Visita
Fico horas somadas a horas e a estórias sem te ver, quando é sempre quando e nunca é sempre ontem. Eu fico aqui deitado, leio, releio e nada, nadam na minha lembrança os flagelos invisíveis e dourados do imbróglio da sua cuca, e danam minha nuca nesse cômodo apertado, e eu me acomodo com isso. Ontem, no meu sempre nunca, fui te fazer uma visita, daquelas que há muito não pensava, daquelas que você nunca participa, porque não está, porque não me vê, porque eu nem saio mesmo daqui. Fui te visitar daquele jeito que eu não gasto minha sola, que eu não gasto a minha grana, que eu não piso na tua grama, nem pingo de suor de mim sai. Aquela visita que vai na luz da Lua, que uiva silenciosamente um cio da terra nos cantos pequenos do teu lar, visita que faço quando a paz me invade e me traz contradição, de me sentir na beira do cais, mas longe do mar imensidão.
