A volta sem maestria da Rory Gilmore e alguns incômodos da nossa geração

O texto a seguir contém spoilers.

Eu pensei em escrever muitas coisas sobre Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar. Mas o principal é como a Rory apareceu para nós nesse revival. Voltando à sétima temporada da série clássica, ela tinha acabado de ser rejeitada pelo New York Times e conseguido uma oportunidade de compor a equipe de imprensa do então candidato a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama. Ela recusa também o pedido de casamento do Logan, porque além de claramente não se sentir pronta pra isso, estava se formando, o mundo profissional estava ali pra ela, então não fazia sentido casar naquele momento. (Algo que eu aceitei perfeitamente, mesmo sendo Team Logan na época).

Pela forma que as coisas terminam na sétima temporada, que Rory a maioria pretendeu encontrar no revival?Alguém pelo menos bem sucedida, nos moldes das nossas expectativas geralmente inalcançáveis. Isso mesmo. Mesmo a série dando indícios o tempo todo que estava abordando a realidade, nada mais que ela, queríamos um happy end. E se mesmo a realidade de alguém com tantos privilégios como a Rory não se mostrou linear, é porque nenhuma é.

Primeiramente falando sobre a sua dimensão profissional, alguns pontos precisam ser analisados. Mesmo sendo uma ótima aluna em Chilton, em Yale, se destacando sempre, a Rory esqueceu de desenvolver algo muito importante: se a parte acadêmica ia bem, a parte prática da profissão ficou em último plano. Por isso que as críticas ainda na série clássica do Mitchum Huntzberger, pai do Logan e que trabalhava há anos no ramo que ela tanto almejava, mexeram com ela a ponto de fazê-la desistir da universidade por um tempo e questionar todo o seu futuro. Depois ela volta e retoma a conquista do sonho, mas algo parece ter sido perdido ali. E o revival nos confirmou isso.

Isso na verdade é comum na vida de todos. A Rory, sempre protegida pela mãe, pelos avós, e pelos amigos de Stars Hollow, acreditou que era realmente alguém especial e diferente dos outros. E o caso aqui não se trata de dizer que ela não era. Rory é esforçada, inteligente, talentosa, mas ela parece só realmente se esforçar para as coisas que ela acredita que a farão continuar sendo especial. Por isso que no revival ela torce o nariz pro convite do Mrs. Charleston para lecionar em Chilton, e também para o dosite SandeeSays — e esse último de uma forma tão tosca que ela, ao decidir dar uma chance a essa oportunidade, nem se prepara realmente para a entrevista. Porque nada parece ser especial o suficiente para Rory e ela não admite desvios de percurso — que seria, nesse caso, trabalhar em algo que não imaginou de início, adquirir prestígio, e daí ou encontrar algo que queira mais ou mesmo já ter se adaptado ao que achava que não tinha nada a ver. De certa forma, aquela previsibilidade que deu a ela também a certeza de ser uma boa aluna também a limitou a não buscar novas coisas além do seu plano inicial. No meio de tanto aprendizado, ela esqueceu do principal para a vida: o de ser flexível.

E isso nos incomoda porque em certa medida, nos vemos ali, saindo da casa dos 20 ou até mesmo aos 30 e poucos sem algo bem definido na profissão, seja por causa do mercado saturado ou por falta de adaptação à área escolhida, ou até mesmo por percebermos que não conseguimos tão bem nos adaptar ao que antes parecia ser a profissão perfeita pra nós. A gente muda, as crises chegam e nem sempre é tão agradável se deparar com a certeza de que, apesar de tudo que já aprendemos, estamos todos meio perdidos, no meio de pequenas exceções mais bem sucedidas (e às vezes até mesmo mais jovens) do que nós. Olá, Paris.

