Esse ônibus passa na eternidade?

Eu de capacete e macacão do Senna correndo um campeonato de kart. Você deveria saber disso!

Hoje resolvi pegar um ônibus.

Fiz as contas… dava.

Dava tempo, seria mais barato, mais cômodo, a rota era a mais curta e a logística seria ótima. Quem diria? Se ônibus tivessem milhas, eu já estaria na casa de 1 bi.

Saí andando, observei o grande movimento das pessoas nas suas rotinas. Senti falta dos carros. Logo percebi que uma operação policial estava fazendo o contorno na contramão e fechou o fluxo dos automóveis. “Ah, cidade em guerra civil”, pensei, estafado. Meus dois assaltos sofridos recentemente passaram pela cabeça de relance.

Logo voltei à realidade para observar a estranha cena que se apresentara: um figurão de mochila, longos cabelos grisalhos, blusa florida e um ar de revolucionário dos anos 1960 ajudava os carros da repressão a fazer uma manobra que poucos instrutores do DETRAN-RJ conseguiriam ensinar. Ao mesmo tempo, do outro lado da rua, um morador de rua, nitidamente entorpecido pelo solvente de sua garrafa plástica, aplaudia o sucesso da manobra. Os cerca de 50 policiais armados até os dentes em seus 5 veículos não poderiam intervir, provavelmente outra missão os esperava. Tudo isso em cinco minutos.

No ponto de ônibus, o mesmo revolucionário recém promovido a manobrista oficial já discutia política com um gari. Corrupção, caráter, educação, televisão, José Mayer… Tudo era repercutido ali. Discursos inflamados contra a apatia de uma população que se esconde em seus carros filmados e smartphones dominavam uma roda que foi acrescida de um jovem hipster que defendia quem jogava games violentos. O destino é o melhor pauteiro que existe. Trocamos contatos, mas eu já perdi. Queria ver o vídeo que ele citou… Mas o ônibus chegou. Não passaram nem 15 minutos.

Entrei na linha 485-Fundão e também em uma viagem ao passado saudoso do ambiente da faculdade. Todos universitários em seus livros e resenhas sobre iniciação científica. Sentei do lado de uma menina bonita e lembrei dos tempos que bolava estratégias para achar o amor da minha vida em um ônibus a caminho da UFRJ. Não durou muito tempo. Fui para o final do ônibus porque lembrei da formatura da minha prima de letras na qual 90% dos graduados citou que essa linha lotava e eu ia saltar logo. Sentei nos degraus da porta de saída, ali eu já estava saudoso, feliz, inebriado por uma realidade da qual sinto falta.

Cheguei à Leopoldina e meu status era amarradão. Tive a ideia: vou vir sempre de ônibus. Sinto falta de refletir e conviver com outras pessoas.

Senti falta de você, cara.

Logo você que eu tanto zoava por gostar de ir de ônibus para o trabalho. Logo eu que desprezava o fato de você conhecer e ser conhecido por todos os motoristas e cobradores da linha que você pegava todos os dias. Você me fazia escalar a seleção brasileira de 1994 para cada um deles. Você dizia o número, eu respondia o jogador. E tinha um ritmo…

“Um? Tafarel”. “Dois? Jorginho”. “Três? Aldair”. “Quatro? Márcio Santos”. “Cinco? Mauro Silva”. “Seis? Branco”. “Sete? “Bebeto”. “Oito? Dunga”. “Nove? Zinho”. “Dez? Raí”. “Onze? Romário”.

Percebi que você valorizava o fato de interagir e ter um uma vida social na rotina mesmo que isso significasse envergonhar seu filho a cada esquina.

Senti sua falta, cara.

Ri de mim mesmo porque senti você vivo aqui dentro me fazendo te copiar. E olha, to te copiando muito, sabia? Vou te contar…

Queria te dizer que eu to correndo um campeonato de ‘corrida de automóvel’, como você chamava, como os que a gente assistia todos os domingos na TV Bandeirantes. Queria dizer que estou correndo com o macacão e o capacete do nosso ídolo Ayrton Senna como das inúmeras vezes que acordamos cedo pra vê-lo correr.

Eu decidi ir de ônibus porque hoje à noite eu vou ver o nosso Fluminense jogar no Maracanã como você me ensinou. E quero ir com a torcida comemorando no trajeto. Na ida e na volta.

Sinto sua falta, cara. Em breve eu pego um ônibus para eternidade com o motorista chamado Cristo da viação redentor que também vai me conhecer pelo nome. E lá eu te conto tudo e espero ouvir a sua sinceridade selvagem e sua voz grossa.

Sinto sua falta, cara.
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