emergir

uma fábula real

Sem nome, por Sean Yoro (Hula). Pintura em parede. Emergindo em algum lugar do mundo.

Era outubro e aquela flor estava se afogando. Marés altas e baixas e ela continuava submersa naquele mar que conhecia sozinha.

Era um girassol. Um daqueles estranhos: sabia que a terra era o lugar seguro mas criou laços submarinos.

Começou essa aventura sem querer: viu uma concha tão brilhante que mergulhou parcialmente pra observa-la mais de perto. Gostou da concha, a achou bonita, mas não queria a concha, afinal, como a concha era do mar a flor era da terra. No dia seguinte, tornou a observar a concha e fez amizade com um peixe. Na semana seguinte, já tinha um grupo maior de amigos e no mês seguinte, até festinha surpresa fizeram pro girassol.

Até aquele momento, seu duplo habitat era aceitável. Já sentia o peso de ficar algumas horas por dia sem respirar, mas a vida na terra e somente na terra era solitária. Estava tão ocupado com o mundo submarino que só os reflexos do sol já te bastavam para suportar.

Mais tempo passou e a rotina do girassol só ia pesando, seu caule já envergava, sentia muitas dores e até algumas pétalas estavam caindo. Mas como ele ia conseguir ficar só na terra? Tinha que continuar o que começou, peixes já contavam com a sua ajuda, outras conchas bonitas já tinham aparecido e admiravam a sua coragem em busca do “melhor de dois mundos”. Algas já eram quase irmãs. O girassol resolveu então deixar a terra e manter-se completamente submerso. Um risco que impressionantemente funcionou. Um girassol vivendo debaixo d’água: quem poderia imaginar?!

Acontece que um dia o girassol mirou o céu e encontrou o sol mais lindo que já tinha observado. Ele e “seu sol” (como costumava chamá-lo) passavam muitas horas juntos (mesmo com toda distância entre eles) e com a ajuda do sol, a flor começou a analisar a sua vida e decidiu que deveria se livrar o mais rápido possível dos dilemas submarinos.

Os peixes, as conchas e as algas daquele pedaço de mar precisavam do girassol. Quando a pobre flor tentava emergir um pouco em busca do ar e do sol que precisava, eles a puxavam pra baixo. Era cruel com a flor, mas afinal de contas, ela havia permitido tudo isso. Alguns dias, todos os amigos do girassol estavam ocupados com suas rotinas habituais de quem nasceu pra viver no mar e ele, sozinho, afundava.

Começou em agosto. Em setembro, o girassol já não se entendia bem com o seu sol: vivia tanto tempo embaixo d’água que já não tinha esperanças de que sair de lá fosse uma realidade possível.

Em outubro, machucado e triste com toda a agonia do mar, o girassol tentou emergir e respirar. Não deu certo: muitas crises no mar e no céu só enfraqueceram o girassol.

Hoje, ainda submerso e com medo do futuro, percebeu que mergulhar é pra quem pode, emergir e respirar é pra quem tem juízo.

Moral da história: Não sejam esse girassol.