2.

[texto intervenção na performance do amigo Luciano de Mesquita Faccini e Luana Navarro]

aonde vamos com o que fazemos? minha amiga, você escreveu para 13 companheiras. todas puderam olhar de fora como eu olho, chegando depois? carta tardia. faço muitas coisas, mas a que mais gosto é fazer nada, cuspir na cara da pressa, do prazo e comungar com a providência (nem sempre dá certo). 13 é um número carregado de sentido, você fez isso a propósito de flertar com a morte? 13 é recomeço e é término, por isso a morte. li ontem: este é um problema para quem vê nela um. bonito, não? posso ser o 14, que é coisa alguma de importante na simbologia dos números (pelo pouco que li), mas veja, olho todas de longe. de onde eu vim há uma referência famosa: “os imponderáveis da vida”. não te entendo, portanto. querer saber para onde se vai não tem uma premissa de controle? uma esperança de, ao menos?

nunca consegui ligar um fazer qualquer com a chegada desejada, ou uma chegada desejada com o fazer intrínseco e inequívoco desta. minha dúvida: foi por incapacidade ou impossibilidade? tendo para os imponderáveis.

a vida me mostrou com violência bruta como isso pode funcionar. Atenção todas: continue se quiserem e se puderem, porque não quero acionar os vórtices que com muito custo contemos em nós. só sei responder perguntando, o que fazemos quando se vai para onde nunca se quis e mesmo assim tudo continua sua marcha imponderável?

Relato [1] instruções para os que não entenderam que “não é não”

Há violências que te furtam tão silenciosamente, roendo o dito corpo seu, que no momento em que você se dá conta aonde foi parar com o que fizeram de você o susto é um misto de culpa e ódio.

Contudo, pausa, você se importa quando te respondo retorcendo a pergunta e me indago sobre o que faço quando cheguei ao indesejado via o feito de outro? Por dias essa tem sido a minha questão, para onde eu vou com esse corpo com presenças ausentes, o que faço delas? Carrego, arranjo uma prótese, fico fingindo partes fantasmas de mim? Um momento: tem alguém aí que pergunta “tudo bem com você?” e odeia quando respondem “não”? Retirem-se. Vou chacoalhar presenças ausentes que acordam as outras presenças ausentes como um cachorro que uiva e suscita em outro o uivo, que suscita em outro o uivo, que suscita em outro o uivo, que suscita em outro o uivo… são muitos “não” para um “tudo bem” compulsório, tudo bem?

Há violências que te furtam, há violências que te roubam. Um dia um homem da família de meu pai me encostou na parede e quis me beijar. Eu disse não. Ele disse: esse “não” está cheio de “sim”. Só porque eu aceitei ir até a loja de doces ganhar balas de iogurte. Sua boca sugou-me o grito por anos. A presença da ausência do meu grito quase me furta a vida.

Há violências que te furtam, que te roubam, por favor, não faça escalas entre pior e o “menos pior”. Para onde eu vou com esse fazer grito que te respondo? Possibilidade [1]: quando a gente faz não é só a gente que vai para algum lugar. [2] não escolhi a partida e a chegada é algo de nebuloso e estranho e extrínseco [3] aquilo que eu ainda não vi mas você vê [4] não é não.

Minha querida, não sei se vou a algum lugar sem saber responder objetivamente, mas obrigada por perguntar.