multiplicaram:
“Trabalho em La Nación, mas não concordo com o editorial de hoje. Não sou o único jornalista de LN que pensa assim”.
“Trabalho para o jornal La Nación. O editorial de hoje é grave sob qualquer perspectiva. Um tiro contra a democracia e o país”.
“Repudio o editorial de La Nación de hoje. Nem esquecimento, nem perdão. Não ajuda nem um pouco ao governo que apela ao entendimento. Triste”.
“O editorial representa a empresa, não seus trabalhadores”.
E comemoravam:
“Há algo de bom no editorial de hoje do La Nación: gerou uma onda de repúdio sem precedentes entre os trabalhadores do jornal”.
“É um orgulho ver que tantos companheiros de trabalho repudiam o editorial”.
Na mesma tarde, os jornalistas fizeram uma “assembleia histórica” e posaram para uma foto na redação, em que se destacava a faixa de condenação ao editorial. Pouco depois, o jornal publicava em seu site um texto sobre a repercussão negativa do episódio. Ao final, reproduzia a nota dos jornalistas, suprimida pouco depois, sem qualquer justificativa ou esclarecimento aos leitores: não houve sequer informação sobre a “atualização” do texto, o horário de publicação se manteve. Mas a nota pode ser lida em outro site, e é assinada pelas “comissões internas de imprensa e gráficos”:
“Nós, que trabalhamos no jornal La Nación, nas revistas editadas pela empresa, nas versões online de todos os seus produtos jornalísticos, entendemos que a vida democrática implica o convívio de distintas ideias, projetos e identidades políticas. Entre estas paredes, convivemos trabalhadores que expressamos essa diversidade e, a partir de nossas diferenças, construímos um sentido comum. A partir dessa diversidade, repudiamos a lógica que o editorial de hoje pretende construir, que em nada nos representa, ao igualar as vítimas do terrorismo de Estado e as ações na Justiça em busca de reparação nos casos de delitos de lesa-humanidade às punições a presos comuns e a ‘uma cultura de vingança’”.
Diferenças marcantes
Não são poucas as diferenças entre a Argentina e o Brasil, especialmente quando se trata da maneira de encarar os crimes cometidos — inclusive solidariamente — durante as respectivas ditaduras. Lá, as fortíssimas resistências ao julgamento dos militares e seus colaboradores foram enfrentadas vigorosamente e o lema “ni olvido, ni perdón” acabou prevalecendo. Aqui, a Lei da Anistia, aprovada em 1979, acabou usada para o que de fato ela não acolhe — o perdão aos torturadores, a partir de uma interpretação propositalmente distorcida da expressão “crimes conexos”, que supostamente abrangeria quem participou da repressão às ações de resistência ao regime. Pior: ainda que a lei beneficiasse também os torturadores, eles só poderiam ser anistiados depois de processados — pois a anistia só pode ocorrer no processo –, o que jamais aconteceu. E, ainda hoje, sempre que se volta ao tema, a reação contra o suposto “revanchismo” é imediata. Não por acaso, as Comissões da Verdade, tanto as regionais quanto a nacional, tiveram tanta dificuldade em trabalhar, e apresentaram resultados muito aquém dos esperados.
Mas o caso do La Nación também evidenciou diferenças marcantes no comportamento de jornais e jornalistas. Quem imaginaria algo parecido no Brasil? Por aqui, em outros tempos, houve manifestações coletivas nos locais de trabalho, houve assembleias numerosas que chegaram a aprovar greves, mas isso foi numa época em que também tínhamos comissões de redação e alguma clareza sobre o papel de cada um na hierarquia das empresas, sobre as diferenças de interesses entre a massa de jornalistas e quem estava no comando. Por mais que tivéssemos, como sempre tivemos, dificuldade em nos assumir como trabalhadores. Mas, e hoje?
