Acontece

Foi horrível. Estávamos a caminho do restaurante, eu, minha mãe e meu pai. O trajeto era uma subida sinuosa, na zona verde da cidade, era agradável, nosso destino era no topo. Quase chegando lá, algo aconteceu, não sei ao certo o que, nem porquê. O carro saiu da estrada. Foi jogado para a direita com rapidez, caindo pela ladeira por entre as árvores. Batemos em uma que, ao invés de nos parar, fez o carro girar e rolar.

Mais árvores pela frente serviram apenas para aumentar a turbulência e amassar algumas partes do carro em cima de nós. Eu não conseguia gritar, meu pai tentava se segurar, uma das batidas desmaiou minha mãe, havia sangue no painel. Caíamos em direção à um lago, não demorou até que chegássemos nele mas foi o bastante pra quebrar alguns ossos do meu corpo. O veículo deformado bateu com toda a força na água, quebrando o vidro da frente e desacordando meu pai.

Eu estava tonta, quase desmaiando, por descer um morro girando e sacudindo, demorei para sentir a água fria nos meus pés. Tentei desesperadamente sair dali, mas o carro amassou de um jeito que prendeu, da cintura para baixo, metade de mim. Sair dali rasgaria minha pele e meu músculos, quebraria mais ossos e me mataria de hemorragia antes que eu pudesse encontrar sinal de celular.

Se eu não poderia sair dali, que pelo menos eles saíssem. Comecei a tentar acordar os dois mas nenhum reagia. Foi quando percebi que o sangue misturado à água não era só meu, e que o pescoço de minha mãe estava em uma posição humanamente impossível. A água subia e eu só conseguia chorar, batia neles com um último fio de esperança, mas obviamente não obtia resposta. Minha visão foi ficando turva, e o ar deixava meu corpo em forma de bolhas enquanto eu gritava.

O fato de logo em seguida chegarmos ao restaurante não foi suficiente para tirar aquela imagem da minha mente. Pelo menos a freada brusca me trouxe de volta, mas tinha demorado demais. Consegui abstrair durante o almoço, mas na volta, naquele mesmo caminho, tive medo de mergulhar nas árvores de novo. Fiquei tentando me distrair e levar minha cabeça pra qualquer outro lugar. Funcionou, afinal.

Geralmente termina bem ou algo me traz de volta à realidade antes que fique muito ruim. Nos incêndios na minha casa, por exemplo, eu consigo escapar e ainda salvar meu cachorro. Nos assaltos, abordagens, explosões, assombrações, consigo fugir ou espantar o pensamento. Claro que quando o caso são fantasmas do passado eu fico triste, mesmo conseguindo fugir, se tem algum caso que eu queria que parasse, é esse.. Mas essa vez foi diferente, foi até o fim, e foi trágico.

O bom de sonhar acordado é que tem mais chances de você sair dessa. Não que seja ruim o tempo todo, às vezes é bom, tanto que você não quer voltar. Mas sim, é tão ruim quanto parece, tão real quanto dormindo e tão doloroso quanto a realidade e, infelizmente, é mais frequente também..