Diversão onde as minorias não tem vez…

O limite do humor, hiperssexualização do corpo feminino, pessoas tóxicas e a sutileza do preconceito em comunidades gamers.

Em janeiro deste ano, um pai fez um apelo a comunidade do game Overwatch por causa do assédio sofrido pela sua filha de 10 anos, Iris Helena Benfica dos Reis. Ao ouvir palavras ofensivas e desrespeitosas, indignado fez um pedindo para que meninas de sua faixa etária criassem seu próprio grupo evitando assim, o contato com “pessoas tóxicas”. Rapidamente seu pedido viralizou reacendendo a discussão sobre a necessidade de criar comunidades de minorias com o intuito de incluir.

Das piadas sexistas e homofóbicas, hipersexualização feminina à memes racistas e discursos “tóxicos”, constantemente muitos jogadores de games utilizam suas redes e outras plataformas para desabafarem sobre o descaso que tem sofrido durante as partidas de jogos online ou mesmo pela própria comunidade.

QUEM SÃO OS PROTAGONISTAS?

No meio gamer, o protagonista principal da disseminação do preconceito é o “jogador tóxico”. O tóxico é tudo aquilo que é repudiante na propagação dos discursos. É manipulador, é instável e inseguro e tenta incutir a insegurança no outro. É uma forma de se sentir melhor com a sua própria infelicidade. Os tóxicos são controladores, sabem sempre tudo sobre tudo e nunca dão a oportunidade de o outro manifestar a opinião. Suas opiniões sempre vem carregadas de ódio mascarados de humor para discriminar as minorias nas comunidades. Isso vem atraindo uma vasta quantidade de seguidores que abraçam o “entretenimento” tóxico em troca de respeito.

“Já fui discriminada em alguns jogos. Os homens não gostam de jogar com mulheres, nos subestimam e logo dizem que não sabemos jogar. Quando acontece alguma coisa ruim na partida somos culpadas e logo começam os xingamentos”, conta a jogadora de Overwatch, Paloma Freitas, que estuda Jornalismo na Unijorge

“Eu jogo praticamente todos os dias. No LOL (League of Legends), já vi casos de racismo no chat da partida. Mulheres sendo subestimadas e humilhadas com aquelas brincadeiras de ‘e a louça, já lavou?’. E a homossexualidade também é usada como forma de xingamento”, continua.

­Mulheres também têm lutado contra o machismo intrínseco nas representações de figuras femininas nos jogos e o assédio frequente que tem ocorrido durante as partidas. É o que conta também a jogadora de Overwatch, Juliana Felix: “Passei por algumas situações de discriminação. Só não passei por mais porque uso nick masculino justamente para evitar. Fora as situações de assédio quando descobrem que você é menina”, que joga desde os 7 anos.

Sexualização excessiva de personagens é um dos problemas na caracterização. Foto: Warner Bros/Divulgação

Integrante da comunidade “Overwatch — Brasil” há 10 meses, apesar do pouco tempo, Juliana acredita que esse preconceito vem devido a essas “coisas nerds” que sempre foram consideradas masculinas. Mesmo se houvessem meninas na área, não haveria tanto espaço ou visibilidade. Apesar da melhora, ainda há muito o que conquistar.

E ainda reforça a crítica sobre meninas que ultimamente tem se isolado para jogar só com outras meninas. “Já vi uma menina sendo chamada de prostituta e que ela deveria ser estuprada. Isso só no jogo. Ainda tem a situação de que a mulher até pode jogar, mas só de suporte. Jogar com outras meninas é um escape pra isso”, diz a jogadora.

Ela também traz uma reflexão sobre a falta de mulheres no mercado dos games. “A comunidade nerd é extremamente machista e preconceituosa. Por mais que ganhemos espaços, sempre vemos homens e mais homens nas grandes competições de jogos”.

Em outra comunidade gamer, encontra-se a jogadora de League of Legends há 6 anos e estudante de Ciências Biológicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Anna Beatriz. Ela explica que o machismo é um “clássico” na comunidade, onde a mulher não tem a oportunidade de falar, e quando comete um erro, as expressões mais famosas utilizadas para ofender são: “Volta pra suporte!” ou “Vai lavar a louça!”.

“Antigamente, eu utilizava um nick masculino e sempre me tratavam como se eu fosse integrante da equipe. Quando passei a utilizar nick feminino, eu ouvia ofensas diariamente como: portadora de aids, nojenta, escória, etc”, diz.

