Conto de poucas horas

Quando cheguei no seu portão, parei o mundo ao meu redor. Apesar de pessoas me fitarem, observando o envelope branco na minha mão, meu rosto pálido da manhã de um falso mormaço, tudo estava fixo, a mesma cor da madeira, a mesma rua silenciosa e sua bougainvillea que floresce a chegada, a casa branca, a varanda, e por dentro eu era uma tempestade caminhando para a falsa calmaria que eu pintei. Antes subindo a ladeira, eu não tinha pressa, não queria arriscar uma carta assim sem mais, mas sabia que não poderia ficar com ela, se perderia em mim o desejo, a ideia, a bobagem, é tudo uma enorme bobagem, que me faz rir, que me agrada, é egoísmo, inflando meu ego, e toda vez que me aproximo de você, da sua rua, dos lugares onde sei que esteve, onde estivemos, onde você me levou, me acalmo e aprendo, você é como um caminho por onde eu controlo meu descaso com os demais, me retorna as excentricidades, ao estado de apenas deixar ser o bem e fazê-lo.
Só que palavras são preciosas demais, então eu fiquei, e subi.
Quando mandamos uma carta deixamos livres todas as possibilidades, o intuito é livre, aliás tudo deveria ser livre, ironia querer liberdade se sentindo preso a uma ideia louca de amor. E também é um paradoxo não ser livre a vontade do destinatário, quem recebe uma surpresa, sendo ela boa ou não, não pediu por ela. Bem, há um enorme desejo que é só meu de que essa carta seja lida, mas o ego que escreveu essa carta está preso e viciado em seu possível efeito. Ele não quer compartilhar, ele não quer entregar, ele quer receber, receber o sorriso, a graça, a certeza, a confiança, ele é faminto. Quer reaver aquele sentimento avassalador, e quer até mesmo comprá-lo através de conquistas poéticas e súplicas disfarçadas. Sente uma fome insaciável esse ego, e agora que eu o entendo mais do que entendia antes de começar a escrever, posso dizer que você tem permissão para ler a carta ou pode descartá-la sem abrir o envelope. Permito-me agora a nudez, ou não resisto a ela, não posso optar, pois diante de ti sempre estou e sempre estarei nu, ego nenhum pode com seu olhar, ele não pode te proibir, quem sou eu para te impedir? Sou nada. Farás o que bem entender com o mundo que alcança pois tem força motriz capaz de seduzir os mais rígidos corações. As palavras são suas, sempre foram, elas apenas usam minha mente e mãos e boca para sair ao mundo, a fonte é sempre você, cada vogal, cada consoante, cada fonema, e tudo que está ao meu redor, é um inverso de tudo avesso. Ah! Mas que baita exagero, esse ego se fantasia de carnaval e se esconde nessas palavras precisas mascaradas. Ele é assim sorrateiro, só pensa nele, só pensa em mim, quer receber, mas nada de concreto oferece. E como é difícil reconhecer isso, ele faz parte de mim, é estranho, ele sou eu, ele está em tudo que fabrico.
“Não sou vidente, mas sei o rumo do seu coração”, essa música veio à cabeça no dia que fui te levar a carta, de forma aleatória ela entrou e agora sempre que ela tocar vou lembrar de você, é só mais uma pra lista. Poça d’água é chafariz, a luz sempre nasce do escuro e o ego quer invadir alguma história com convite, coitado, ele deseja interpretar algum papel, o herói do fim do mundo, a peça importante de um enredo mágico, o semeador das árvores, o doador de órgãos depois da morte, ele tem fome de ser. Fuja do ego, mas me abrace forte.

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