Feita de lembranças

É tão engraçado a forma como tenho lidado ultimamente com minhas emoções, sentimentos e lembranças. E a internet — facebook — tem feito eu lembrar das mais remotas saudades, e de um passado recente. Abri meu facebook ontem, e há 2 anos postei uma música da Death Cab For Cutie chamada Brothers On A Hotel Bed. Ela não significa nada, é só uma música que eu gosto, acho a baladinha muito boa, pensei “Bah! Faz muito tempo que não ouço”. Apertei o play.

Estava indo para Três Passos(RS), uma viagem de mais ou menos 8 horas — costumo viajar à noite — e no meu celular tocava o CD Plans, num looping infinito, sou daquelas que ouve mil vezes a mesma música/cd. E nessas horas eu ficava pensando o que estava indo fazer naquela cidade, pensava no quão forte minha mãe estava sendo, no quão guerreiro meu pai estava sendo.

Meu pai, 49 anos, funcionário público. Diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).

Essa doença é porreta. Veio e levou meu pai em menos de 1 ano.

Ela se manifestou com umas tonturas, meu pai achou que fosse labirintite. Começou a tratar. Em seguida, ele começou a esquecer das coisas, formigamentos nas extremidades do corpo, às vezes deixava o garfo cair da mão… Nos preocupamos. Minha mãe começou a levá-lo para todos os médicos possíveis, pois tudo aquilo não era normal. Então o diagnóstico.

Não sabíamos o que era a doença e como ela progredia. Foi tudo muito rápido, em menos de 1 ano meu pai deixou de andar, falar, comer, de nos reconhecer. Foram inúmeras internações, até que um dia ele foi pra UTI com três paradas cardíacas, eu pensei que daria adeus para ele naquela noite — até hoje ouço a sirene da ambulância no meu subconsciente — , minha mãe firme, forte, pelo menos tentava ser. Ficou três meses em coma induzido, três meses em que eu fazia essa viagem todos os meses. Teve várias complicações, em função de tanto tempo na UTI. Deu alta, voltou para o hospital de Tenente Portela, ficou um mês estável. Até que em uma terça-feira minha mãe me liga, dizendo que queria que eu fosse para Portela. Na mesma hora comprei a minha passagem. Mais 9 horas de viagem. Mais uma vez eu ouvi Plans no modo infinito. Cheguei na quarta-feira, passei o dia e a noite cuidando do meu pai no hospital. Na quinta, depois do almoço, voltamos para o quarto dele e minha mãe disse para meu pai “agora nós três vamos descansar” — coisa que quando morava com eles fazíamos, depois do almoço nós três íamos dar aquela dormidinha.

E então, ele se foi. Tranquilo, sem sofrimento.

Perdi meu pai, mas eu sei que ele está aí, no céu, nas nuvens, na chuva que cai, nas flores, nos raios de sol, no meu coração.

Doeu e dói até hoje.

Mas eu sei que minha MÃE fez o que podia, e estávamos junto com ele em todos os momentos.

Essa música fez eu relembrar tudo, mas não fico triste. O que me conforta é que ele está cuidando de nós, seja lá onde estiver. Consigo ouvi-lá e pensar nele, e no quanto eu queria que ele ainda estivesse conosco.

Te amo, pai ❤

Mãe, te amo ❤

A ELA — Esclerose Lateral Amiotrófica

É considerada uma doença degenerativa do sistema nervoso, que acarreta paralisia motora progressiva, irreversível, de maneira limitante, sendo uma das mais temidas doenças conhecidas.

A ELA se caracteriza por paralisia progressiva marcada por sinais de comprometimento do NMS (clônus e sinal de Babinski) e do NMI (atrofia e fasciculações). É a forma mais comum das doenças do neurônio motor e, por isso, freqüentemente, o termo ELA é utilizado indistintamente para as outras formas de DNM. O envolvimento predominante é o da musculatura dos membros (membros superiores mais que os inferiores), seguindo-se comprometimento bulbar, geralmente de caráter assimétrico. Muitas vezes, precedendo ou seguindo-se a instalação dos sintomas os pacientes queixam-se de cãibras.

Fraqueza, atrofia e fasciculações nos membros são os sinais clínicos mais proeminentes. Mais tarde, são afetadas as funções vocais e respiratórias. Os nervos cranianos, que controlam a visão e os movimentos oculares, e os segmentos sacros inferiores da medula espinhal, que controlam os esfíncteres, não são usualmente afetados.

Fonte: Abrela

Mais informações sobre a doença no site http://www.abrela.org.br/

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