E sobre a vida amorosa… Rory teve namorados que lhe ensinaram coisas específicas em momentos bem diferentes na sua vida. Namorou o Dean quando ainda estavam na época da escola e ele foi atencioso, romântico e se dava bem com a sua mãe, o que de certa forma contava pontos. Era um primeiro namoro bacana e ela precisava viver isso, e o viveu durante uns dois anos. Depois, surge o Jess e ela experimenta o extremo oposto do que tinha com o Dean: a paixão pela figura do bad boy, a imprevisibilidade, o tédio do Jess com as coisas “normais” (o que se tornava por vezes chato, pois ele parecia se sentir superior diante das atividades da cidade, por exemplo, e acabava não sendo muito companheiro da Rory, que vivia tudo isso). E já no período da faculdade tem o Logan, menino lindo e rico, porém inicialmente meio avesso à ideia de um relacionamento sério, mas que com o tempo, mudou (ou tentou se moldar) o suficiente para que o relacionamento com a Rory desse certo. E tem o Paul, de quem ninguém lembra, fazer o que (risos). E o Logan novamente, alguns anos depois, comprometido e tendo a Rory como amante. Não exatamente o que esperávamos, também. Foi aí que o meu Team Logan morreu.

Aí vem a patrulha novamente “Ah, e mais uma vez a Rory fica com homem casado”, “Rory continua escrota.” ou ainda “Ah, já vai destruir outro relacionamento” porque no caso que ela teve com o Dean lá pela metade da série clássica foi culpa só dela né? Certo. Não podemos dizer que essas atitudes da Rory estão corretas — mas também não podemos deixar de dizer que ela não viveu essas situações sozinha, e muitas vezes só vemos o nome dela na roda, porque é mulher, não é? E a mulher é sempre mais culpada. A gente perde muito gastando os juízos de valor de sempre para situações que são reais e que servem mais para analisar o progresso e o retrocesso dos personagens, e o nosso próprio. Eles são humanos, oras! E por isso mesmo, fazem muita bosta. E também podem insistir no erro, até se darem conta. E a Rory se dá conta que tem que sair dessa realidade, no momento certo para ela, depois de se humilhar bastante.

E isso é tão incômodo porque não é incomum ver as pessoas aceitando migalhas. E não se afaste, em algum momento, você já deve ter aceitado migalhas em algum relacionamento também. Infelizmente não é tão fácil perceber que a pessoa que a gente ama nem sempre quer e precisa estar conosco, que tanto faz. Que é cômodo estar, às vezes, mas que não parece ser algo além, algo pelo qual vale a pena lutar. E é aí que a história da Rory com o Logan se torna um pouco a nossa. Principalmente quando ela diz que “Então é isso, nós vamos terminar. Mas não podemos terminar, porque não temos nada”. E jogar isso na nossa própria cara diante de alguns relacionamentos é duro, porém necessário. Faz parte de todo o processo de amadurecimento. A Rory teve do namorado mais romântico ao caso mais errado. Teve atitudes das mais louváveis às mais absurdas. Erros e acertos dos mais variados, e isso é ser humano. E é pela verdade que tais situações carregam que incomoda tanto.

A Rory incomodou tanto nesse revival por isso: em vez de trazerem uma personagem que fosse sempre agradável como era aos 16, nos trouxeram uma mulher de 32 lidando com crises emocionais, profissionais, e com escolhas um tanto desencontradas. Alguém que nos faz ter raiva porque expõe exatamente o que por vezes não aceitamos nem na ficção nem na nossa vida: uma história que fuja às nossas expectativas. E a realidade não é mesmo agradável. No fundo somos muitas “Rorys” precisando absurdamente crescer. E nos perdoar pelos erros.

P.S.: Gosta muito de Gilmore Girls e quer conversar mais sobre o revival? Vem ver os vídeos que tô fazendo sobre os episódios (falta o de verão e de outono, mas estará nesse mesmo link quando eu postar)

Também criei uma book tag inspirada nas frases engraçadíssimas da Lorelai Gilmore. Vem ver: