Posicionamento sem julgamento

A polarização de ideias, encontrada sob os epítetos de “esquerda” e “direita” está presente na sociedade principalmente nas universidades e redes sociais, causando grande animosidade entre os participantes dos debates. Grande parte da motivação para debater surgiu devido à atual crise política e econômica brasileira.

Essa divergência vem do pensamento econômico clássico. A visão “direitista” remete a Adam Smith, que defende o livre mercado e a livre concorrência como a melhor forma do bem-estar geral, o chamado “Liberalismo”. A visão “esquerdista” remete a Karl Marx e Friedrich Engels, em que o capitalismo contem diversas falhas e a solução é manter as decisões econômicas no Estado, caracterizando um modelo centralizado (ou planificado) que realiza todo o planejamento da nação, o chamado Socialismo.

As ideias socialistas estão presentes nas escolas, universidades e livrarias, enquanto as ideias do liberalismo resumem-se a Adam Smith e sua obra magna “A Riqueza das Nações”. Pouco se fala sobre a Escola de Chicago, tendo como seu principal representante o ganhador do prêmio Nobel Milton Friedman. Nada se fala da Escola Austríaca, tendo como principais nomes Ludwig Von Mises e o também ganhador do prêmio Nobel Friedrich Hayek (que era socialista). Menos ainda sobre Anarcocapitalismo, com principais influências a própria escola austríaca, Hans-Hermann Hoppe e Murray Rothbard.

Felizmente, nas redes sociais essas correntes de pensamento têm total liberdade e espaço para serem debatidas. Há muitas divergências entre os debatedores e até agressões verbais. Contudo, quantas dessas pessoas realmente leram as obras dos pensadores? Quantos deles realmente leram Marx, Engels, Adam Smith, Ludwig Von Mises, Hayek e fizeram uma crítica comparativas de suas ideias?

Thomas Sowell, em seu livro “Intelectuais e Sociedade”, alerta justamente para o fato de ideias serem aceitas prontamente como verdade pela sociedade sem passar por uma sincera análise crítica e racional do público. Os conceitos de pensadores são repassados por pessoas terceiras, vistos por muitos como autoridade e por isso são rapidamente aprovadas e replicadas, representando por diversas vezes desvios dos conceitos originalmente propostos.

Ao observar a conclusão do livro I de A Riqueza das Nações de Smith, pode-se observar palavras como “opressão” e “classe”, sendo usadas antes mesmo do nascimento de Marx. Neste ponto do livro, Smith reprova que a responsabilidade da criação de leis seja feita por comerciantes e donos de manufatura. Ele argumenta que essa classe não é confiável, pois suas decisões oprimem o público. Este trecho lido livremente seria classificado imediatamente como marxista, porém vem do criador do Liberalismo. Outro ponto que poucos se atentam nas discussões nas redes sociais é que a teoria do valor-trabalho, atribuída principalmente a Marx e criticada posteriormente por Carl Menger, está presente primeiramente em Adam Smith.

A melhor forma de saber o que se está dizendo e defender os ideais no qual se acredita é estudando aa obras originais dos autores e realizando uma análise com base no próprio julgamento. Se a velha máxima “não confie em estranho” é realmente verdadeira, ela se mostra importante agora ao confiar cegamente no julgamento dos outros.