
A decência não está escrita
Fila longa para o caixa. Quem não vive em Brasília e nunca foi ao Super Adega provavelmente tem na sua cidade um supermercado afastado, que vende produtos com dois preços, um no atacado e um no varejo, e mesmo os preços no varejo são tão bons que justificam a gasolina e a manhã de sábado perdida. Geralmente eu só vou até lá se eu consigo sair de casa antes das 9, mas os mantimentos aqui em casa estavam acabando. Por isso estava na fila ainda às 11:40 quando a luz do caixa número 7 se apagou.
“Agora anda”, pensei, já contrariado de ver tantos carrinhos do caixa seis passarem ao meu lado. Minhas costas doíam, meus calcanhares já estavam cansados de sustentar meu peso. Andou mesmo uma posição. Foi após mover este metro e meio de carrinho para frente que escutei o bate-boca que acontecia algumas posições para trás.
“Na minha frente, a senhora não entra,” dizia a senhora duas posições para trás. Seu carrinho estava na diagonal, bloqueando a passagem. Entre nós, um jovem de, no máximo, 17 anos moveu um pouco para frente seu carrinho enorme contendo apenas seis itens. Demorei para perceber que quem tentava passar pelo bloqueio era a mãe dele. Ela estava visivelmente nervosa. “Vai deixar eu passar sim, por bem ou por mal.” Tentou forçar o seu carrinho que transbordava de compras pelo bloqueio, mas sua força não foi suficiente para fazer mais do que barulho. “Aqui, não entra.” “Meu marido está em casa doente e eu tenho muita pressa.” “Eu vou levar uma pessoa para hemodiálise à uma hora,” retrucou a mulher que protestava. Contra hemodiálise não há argumento, né? Claramente essa passagem iria ser por mal, se fosse acontecer.
Cheguei mais perto. Um homem loiro da fila do caixa 7, duas posições para trás da mulher que protestava, disse algo baixinho. “Você é brasileiro,” perguntou aos berros a senhora nervosa, “sim, sou brasileiro, mas eu sou educado,” respondeu o homem educadamente. Um casal idoso da fila do caixa seis também aconselhou a mulher nervosa a ir para o final da fila. A reação foi novo choque entre carrinhos, seguido de uma tentativa de atingir a senhora que protestava com um pacote de 24 rolos de papel higiênico. “Sem violência,” disse o homem loiro, ecoado pelas outras pessoas em volta.
A moça que ficava entre o homem loiro e a mulher que protestou começou a aplaudir. “Parabéns para a senhora, que belo exemplo que está dando para todos nós, espero que o seu filho não aprenda com a senhora. Você não aprenda com a sua mãe, viu, menino?” Só causou nova investida contra o carrinho na diagonal, mostrando que irritar cachorro que rosna não adianta para nada.
Fui até o caixa e pedi para chamar a segurança para mediar o barraco. A funcionária primeiro queria ver o arranca-rabo. “Cadê, cadê?” Disse-lhe que ainda estava só esquentando e voltei ao meu lugar. O filho da senhora nervosa parecia ter enfiado a cabeça dentro do pescoço. A senhora nervosa tentou m tapa na nuca da senhora que protestava e errou. Foi a gota d’água para mim. “Sem violência,” repeti, e perguntei com todas as letras quando ela olhou para mim, teria ela deixado seu filho aqui e ido fazer o resto das compras? “Sim, eu vim em duas pessoas porque meu marido tá doente e não pode vir, vim em duas pessoas.” “De jeito nenhum, a senhora não vai entrar aqui, isso não pode fazer”, respondi, meio surpreso com minha própria reação.
“Onde é que tá escrito que não pode?” Seus olhos estavam vermelhos e sua fúria era total. “É a moral,” disse o homem loiro. “Não precisa estar escrito, isso é o correto.” Ela arregalou o olho, e todas as pessoas que já protestavam, mais a outra senhora que estava atrás da senhora agredida por seu protesto, diziam variações do mesmo tema, e depois cantamos juntos, “sai da fila, sai da fila, sai da fila”, que é o que adultos fazem quando tentam resolver seus problemas sem uma autoridade reconhecida para arbitrar.
Finalmente chegou o segurança e perguntou se mãe e filho estavam juntos, sim, sim, eles iriam passar as compras no mesmo cartão, sim, sim, o filho já não tinha pescoço, eram os ombros passando das orelhas, demonstrando sem querer a dimensão da sua vergonha. A mãe, ao contrário, começou a jogar as compras do carrinho dela no dele, errando o alvo em todas as tentativas. O segurança pediu ao menino que saísse da fila e o acompanhasse, e ele obedeceu, tirando um pouco a cabeça de dentro do peito. Aplaudimos.
Como no Brasil tudo vira risada, em cinco minutos já estavam rindo todos os remanescentes. A senhora que protestou agradeceu o apoio. Eu lhe agradeci seu protesto. Acho que todos nós, brasileiros, precisamos proteger quem protesta. Precisamos deles mais do que nunca. Outra senhora da fila do caixa 6 disse que fosse ela, não iria apanhar calada. Ainda bem que não foi ela, pensei. Cheguei em casa à uma e meia, torcendo para que a senhora que protestou tenha conseguido levar quem quer que seja a sua hemodiálise.