Entre jargões e memes, o preconceito racial também se faz presente. Ailton Santos, jogador de League of Legends há 2 anos conta como foi vítima de injúria racial na comunidade LOL. “Uma das vezes foi um amigo de um colega meu, começou a falar que preto é isso, preto é aquilo, me chamou de macaco, perguntou se eu queria banana. E no final, ficou dizendo que era só uma brincadeira sem maldade”.

Em sua visão, a maioria dos jogadores de diversas comunidades tentam ser engraçados com “brincadeiras” sejam elas, racistas, homofóbicas ou pornográficas. Isso afeta a minoria, porque mesmo se recusando a participar da “brincadeira”, muitos acabam sendo podados e reprimidos por quase todos no meio, ou mesmo se for contra o assunto da vez.

Há 10 anos jogando online, o jogador explica que já existe um meio de punir essas pessoas com assuntos ofensivos, mas quase não é efetivo, pois as pessoas nunca aprendem de verdade. É banido do jogo, mas o preconceito permanece. “Deveriam dar mais atenção a essa questão e ser mais severo com a fiscalização. Claro, com a ajuda de todos jogadores que devem denunciar esses ocorridos”, conta.

REPRESENTATIVIDADE, UMA NECESSIDADE…
Os casos de homofobia, racismo, machismo e xenofobia são os ataques mais recorrentes por muitos membros das comunidades de games. Mas, por que a classe mais atingidas são as minorias? 18 milhões de jogadores que não se sentem representados por não possuírem a mesma orientação sexual que a maioria da sociedade. 6,2% de possíveis jogadores de uma população de mais de 204 milhões de brasileiros que sofrem com a falta de acessibilidade aos jogos nas mais diversas plataformas. Segundo a Women in Games International, organização norte-americana que advoga a inclusão e o progresso das mulheres na indústria de jogos, há apenas algo entre 12% e 18% de mulheres entre os desenvolvedores de jogos, o que pode ajudar a explicar a predileção por protagonistas do sexo masculino.

A SUTILEZA DO CONTRASTE

O legal é ser engraçado, o descolado é mostrar que em tudo há graça. Mas será que há limites? O contraste da vez é: “Não seja chato, leve na brincadeira”. É impressionante e assustador que para conquistar tantos inimigos nessas comunidades, seja necessário apenas ser contra o preconceito. Mas o que se mostra na frente da tela, é outra pessoa fora dela… basta apenas um click e toda destilação de ódio gratuito é depositada nas resenha de grupos.

A estudante de Direito na FMU em São Paulo e jogadora de Counter Strike, Daiane Silva, diz: “Eu vejo da seguinte forma, é realmente um ambiente em que os jogadores tentam te atingir de todas as formas principalmente se você é novo no jogo, como uma forma de repreender, para que a pessoa não volte e não se destaque no jogo”.

“Mas, também tem umas meninas que se prostituem virtualmente mandando ‘nudes’ pra conseguir benefícios nos jogos”, expõe.

Sobre isso, Cleiton Capestatrany, jogador de Point Blank há 4 anos, defende a ideia de que muitas mulheres se aproveitam nos jogos, principalmente no começo que se encontram “fracas”, depois que começam a progredir a ajuda dos homens não é mais necessária.

“Hoje em dia mulher em um jogo, se ela começar a jogar como suporte no GTA V, os caras querem que ela mostre o corpo pra provar se é mulher ou não, e se não mostrar, começam a coloca-la pra baixo. Mas, tem muitas meninas que se ela achar um cara ‘escravoceta’ ela consegue tudo no jogo”, conta ele.

Para o Analista de Sistemas que mora no Rio Grande do Sul, Lucas Ribeiro, “Existe um humor que brinca com estereótipos criados pela sociedade. Sem necessariamente refletir que o emissor pense aquilo”, que joga Priston Tale há 3 anos.

Ele ressalta que esse preconceito não se limita somente a comunidade de jogos online e sim na internet inteira. E utiliza sua experiência como exemplo: “Sou gaúcho e existem muitas piadas em relação a sexualidade de quem é do Sul”.

Em sua opinião, existe o estereótipo juntamente com a imaginação do contraste onde se imagina um homem de modos grosso contrastando com um que gosta de pessoas do mesmo sexo. Esse contraste acaba gerando uma figura caricata, mas isso não significa que exista a crença de que isso seja uma verdade.

Ele conta que muitos homens se passam por mulheres, afim de enganar outros e obterem vantagens. E analisa o fato de haver assédio durante os jogos como sendo uma necessidade de se formar um par hétero para ser uma pessoa realizada, como dita a sociedade. Isso se reflete no jogo, onde existe essa necessidade de se conquistar a mulher. E no jogo como na vida real homens se comportam de forma desrespeitosa.

