Desafio: 21 dias sem pensar em carne

É muito mais difícil viver sem carne quando você só come substitutos inferiores de comidas com carne.

Comecei a participar do tal #21DiasSemCarne, mas já parei. Acho legal que existam movimentos como esse, mas todos eles vêm com um defeito de fábrica: são construídos pra te fazer sofrer.

Quase todos os movimentos veganos que eu tenho visto fazem um jogo duplo muito cruel: pregam os males da carne e do leite, mas exaltam a carne e o leite em suas receitas. Veja a sequência de receitas veganas que eu recebi no desafio:

  • omelete de grão-de-bico
  • hambúrguer de grão-de-bico
  • pizza
  • quibe de abóbora
  • espetinho de tofu

Tudo quase sempre na presença do famigerado tofupiry, uma pasta branca que supostamente imita catupiry. Só que não.

Não tem nada mais desafiador do que comer substitutos inferiores de uma comida que supostamente é uma delícia. É um Tratamento Ludovico do carnismo, como aquele do filme Larânja Mecânica: expomos as pessoas ao máximo de carnismo para que elas não anseiem por carne.

Eu até entendo essa fixação toda. Quando se pensa em comer plantas, muita gente pensa em salada, e na cabeça do brasileiro, salada é isso aqui:

Incrivelmente, até onde eu consigo ver, não são os grandes restaurantes que estão fazendo as melhores saladas. Estes ainda usam o trio batido “cesar, caprese, verde”. Quem faz salada decente é restaurante natural a quilo. Lá você pode montar um potão com castanha de cajú ou do pará, sementes de girassol, gergelim, três ou quatro tipos de folhas, salsinha e cebolinha picadas. Tem repolho cru. Tem que ser uma salada que demora pra mastigar.

Mas vegano não come só alface, batata frita e hambúrguer de soja! Então come o quê?

Yakisoba vegano

A verdade é que o ocidente vai ter pouco a oferecer como inspiração ao veganismo. A gente tem que ir para o oriente, onde a tradição de comer pouca, quase nenhuma carne é antiga e faz parte da culinária local. Ficar sonhando com foie gras vegano é um desperdício de tempo e de paladar.

A comida tradicional mediterrânea também pode ser vegana com pouquíssimas modificações. Muitas receitas italianas de molho de macarrão já são veganas ou quase (Jamie Oliver faz tagliatelle e nem discute o tema). Muitas comidas gregas são vegetarianas, mas já aparece aquela dor ao exigir do tofu o mesmo prazer de um bom queijo feta.

Então tem que ir pra Índia, pra China, pro Japão. O tofu não é apenas um substituto de queijo, ele é um outro queijo, e ele pode brilhar se ele for de boa qualidade (geralmente, caseiro e comprado numa lojinha asiática) e se for preparado para exaltar suas características naturais, como tudo.

tudo junto tailandês

Leite de coco é sensacional. Você pode limpar a geladeira de todos os vegetais que tem dentro, vai jogando na panela, com leite de coco, bota uns cogumelos, e sai uma janta. Você vai precisar de novos ingredientes na sua cozinha: gengibre, óleo de gergelim, tahine.

Você vai precisar de especiarias: cravo, anis, cominho, coentro, páprica doce, açafrão-da-terra (cúrcuma). Garam masala. Pensa um indiano te ouvindo dizer que 21 dias sem carne é um desafio pra nós brasileiros. Hahahaha.

Aqui em casa tem mandiokeijo, tem proteína texturizada de soja, tofu, fazemos hambúrguer de grão-de-bico, mas prefirimos o de arroz, lentilhas e beterrabas da Isa. Quando tem grão-de-bico, é um falafel ou chana masala. Eu hidrato castanha de caju por duas horas, passo no mixer e uso como se usa creme de leite. Pode usar até tofupiry se essa for a sua onda. Mas cuidado com a inconsciente terapia do reforço da superioridade da carne.

O verdadeiro desafio é transcender os hábitos antigos que não servem mais. Uma vez feito isso, fazer acontecer é fichinha.