29 de agosto

eram duas diante do sol do meio da tarde. sentadas diante do sol, à espera diante do sol no meio da paulista entre muitas pessoas e carros e prédios. não tem fogo pro cigarro, não tem internet pro celular e parecia que seriam para sempre apenas duas. eram duas que tinham certeza que ao menos mais duas viriam. a partir daí é tudo incerto e qualquer sapatão é uma possibilidade de somarem naquele sol do meio da tarde na paulista de são paulo.

diante do sol o tempo lento e dilatado. a calçada seca o cheiro de mijo o cigarro sem brasa esperando alguém com fogo. sapatonas com seus gritos e um brejo imenso para cobrir essa avenida longilínea e com edifícios garras que parecem sobrevoar nossas cabeças para qualquer momento desferir o golpe.

me disseram para andar sempre a espreita em são paulo. me disseram para não levá-la tão a sério.

sapatonas ervas daninha rachando o chão dessa cidade boca morta exposta diante do sol onde todo mundo se vira como pode para transformar a matéria em algo menos morte cinza pó concreto. eram duas, eram cinco, eram sete, eram cem, eram duzentas ou quatrocentas. o tempo começou a acelerar conforme o sol baixava e as ervas daninha multiplicavam-se ao chamado em jogral de umas para as outras. era burburio de cigarra que vem com a chuva. naquele epicentro do mundo era possível sentir que sob o asfalto e o concreto do miolo violento e quente da terra sapatonas emergiam como ervas daninha para engolir a todos, mastigar as normas e cuspir novas possibilidades molhadas de suas salivas. cada sapatona contém em si infinitudes de caminhos de resistência e possibilidades. é preciso dar um jeito minhas amigas.

a imensidão da avenida que organiza a todos dentro dos seus moldes estéreis vai parar. cada passo que acompanha os gritos que acompanham as palmas, por quanto tempo a gente guarda o urro com medo de ensurdecer a platéia?, uma catarse uma corrente elétrica uma angústia antiga um orgulho. o ódio a vocês. o amor próprio o amor entre nós. uma lésbica nunca é só uma, um casal de lésbicas não se trata de um amor apenas sexual entre elas. a nossa existência e nosso afeto é uma liturgia de resiliência ao mundo dos homens. a nossa existência e nosso afeto é a criação em carne e símbolo que há possibilidade de amor respeito admiração para mulheres. um ato da visibilidade lésbica nunca será apenas mais um protesto pois as mulheres que ali se reúnem estão completamente críticas a economia de serviço aos homens. a erva daninha planta inesperada indesejada contestatória e catastrófica para a cidade enfadonha dos homens. plantas imemoriais, antes das leis e religiões, guardamos cada uma de nós na nossa seiva bruta que compartilhamos entre nós através do nosso afeto. sapatão. o nosso grito chama a todas que morreram violentamente para podermos comungar o ódio combativo, organizado e crescente para amalgamar essas memórias, cada rosto e cada nome das nossas, tornando nítida e inequívoca a figura do inimigo. os olhos crus e apodrecidos da cidade não resistirão.

(me perdoem a rima ruim, mas)

esse não é apenas menos um dia,

um salve às sapatão.

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