(Lars and) The Real Girls: mini-reflexão espontânea sobre “bonecas infláveis”

Dias atrás, o vídeo abaixo — sobre o processo de fabricação das “bonecas infláveis”— apareceu, por mais de uma vez, em meu feed de notícias do facebook.

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=293671704310720&id=117753738569185

Sobretudo em um dos perfis nos quais foi veiculado, multiplicaram-se comentários horrorizados acerca da — literalmente, digamos — “objetificação desnuda” do corpo (considerado) feminino, a partir dessa especialidade da indústria pornô.

Embora eu deva confessar que, inicialmente, as imagens tenham me despertado a atenção para outras ideias que não essas, o conteúdo, de fato, perturba — como alertou minha companheira em uma conversa posterior — porque ali vemos de maneira muito direta a (convencionada) mulher como mero repositório de desejo tipicamente masculino.

O vídeo insinua, então — e precisei que uma mulher me enfatizasse isso — , a existência de pessoas(-humanas) para as quais as bonecas de plástico podem substituir aquelas “de verdade” — portanto, as duas coisas são, nesses casos, uma só. E, mais ainda, pela produção em série desses produtos, não são poucos —como meia dúzia de “pervertidos” — os que, física e simbolicamente, se comprazem, assim, com tais “objetos”.

Numa palavra, e desde os limites de minhas experiências masculinas, o processo de fabricação dos manequins parece impressionar especialmente as nomeadas “mulheres” porque, de uma só vez, pode-se, com isso, vislumbrar como seus padrões fisicamente ideais são construídos não por si mesmas, mas pelos homens, para que, nesse mesmo tempo, os clichês sejam subjugados e violados por seus próprios produtores.

Se eu estou certo — já que, provavelmente, existem muitas outras questões para além disso — , a “boneca inflável” é apenas pequeno sintoma da posição que, ainda hoje, se espera da tradicional “mulher” em sociedades majoritária e idealmente masculinizadas, não obstante seus diversos graus de abertura e tolerância.


Possivelmente por eu me situar no lado privilegiado dessas relações de força, ao contemplar o vídeo, não pensei na situação mais geral das mulheres, mas lembrei de algo oposto. De imediato, os manequins me remeteram a um filme que gosto muito, chamado Lars e a Garota Ideal (Lars and The Real Girl), lançado em 2007.

https://youtu.be/0r1TcmwxKZE

De modo geral, a trama trata de um personagem extremamente doce, mas bastante tímido e com sérios problemas nos relacionamentos travados com absolutamente todas as pessoas(-humanas) dispostas ao seu redor.

Os traumas de Lars são tamanhos ao ponto de ele sentir intensas dores e desconfortos mesmo ao mais leve contato físico por entes que lhe são próximos, como seu irmão e sua cunhada. Por isso, o protagonista da trama é emocionalmente isolado e vive em um mundo próprio: mora na garagem da casa que outrora foi de seus pais, raramente fala com alguém e evita cruzar olhares nos poucos ambientes pelos quais circula.

A vida de Lars, contudo, muda radicalmente quando ele passa a se relacionar com uma “boneca inflável”, que chega à sua casa após ser encomendada e em quem o personagem projeta seus ideais de mulher perfeita. Ao contrário do que se poderia imaginar de início, nessa imagem, Bianca, sua namorada “artificial”, se apresenta como uma garota brasileira, extremamente católica e afeita à caridade, e que, ademais, depende de uma cadeira de rodas para se locomover. Muito longe, portanto, de um manequim erótico — suas orientações religiosas impedem-na, inclusive, de fazer sexo antes de um eventual casamento.

Desde o início do curioso romance, Lars passa, cada vez mais, a se integrar à família e à comunidade em que vive, já que, por orientação de sua terapeuta aos familiares, não há outra saída senão a aceitação de sua fantasia para que, um dia, ele possa se curar. E, assim, ambos, pessoa-humana e boneca — sempre assistidos pelos membros da cidadezinha em que vivem — , constroem aos poucos uma rotina efervescente, repleta de compromissos sociais: jantares, passeios, cultos na igreja local etc.

É pela eclosão de seu distúrbio mental que, finalmente, Lars adquire vida normal: o que, por si só, faria do filme — a despeito do suposto non-sense — riquíssimo para uma série de reflexões, por exemplo, sobre “desvio” e “doenças mentais”.


Quando visto à luz do primeiro vídeo — aquele da fabricação, em série, das “bonecas infláveis” — , no entanto, o filme— que se pode conceber erroneamente como ingênuo — parece ainda mais potente.

Se as ficções são mitos — apesar de os mitos não serem ficcionais —, e se esse tipo de narrativa não é, de modo algum, espelho ideológico, distorcido, de um plano “real”, mas, antes, um dispositivo de ação, Lars pode ser um “pequeno” alento — no sentido deleuziano de “menor”, mas também em referência ao corriqueiro, ao banal — para toda uma antropologia contemporânea, que muito se vale das discussões feministas.

Afinal, ali —apesar do ideal de humanidade ainda ser o nosso — , não há tanto a objetificação do humano, mas, em algum grau, a humanização do plástico; e é exatamente a partir desse recurso que as relações do personagem são… plasticizadas!

Lars ganha plena maleabilidade — ou se torna um ser efetivamente social — desde o momento em que é capaz de, na contramão do mundo, atualizar a aliança — que não deixa de ser um índice clássico de humanidade — para com outras formas de vida que não a sua própria. E, com isso, ele nos ensina a riqueza da subversão intelectual de se promover o humano, não como substância — que exclui todos aqueles que não a contêm — , mas aos moldes de uma espécie de perspectiva que tudo pode percorrer — até mesmo quando passa pela artificialidade paradigmática do plástico.

Em termos próximos aos de Paul Beatriz Preciado, se aquele feminismo que a todos os seres interessa depende desse tipo de humanismo — um animalismo igualitário — , Lars passa de idiota desajustado a referência intelectual. Entretanto, para compreendê-lo como homem — na mais ampla ou restrita das acepções — é necessário, tanto quanto possível , fazer-se mulher — como em todo “devir”.


“Pensar como” Lars, que “pensa como” “mulher”, e sem deixar de ser “homem”, nos permite sermos mais do que as “bonecas infláveis” dos pensamentos dominantes.

Que todos os dias uma Bianca diferente chegue, então, às portas de nossas casas, para que as ideias sejam continuamente pervertidas.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.