Chá de Memórias


Não costumo beber muito café, então resolvi tomar um chá. Abri o armário e me deparei com um chá de melissa e flor de laranjeira. Na hora pensei “bah! Deve ser muito bom.” Peguei a maior xícara que tinha, esquentei a água por uns 2 minutos, coloquei o sachê, e na primeira inalada do vapor do chá, viajei longe, quinze anos atrás.

Voltei lá para Tenente Portela, interior do estado (onde morei por 18 anos), para a casa dos meus pais. Era uma casa simples, com um pátio pequeno, muro baixo e um portão de ferro. Lembro que a cor da casa era azul com as aberturas em marrom, acho que naquela época essa era a cor da moda, porque todas as casas eram pintadas assim. No pátio, tinham minhas árvores preferidas, atrás da casa o pé de guavirova (ou guabiroba) e do lado direito um pé de manga e outro de laranjinha do céu.

Eu sou filha única, e na minha rua só tinham piás. As vezes, minha mãe deixava eu brincar com eles, e quando não deixava eu tinha que dar um jeito de passar o dia. E então, imaginava. No pé de guavirova, eu tinha uma casinha; com fogãozinho, panelinhas e barro. Amava fazer bolinhos de barro, enrolava como se fossem negrinhos e salpicava terra mais grossa fazendo de conta que eram os granulados. Ali, embaixo daquela árvore eu passava o dia brincando com as bonecas (que aliás, eram todas riscadas e cabelos cortados. Isso explica as tatuagens de hoje e os cortes de cabelo malucos). Quando era época da fruta, comia feito louca, posso até sentir o gosto na minha boca. Eram pequenas e alaranjadas, com um sabor indescritível. A mãe fazia visitas na minha casinha, e eu oferecia guavirova como docinho. Nunca mais comi essa fruta, tenho medo de não comê-la novamente.

A mangueira. Ela era alta, cheia de galhos robustos. Não dava mais frutas, a mãe dizia que ela já estava “pestiada”. Lá em cima, eu tinha outra casinha na árvore, mas não era como as que apareciam na tv, com assoalho de madeira e toda aquela frescura. A casinha na árvore acontecia na minha imaginação. Lembro de ficar de um galho pro outro, como se estivesse trocando de cômodos, falava sozinha, ria sozinha. Meu pai sempre me alertava “cuidado com as taturanas!”, eu morria de medo, mas nunca deixei de brincar por causa delas. Vivia com os joelhos, mãos e cotovelos esfolados, porque as vezes escorregava e a mãe colocava aquele merthiolate, que ardia um monte. Lá do alto, observava toda a movimentação da rua e da minha casa. Ficava lá até anoitecer, até minha mãe me chamar para o banho.

O pé de laranjinha do céu, era pequeno, lembro que eu era da altura dele. Lá não tinha nenhuma casinha. Eu tinha pensamentos, nem sei de quê, pra dizer a verdade. Eu apenas sentava embaixo dela e ficava olhando pra rua. Quando ela florescia, passava quase que todo meu tempo ali, cheirando e olhando para aquelas pequenas flores. Ficava olhando de baixo pra cima, e via as flores, as folhas bem verdes e o céu azul. Talvez nessa época surgiu a minha paixão pelo céu e pelas copas de árvores. Até hoje fico viajando quando olho para o céu nessa perspectiva; copas de árvores e céu.

Se tem um cheiro que me faz sentir um frio na barriga de felicidade e nostalgia, esse cheiro é flor de laranjeira. Ele trás minha infância, meus pais, minha casa no interior, minhas tardes sozinhas brincando.

Essas eram as minhas árvores. Hoje, quando volto para a casa da minha mãe, não encontro nenhuma. Todas se foram, assim como a minha infância.

E agora, vou tomar outro chá. Pra poder lembrar daquela época, pra poder sentir o frio na barriga.

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