Artigo de segunda (mão):

Há momentos na vida em que tudo fica, de repente, velho
como se a barreira da rotina 
que nos impede de enxergar passar o tempo
(evitando o luto de acontecer a cada segundo morto)
finalmente se estilhaçasse e agora
enxergando
já é tudo extremamente, extremamente velho

I — das relações
que construídas a base de trabalho
(trabalho: a soma multiplicadora de suor e alma)
vão se desfazendo na tragédia do passado
da história a escravidão do homem
que se descortina em tempo real

II — dos amores
me escorrem pelas mãos os amores e
pelas mãos 
tento desesperadamente retomar os fios 
palavras ordens frases apelos, eu grito
e é tudo velho
velho como um sonho de 17 que aos poucos ficou velho

III — da justiça
mesmo o que não acontece fica velho
os amores que esperaram o tempo certo
(desse bolo que o mérito nunca deixou dividir)
e nunca chegaram a relatar verdade da verdade
enquanto a outra verdade que
na verdade não era
foi na frente

Uma pena:
há momento na vida em que tudo fica, sinceramente, velho
uma dor fina e sem tempo
do tempo que já foi
chama honesto (honesta)
das relações, dos amores
à justiça
cujo nome já não diz nada pois não fala na língua
dessa prisão.

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