O episódio mais recente em que jornalistas de uma grande redação ensaiaram uma atitude rebelde ocorreu no Globo, em 2013, logo após a famosa primeira página de 17 de outubro daquele ano, que exultava com a possibilidade de punição exemplar aos “vândalos” recolhidos em massa pela polícia no Rio na noite anterior — e os “vândalos” eram manifestantes que estavam pacificamente sentados nas escadarias da Câmara dos Vereadores e do Teatro Municipal, na Cinelândia.
Foi o auge do descontentamento interno com a linha editorial que, desde o início dos protestos detonados pelo Movimento Passe Livre, em junho, não perdia uma oportunidade para condenar os movimentos sociais. Ativistas se movimentaram na internet para entupir a caixa postal do jornal com mensagens indignadas, que acabaram bloqueadas para a redação, o que aumentou a revolta dos jornalistas. Um grupo de profissionais mais jovens se reuniu para redigir uma carta aberta à direção da redação, mas logo se desmobilizou, com medo das consequências.
Desde então, o cenário só piorou, com a sucessão de passaralhos promovidos pelas empresas: viver permanentemente sob a ameaça de perder o emprego — e, pior ainda, de não conseguir arrumar outro, diante da sistemática eliminação de vagas — é a receita mais eficaz para fazer arrefecer qualquer ímpeto de contestação.
O dedo na ferida
Eis que, de repente, um jornalista resolve publicar em seu blog um texto que sintetiza com precisão o ambiente em que atualmente a profissão se desenvolve. A partir de um título aparentemente inocente, “Chega de notícias ruins”, Sidney Rezende pôs o dedo na ferida. Três trechos são particularmente contundentes:
“Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo”.
“Reconheço a importância dos comentaristas. Tudo bem que escrevam e digam o que pensam. Mas nem por isso devem cultivar a ‘má vontade’ e o ‘ódio’ como princípio do seu trabalho. Tem um grupo grande que, para ser aceito, simplesmente se inscreve na ‘igrejinha’, ganha carteirinha da banda de música e passa a rezar na mesma cartilha. Todos iguaizinhos”.
“Uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquece do nosso dever principal, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser o nosso desejo interior. Essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também”.
Não faltaram cabeças para vestir a carapuça e a reação da turma das neuroses loucas não se fez esperar. Jornalista de vasta experiência, âncora da GloboNews há 19 anos, um dos raros a manter uma postura sóbria, contrária à tendência à informalidade engraçadinha que vem transformando os apresentadores de telejornais em animadores de auditório, Sidney publicou seu texto no dia 13 de novembro. No dia 14, trabalhou normalmente. Ao fim do expediente, foi comunicado de sua dispensa.
O mais curioso — o que apenas confirma a justeza das críticas do jornalista — é que essa demissão ocorre no momento em que as entidades patronais se movimentam contra a recém-aprovada Lei do Direito de Resposta. Falando diretamente ou através de colunistas famosos, contestam o que seria a imposição de uma “mordaça” — Míriam Leitão chegou mesmo a afirmar que a lei seria “a mais genuína representante do bolivarianismo no Brasil”.
É o velho discurso refratário ao estabelecimento de qualquer forma de regulamentação da atividade jornalística, sob o argumento de que uma lei específica seria uma forma de cercear a liberdade de expressão e de imprensa. Nem se trata disso, como deveria ser óbvio, pois qualquer profissão deve obedecer a regras, e a própria ombudsman da Folha de S.Paulo apontou a dificuldade de se “defender sem reservas a autorregulação da mídia” diante da notória resistência de jornalistas em reconhecer erros. De todo modo, seria o caso de perguntar: os jornalistas têm liberdade de expressão?
Se as várias formas de vigilância que as empresas exercem regularmente sobre seus funcionários — e que certa vez associei à “maldição de Figaro”, o famoso personagem de Beaumarchais que era livre para tudo, desde que não fizesse nada — já forneceriam uma resposta, a demissão de Sidney Rezende não deixaria qualquer dúvida.