“Digo isso apenas para definir o que seria preconceito ou não pois hoje em dia tudo é considerado preconceito. Também lembrando que a internet é uma extensão da vida real, porém com uma sensação de impunidade maior”, diz.

É TUDO QUESTÃO DE CONSTRUÇÃO…

O estudante de Análise de Sistemas na Unopar em Alagoas, Otávio Barbosa, e jogador de League of Legends há 3 anos, defende a visão de que tudo isso é uma questão cultural no Brasil. “Em outros países, pelo o que eu já vi, não é assim. A comunidade LOL considera a homossexualidade como uma doença, sendo que é uma coisa normal, sabe? A grande parte dessas pessoas que são homofóbicas, não são nem de maiores…”.

Integrante da comunidade LGBT de LOL, “League of Divas”, para ele, o humor acaba sendo uma desculpa para o preconceito disfarçado de sarcasmo e conta sua experiência. “Eu já fui vítima disso e grande parte dos meus amigos também, é algo que acontece diariamente, preconceito com gays, mulheres, negros e nordestinos, isso é algo triste de ver, pois homofobia em pleno 2017 com tanta informação e ainda levar como doença, sabe?…”.

“Sinto medo de repressão ao me assumir. Acho que as empresas dos jogos deveriam ser mais rígidas com a questão da homofobia. Alguns casos são resolvidos, mas outros passam batidos”, desabafa.

Ainda complementa que os casos de homofobia vem diminuindo, mas ainda são números preocupantes, contando que a maioria dos cibercrimes não são solucionados e isso acaba acarretando nessas situações.

A administradora da página, “Convenção das Bruxas Feministas e Destruidoras do Patriarcado”, estudante de Letras na Universidade Federal de Goiás e ativista feminista, Tainá Santos, analisa o pensamento dos jogares em relação as mulheres. Ela explica que uma mulher é sempre dirigida às atividades domésticas, de zelo e servidão. Quando uma mulher joga, ela “invade” um território livre aos homens.

“Eu era muito podada nos jogos por ser menina. Isso contribuiu com o meu medo de competir e jogar. Hoje passo longe disso tudo. Jogos de todo tipo. Por não ter sido incentivada”, diz a ativista, que conta com quase 4 mil seguidores em sua página.

“É comum ser mandada a ir na cozinha, lavar a louça, ter minha habilidade questionada por ser mulher, ser constantemente importunada com questões que nada tem a ver com o jogo. São muitas as formas de fazer uma mulher se sentir para fora do ambiente do jogo”, enfatiza.

O jogo é uma atividade naturalizada aos homens, logo, existirá uma opressão de lugar para ‘corpo’, isto é, sobre a presença de uma mulher nele. E define a opressão de gênero como sendo um dos pilares para o fortalecimento do capitalismo. Divisão de tarefas se dá por isso e a não legitimidade do trabalho da mulher também é um fator.

A estudante ainda destaca que é preciso que uns carreguem os outros para garantir a pirâmide. A mulher carrega os homens, é explorada nessa esfera de obrigação doméstica e produz mão-de-obra meramente “qualificada”, sem liberdade, uma vez que homens precisam trabalhar fora e esse ciclo precisa ser mantido. O ciclo de esferas de macro e micropoderes.

Raique Carvalho, jogador de League of Legends há 5 anos e estudante de Engenharia da Computação na Área 1, traz uma análise aprofundada sobre o humor específico utilizado pela maioria dos gamers. “O humor citado é chamado de humor negro, que é qualificado por utilizar/trazer à tona situações trágicas e que podem parecer para muitos fora desse tema algo extremamente tóxico”.

A utilização desse tipo de humor em jogos online é típica de usuários/gamers que estão dentro do tema, porém não sabem que a situação não deve ser impregnada de uma forma publica sem aviso prévio, sabendo que pode causar desconforto e inconveniência.

“As classes que são determinadas socialmente como ‘minorias’ são os mais afetados pois além do fato do humor negro está sendo utilizado, os usuários tem um nível de racismo alto, o que acaba misturando os 2 temas e criando frases e sentença desconfortáveis e toxicas”, diz Raique, que a cada cinco partidas que joga, uma vem sendo protagonizada por pessoas “tóxicas”.

Diante disso, a importância de existirem minorias no meio gamer, além oferecer uma oportunidade de emprego e crescimento de renda, oferece uma poderosa ferramenta de discussão no combate aos estereótipos e ataques virtuais para o grande avanço na criação de personagens, roteiros e cenários mais representativos.

Por: Tainá Goes