O papel do jornal e o jornal de papel (*)

Vivemos uma transição difícil dentro da indústria da comunicação. O jornal, como o conhecemos, se depara com um dilema que é ao mesmo tempo um risco e uma oportunidade.

Risco porque seu modelo de negócios enfrenta um desafio estrutural, a plataforma impressa com suas peculiaridades se vê confrontada pela comodidade e velocidade da plataforma digital; e uma oportunidade porque as novas plataformas digitais necessitam de um valor que o jornal possui em seu DNA, a informação de qualidade e a credibilidade de sua marca.

Os jornais são uma indústria conservadora com grande dificuldade em enfrentar mudança nas diretrizes de seu negócio. Acredita que sabe o que o leitor quer e imagina estar entregando aquilo que ele busca. Entretanto este leitor se vê seduzido e encantado pela tecnologia que lhe abre portas nunca antes imaginadas seja no acesso a informação seja na forma como interage e consome esta informação.

Se antes ele era um ente passivo na relação com os meios de comunicação, recebendo a informação e sendo impactado sem poder se manifestar ou reagir, hoje ele tem o poder de interagir com a informação, manifestar-se, posicionar-se e intervir alterando-a ou complementando-a de acordo com suas convicções e valores. Isto tudo num ambiente que lhe oferece a oportunidade de usar múltiplas ferramentas e linguagens diferentes como texto, imagem, áudio e vídeo simultaneamente.

A rede mundial permite que, além de acessar, cada leitor produza sua própria informação e lhe dá instrumentos para veicular esta informação com qualquer tipo de linguagem, por múltiplos meios alcançando audiências incríveis. Exemplos como o do rapper sul-coreano Psy, que em 2012 produziu e veiculou seu clip Gangnam Style no YouTube hoje com mais de 2,6 bilhões de visualizações, ou o do grupo brasileiro Galo Frito, que em 2013 emplacou em poucos dias um webhit com mais de 8 milhões de vizualizações, hoje 36 milhões, cujo conteúdo, uma paródia da música “Diamonds”, da Rihanna, com criticas aos serviços de uma operadora de telefonia móvel celular, um benchmarking com riscos para marcas e reputações, tornaram-se comuns.

Como o jornal no seu formato atual conseguirá competir neste universo tão dinâmico, criativo, veloz e multiplataforma? Simples, fazendo o que sabe fazer. Produzir informação exclusiva e de qualidade. Informação relevante para que o leitor se localize no seu contexto político, social, cultural, econômico e importante para que consiga ajudá-lo nos seus problemas cotidianos. Uma informação com análise, reflexão, opinião que dê a ele uma visão crítica sobre seus desdobramentos no seu mundo particular. Oferecer isto principalmente na versão digital, e, cobrar um valor na versão digital tanto quanto cobra na versão impressa.

Ao mesmo tempo em que a internet abre um imenso universo de informação gratuita para o cidadão comum também exige dele uma grande capacidade para analisar e interpretar os ambientes por onde trafega e preparo e perspicácia para determinar o que é ou não seguro e confiável. Quando uma informação, no ambiente digital, vem chancelada pela marca de um jornal de prestígio, sério e respeitável, isto dá segurança e confiança ao leitor em sua experiência digital. Esta segurança agregada à prestação de serviços é um valor em si mesmo.

O grande desafio para o jornal nesta época de revolução digital é transformar em valor esta experiência digital e manter a rentabilidade em sua plataforma impressa.

José Tadeu Gobbi é publicitário

(*)Artigo atualizado a partir do original veiculado em maio de 2013 no Observatório da Imprensa.

Imagem: Internet