Vomitando
Colocar pra fora. De onde tiramos isso. Bom eu tenho certeza que coloquei o que comi no café da manhã pra fora depois que vomitei, ou quando levei o lixo pra casinha do lixo ou quando coloquei meus sapatos na varanda pra pegar um vento. Fisicamente sei que estão fora. Mas o que eu quero dizer quando quero colocar pra fora algo que sinto…como se as palavras que escrevo pudessem carregar , ou a coreografia desengonçada de frente pro espelho, ou aquela sensação de esgotamento feat prazer depois de uma corrida, ou os olhos grandes e as coisas estranhas que desenho. Como se isso tudo te ajudasse a esvaziar coisas que estão grandes demais pra caber dentro de você, ou só coisas que você já não aguenta mais ter dentro de si.
Preciso esvaziar, e hoje não quero fazer isso pra ter mais espaço, pra coisas novas…que se danem as coisas novas…tenho outros cômodos com espaço pra elas…meu coração não.
Poucas coisas que preocupam mais do que o meu coração cheio.Ocupado.Eu posso colocar meu coração em tudo..na fotografia, no desenho, nos passeios sozinha, no trabalho. Mas não sei se quero algo dentro do meu coração além do que já é meu, além das coisas que amo sem peso.É como dar com uma mão e tirar com a outra e eu preciso da sensibilidade pra tudo o que amo…não posso deixar que meu coração se endureça.Sem ele sobra pouco de mim.Mas me sinto cansada, de levantar e plantar flores, fazer um belo jardim com o meu chapéu de palha e o meu macacão azul, debaixo do sol radiante brilhando e casando em todos os tons com o verde da grama e o colorido das flores…pra ver alguém caminhando sobre elas, distraído, ou pra sentir a chuva forte derrubando-as. Quero me sentar debaixo de uma árvore e sentir a brisa, caminhar por ai, ver a vida acontecendo, uma senhora caminhando devagar, duas crianças brincando de espada, um cãozinho sem rumo (espero que ele encontre alguém pra ama-lo), ver o dia terminar, furar uma onda e sentir ela me balançando enquanto parece levar pra águas mais distantes as coisas ruins que eu guardei, quero ouvir as pessoas conversando, me imaginar vivendo coisas incríveis enquanto escuto minhas músicas favoritas, pensar em como deve ser caminhar em Paris e sentar no final na tarde em uma mesa na calçada pra comer um croissant ou ouvir a paz daqueles monges no Tibete ou ouvir músicas havaianas no Havaí. Gosto de ver a vida acontecendo. Gosto de saber que o tempo não para.Eu poderia então morrer em paz. Parece solitário, mas parece bom, muito bom.
Existe sempre a possibilidade de alguém entrar, de novo, e ir embora, de novo, pisando nas flores, roubando as rosas. Não sei se quero mais plantar, eu estou levando comigo as flores que sobraram, as que sobreviveram, ainda não consigo parar de olhar o jardim e lembrar como era bonito, eu morro de saudade todos os dias e isso ainda me deixa vulnerável…mesmo morto, não sei se aguento ver ele sendo pisado de novo, mas já não estou mais lá, já sentei aqui debaixo da árvore e quero respirar, encostar a cabeça e tentar entender como tudo funciona, entender até que não é mais minha responsabilidade, que fiz tudo e fui o melhor que pude.
As metáforas ajudam a não falar exatamente o que acontece, e isso ajuda no processo de esquecer. Não mencionar, não trazer a existência. Se distrair.Tenho fé nas coisas que ainda vou encontrar.Torço pra não tropeçar no passado, nem nos meus pensamento nem no meu caminho. Torço pra que eu seja sábia, e inteligente e esperta e escute a minha intuição.
