A apresentação de uma elefanta

Oi!

Eu sou a Audrey Zena. Gostaria de me apresentar, mas você, bem possivelmente, já me conhece.

Eu tenho um pouco da sua mãe, e um pouco de você também. Tenho um pouco daquela moça que você cordialmente recolheu os pertences que ela deixou cair ao chão enquanto atravessava a rua em rápidas passadas, segurando para baixo a saia que subia e fazendo contorcionismos para que seus seios não pulassem tanto. E tenho também um pouco daquela sua tia de risos largos e inconvenientes, mesclados da famosa “fungadinha” ao final de cada sessão de hahaha.

Um belo dia minha avó me comparou a uma pata. Disse que eu andava com as pernas meio tortas e a bunda ligeiramente empinada. E que tinha uma voz fanha. Eu fiquei meio incomodada pelas descrições posteriores à comparação. Mas fui mudando isso ao longo da vida, tanto o incômodo, quanto às descrições. Hoje me pareço menos com uma pata, mas também não achei tão chato ser comparada a ela. Mas a uma elefanta sim, durante a escola. Ok que são fofas, rechonchudas e desajeitadas quando crianças, características essas que me definiam em perfeição naquela época. Mas… Quando isso vira apelido ☹

“Audrey elefanta! Audrey elefanta!”. Hoje chamam isso de bullying, mas na minha época de escola era conhecido por três nomes distintos e sucessivos: Audrey-chorona, Audrey-dedurona e Audrey-tô-de-castigo-te-odeio-sua-elefanta. Era sempre assim. Dedurar pra diretora jamais fez com que parassem de me chamar de adjetivos inconvenientes.

Aí que passei a mudar minha estratégia para seguir na luta sem sofrimento. Gordinha que eu era, o carinhoso “elefanta” continuou. E, me lembro bem, era dia de excursão no colégio e a gente chegou para a concentração cerca de 2 horas antes da partida do ônibus. Era uma excursão que todo mundo queria ir! Nada de museus, bienais, visita à fábricas. Era dia de parque. Estávamos empolgados.

Foi quando o Guilherme, insuportável Guilherme, que irritava a tudo e a todos, da maneira mais detestável possível, persona non grata por todos os educadores daquele antro, passa a repetir incessantemente o conjunto de palavras mais ouvido — e detestado — por mim. “Audrey elefanta! Audrey elefanta!”. Olhei fuzilando-o com o olhar. E passei a procurar algum professor, monitor, que estivesse por perto e fosse testemunha dessa chatice. Em vão. Ele persiste: “Audrey elefanta! Audrey elefanta!”. Eis que aparece a tia da cantina, que, coitada, não tinha poderio nenhum para dar-lhe uma advertência, nem ao menos um “para, moleque”! E, sob a presença dela, ele seguiu repetindo os insultos, porém ao pé do ouvido, cochichando. Eu reclamei pra tia da cantina, mas ela só foi capaz de passar a mão na minha cabeça e dizer que o insuportável Guilherme estava só brincando. SÓ BRINCANDO. Que raiva.

Foi aí que apareceu o professor de Educação Física, Ademir, e eu repeti a reclamação. Ele, sem provas da acusação, fez o que a maioria dos professores que não querem tomar um lado faz: separou nós dois. Colocou o Guilherme sentado de um lado da quadra e eu do outro. Então, aquela criatura do mal começou a movimentar os lábios de forma que eu lia, sem confusões, as palavras “Audrey elefanta”. Não sabia mais o que fazer naquela situação. Qualquer atitude minha ia ser interpretada como loucura congênita. Fechei os olhos, ele batia palmas no ritmo silábico da insuportável frase direcionada a mim. Não poderia mais suportar aquilo.

Tentei contar até 10, mas no nove levantei em um impulso louco e apto a correr. Desenfreada, fui em direção ao demoninho e lhe tasquei um chute bem dado com meu allstar plataforma em seu piruzinho de 10 anos. Não sabia que com aquela idade já se era possível ter dor no piru. Mas era. E naquele instante fiquei com sensações mistas de “bem feito” com “me ferrei”.

Óbvio que nesse momento o professor de Educação Física viu e nos levou para a diretoria, a menos de 1 hora da partida do ônibus de excursão.

Contei todo o acontecimento à diretora Dona Neuza. Ela me entendeu, por incrível que pareça. Minhas boas notas e bom comportamento serviram de alguma coisa! Mas disse que o que eu fiz foi errado, e para que, da próxima vez, eu inventasse um apelido bem chato pro menino capeta. “E porque não Guilherminho Coelhinho?”, disse Dona Neuza referindo-se aos dentes protuberantes dele. E pronto. Aprendi a lidar com o bullying da melhor maneira: contra-atacando de forma divertida. Não fazia isso com quem não me incomodava, claro. Mas, sabe que esse Coelhinho viralizou no colégio e até ontem eu fucei no Facebook do menino e tinha gente chamando ele assim? Valeu, Dona Neuza. Você me ensinou a apelidar e a fugir de bullyings subsequentes. E deu um apelido bem conveniente ao menino capeta.

Finalizamos o dia da seguinte forma: eu, no parque, feliz da vida e espalhando o apelido do Coelhinho; ele, irritado e dolorido. Ganhei!

Bom, esse relato que começou de uma maneira e terminou de outra, como a maioria de meus pensamentos, foi uma tentativa de me descrever inicialmente. Eu sei que faltaram algumas coisas, algum parênteses, vírgulas e reticências. Faltou também meu signo, minha cor favorita, minha árvore genealógica, meus dons e o dia que dei meu primeiro beijo. Aliás, faltou foi coisa pra caramba. Mas você vai descobrir um pouquinho mais sobre Audrey Zena ao longo de cada crônica. Aguarde que amanhã tem mais (:

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