TATTOO FLASH

TAIOM Silva
Feb 25, 2017 · 4 min read

Rápidos. Desenhos prontos para serem tatuados em quem chegar primeiro ou a todos que pagem por ele, não importa quem. São parte fundamental da história da tatuagem moderna pois foi através dessas folhas de desenhos que se espalharam pelo mundo que tatuadores ficavam conhecidos. Fizeram o papel de rede e conectaram pessoas no mundo todo, muito antes de surgirem revistas ou mídias especializadas em tattoo. Eles reuniram a base do imagético relacionado a toda essa cultura e extrapolaram o círculo definido desse universo. Tornaram-se ícones. Quando alguém vê um coração com uma faixa escrito mamãe ou um nome qualquer, seja numa roupa da H&M, pano de prato ou qualquer outra coisa, vai lembrar de tatuagem.

Mas pra mim é complicado. Digo isso do ponto de quem tenta se encaixar nessa história. Entrei na tatuagem entre 2003 e 2004, e o que me brilhava os olhos e o que muitos buscavam eram as tatuagem custom. Desenhadas especificamente para cada cliente e enfatizavam a questão da identidade. Um movimento em resposta a grande popularização da tatuagem entre os anos 70 e 80, onde os flashes fizeram da rosa tribal, do golfinho e da índia do Mordenti ícones de toda uma geração. Repetidos, multiplicados e distorcidos até cansar, até o ponto de não fazer mais o menor sentido.

Naquela época ter um desenho seu, feito pra você, com base na sua ideia, no que VOCÊ quer ter marcado em seu corpo era uma ideia bem estranha ao cliente comum. No balcão do primeiro estúdio que trabalhei ouvi colegas cansarem de explicar aos passantes que tatuagem não se escolhia mais em catálogo e que os artistas estavam dispostos a elaborar um desenho exclusivamente para eles. Decorei as frases de maior efeito e também acreditei nelas. E que fossem cinco borboletas para tatuar no mesmo dia, desenharia cinco vezes buscando modificar algum detalhe. Começava então um dos meus dilemas na profissão: Como fazer uma série de desenho, se a princípio eu não acreditava nessa idéia de um desenho pronto esperando seu dono perfeito? Minha percepção disso se transformou completamente ao logos dos anos, e esse texto é apenas mais uma tentativa de entender essa relação pessoal entre desenho e tatuagem.

A primeira série que fiz tinha temas clássicos, mas o background era bem mais interessante que os desenhos principais. Duas imagens finalizadas, coloridas, pensadas e estruturadas, e um fundo de loucuras tipo de quem rabisca sem porquê enquanto fala no telefone fixo. Depois outra que era como posters, cada um com uma personagem diferente. Não via aquilo como tatuagem, tirando do papel e passando pra pele, era mais pra uma inspiração ou tentativa de exibicionismo técnico. Cheguei até a ganhar prêmios numa convenção anos depois de ter feito essas folhas… que ironia!

Definitivamente aquela não era a minha praia. Fiquei muito mais feliz e empolgado de trabalhar mais alguns anos depois, quando eu e Da Cruz fizemos um evento de tatuagens temáticas. O SKULL DAY era bem simples: cada edição tinha um subtema, como rosas, animais, escrita, e só podia tatuar algo que tivesse pelo menos um dos elementos temáticos. Alguns tatuadores desenhavam dias antes o que queriam fazer, eu na maioria das vezes, sentava lá com as canetas e esperava o cliente me dizer o que queria pra dai começar a rascunhar, as vezes no papel, as vezes direto na pele. Tudo isso, bem antes dos "flash day" se popularizarem, quase que como uma epidemia, onde quase que todo final de semana tem um estúdio oferecendo tatuagens pré-definidas a preços promocionais. Mas claro, também participei destes.

Passei um tempo focado no meu estúdio e nos trabalhos autorais que desenvolvia lá, pensados e estudados para cada cliente. Me sentia bem confortável, pois é esse tipo de fazer que me interessa mais. Porém não recusava convite para evento de tattoo, mesmo que tivesse que fazer flashs mais uma vez. Também não conseguia me distanciar do meu posicionamento, e tatuei flash de ilustrações antigas que eu apenas pesquisava, selecionava e organizava para apresentar. Já que é desenho pronto, repetido, vou pegar os que eu acho mais legais e tatuar em quem também goste deles. Para falar como vejo essa comercialização de imagens pré-prontas, e os flashs-custom (feitos de antemão, mas só eram tatuados uma única vez) e como as pessoas buscavam exclusividade num evento de desenhos prontos, fiz um cardápio, tipo fast-food, com 3 tipos de pão, 3 tipos de recheio e 3 tipos de molho, feitos com o que mais se vê por aí. Você monta sua tatuagem pré-produzida e faz seu combo exclusivo, oh que legal! E funcionou, tatuei algumas combinações disso. Então pra deixar ainda mais claro o que pensava, fim um flash imaginário. Sem desenho nenhum. A antítese. Flash-não-flash. Numa folha separei áreas em branco e adicionei alguma descrição: serpente + rosa | preto + azul, por exemplo. Quem se interessava, conversava comigo e materializávamos sua serpente com rosa nas cores preto e azul, no lugar que ele escolhia, com o acabamento que eu achava interessante naquele momento. Também rolou, e até repeti flashs únicos.

Agora moro em outra cidade, onde pouquíssimos conhecem meu trabalho, preciso pagar as contas do mês, e o ritmo do comércio é bem diferente do que estava acostumado. Passei noites em claro, desenhando, pensando, riscando, cortando, montando, e amanhã tenho mais um dia de desenhos rápidos, confeccionados praticamente isolado aqui no frio, para quem sabe conseguir tatuar em pessoas que nunca vi na vida, que não sei os hábitos e gostos, esperando que se identifiquem com com minhas propostas. Que dessa vez estão mais bem próximas do que se espera ver em um tattoo flash.

TAIOM Silva

Written by

Tatuador e Artista Visual.