Nunca foi só sobre cabelo!

Uma verdadeira jornada de redescoberta de si mesma, dos seus valores, das suas heranças genéticas e históricas


Foto: Lebo Lukewarm

Em 2015 eu tomei uma decisão estética que mudaria toda a minha visão sociopolítica: eu resolvi assumir o meu cabelo natural. É importante te contextualizar e dizer que o meu cabelo era submetido a processos químicos desde os meus 6–7 anos de idade e que nunca foi uma imposição familiar, fui eu quem pedi para a minha mãe. Ah, e você pode estar se perguntado o porquê uma mãe permite esse tipo de coisa, mas o que você talvez não saiba é que isso ainda faz parte de um processo considerado natural quando se é mãe de uma menina negra.

Mesmo numa idade tão ínfima em quantidade de números, eu já sentia a opressão dos padrões estéticos impostos pela sociedade. Em algum momento dessa minha pouca existência, meu cabelo já tinha sido motivo de chacota na escola ou na boca de algum adulto preconceituoso — cuidado com o que ou como dizem às crianças — e isso teve conseqüências. A verdade é que sempre existiu uma diferença muito clara entre ser cacheada e em ser crespa. O crespo sempre foi associado ao feio, ao ruim. Eu passei a acreditar que meu cabelo não era bonito, passei a querer ver no espelho um cabelo que não era o meu. Cresci investindo “rios de dinheiro” para modificá-los, acreditando que eu ficava infinitamente mais bonita com o cabelo alisado e jamais com o meu cabelo natural. Mas esse não é um relato sobre baixa autoestima. Uma família predominantemente feminina e negra aprende a ser muito significativa em termos de autoconfiança. Grandes mulheres me ensinaram a me amar muito então sempre fui, até certo ponto, segura a respeito da minha aparência. Nunca me achei inferior a nenhuma outra garota alva de olhos claros, mesmo quando a preferência dos garotos da minha idade eram elas. Nunca achei que de alguma forma eu negava a minha negritude usando os cabelos lisos, e veja bem, ainda não acredito nisso. Eu estava feliz, com a ressalva, claro, de ser refém dos salões de beleza trimestralmente, de se preocupar em não tomar chuva e fica um tanto desconfortável numa viagem à praia, por exemplo. Ainda assim eu acreditava que estava satisfeita.

“Sempre existiu uma diferença muito clara entre ser cacheada e em ser crespa.”

No final de 2014 eu decidi fazer a minha primeira viagem internacional sozinha e não pude evitar, uma das minhas preocupações era o meu cabelo. Era justamente: “o que diabos eu vou fazer com o meu cabelo sem perder tempo de turismo”? Sim! Eu amo viajar, e na boa? Eu não queria perder tempo escovando o cabelo ao invés de bater perna e foi aí que tudo começou a mudar. Comecei a usar meu cabelo sem os artifícios do secador (mas ainda com química) e quando viajei a sensação foi ótima, libertadora! Essa viagem me transformou de inúmeras maneiras e essa foi só uma delas. Eu passei a desejar ter a liberdade de usar meu cabelo como eu bem entendesse e foi então que eu comecei o longo processo de transição capilar. Claro, eu poderia optar em manter alguns processos químicos, mas eu queria mais. Eu queria reafirmar pra mim mesma o orgulho do meu cabelo e eu queria descobrir como era o meu cabelo, afinal eu nem lembrava mais.

“Resistência nunca vai se limitar a cabelo, assim como apropriação não se limita a turbante!”

Esteticamente eu mudei, mas com certeza os efeitos disso vieram a calhar muito mais nos meus posicionamentos sociais e políticos. A forma como eu me relacionava com o feminismo, com o racismo e com os padrões estéticos mudou. Assumir meu cabelo me aproximou muito de um ávida curiosidade sobre o papel e a história do negro no Brasil, me deu vontade de fazer algo relevante por essa massa que não é minoria, mas é minorizada.

Durante esse processo, eu percebi que recebia muito menos olhares de reprovação antes quando frequentava certos lugares do que hoje e que muita gente faz uma leitura da atitude apenas como modismo, mas não faz ideia do peso que é carregar a sua ancestralidade nas costas. Eu puxei pra mim o dever de combater o padrão e de não me aproveitar de uma espécie de “branqueamento” pra minha presença ser melhor tolerada. E além de tudo, eu comecei a me achar mais bonita. A minha transição ainda não acabou e em vários momentos eu pensei sim em desistir. É fácil contar os louros quando já passou ou está quase, mas o processo é difícil sim. Você tem que reaprender a ser você, reaprender coisas básicas como pentear e cuidar do seu cabelo. É estressante, e em muitas mulheres é um processo de diminuição da autoestima porque as pessoas não são empáticas e fazem comentários maldosos ou porque os companheiros não as incentivam e/ou não “aprovam”. E é por isso que essas mulheres tem se unido, é por isso que tem se falado tanto de cabelo crespo/cacheado nos últimos tempos. Não é e nunca foi só sobre cabelo, na verdade é uma jornada de redescoberta de si mesma, dos seus valores, das suas heranças genéticas e históricas. É enxergar e se enxergar na sociedade sob uma nova ótica, é resistir todas as vezes que sair às ruas com o seu afro e não abaixar a cabeça para os olhares. E é lindo, mas não é o único caminho.

“Não é só sobre cabelo, é sobre amor próprio e se amar é difícil pra caramba!”

Veja bem, tudo tem dois lados: seu cabelo pode ser uma forma de resistência sim, mas não é a única. Resistência nunca vai se limitar a cabelo, assim como apropriação não se limita a turbante! Eu não gosto da falsa ideia de que uma mulher preta obrigatoriamente precisa deixar seu cabelo natural. A obrigação no meu ponto de vista é fazer com que a mulher preta não seja desvalorizada pelas suas características naturais, que seja incentivada a se amar, a se aceitar, e nesse processo ela possa decidir como ela quer ser: crespa, trançada, careca, lisa. Alisar os fios conscientemente sob um aspecto de gosto pessoal e não de constrangimento social é um direito nosso. Não devemos tentar sair de uma ditadura de beleza para criar outra, nosso trabalho é libertar. Existem inúmeras maneiras de resistir diariamente e a principal delas no nosso país está ligada ao simples fato de existir. Então a principal mensagem é: não é só sobre cabelo, é sobre amor próprio e se amar numa sociedade racista é difícil pra caramba! Você não é menos negra por alisar, mas você alisou pelos motivos certos? Digo, por você mesma?
Não limitemos ou minimizemos a luta. O nosso maior comprometimento deve ser incentivar nossas meninas a se amarem. A enxergarem a beleza das suas raízes e a usarem livremente sua escolha. Nosso comprometimento é quebrar os padrões juntas e repetirmos umas as outras: nós somos negras sim, e lindas!

“Nós somos negras sim, e lindas!”

E se você quer inspirações, dá uma olhada no meu Pinterest: https://br.pinterest.com/taaahhh/hair/