então tá combinado

quando o que se quer não é o que se pode ter.


faz tempo mas ele ainda lembra daquele encontro que atravessaria a madrugada. lembra também do motivo de não ter acontecido logo de primeira. sei lá, as vezes parece que a vida jogas umas indiretas na nossa cara e a gente, diferentemente do que faz com as do Facebook, ignora.

pois então.

insistentes, marcaram de novo. dessa vez, tinha tudo para dar e para dar certo. marcaram o melhor dia, o melhor horário. tudo combinado.

como sempre, ao se encontrarem não pareciam íntimos (e nem eram ou são), mal trocavam palavras enquanto andavam lado a lado na rua. sabiam, porém, que finalmente aquele velho combinado tinha dado certo e que, o peso na consciência de ambos (ou seria só na dele?) que vinha desde o primeiro combinado, tinha ido embora. ele estava lá, ele também. rolou o que quase sempre rola nessas combinadas que agente arranja na vida (sexo) e depois disso, acabou.

não acabou o encontro ou o dia. na verdade, não passavam das 22:00h quando eles simplesmente se separaram. tão distantes quanto podiam estar dentro do espaço de um apartamento. primeiro, ela dormiu. dormiu ao lado dele e acordou sozinha. depois, foi a vez dele de correr para os braços de Morfeu. puft. dormiu deixando-a acordada no mesmo quarto escuro onde mais cedo, dormir não era nem a sexta coisa na lista de 4 prioridades da noite.

papo não vai, papo não vem e ela continua acordada. já verificou o e-mail umas 4 vezes, já tentou até brincar de jogo da velha sozinha na parede da sala. já correu pra varanda acompanhada de dois gatos mais fofos e carentes do mundo e ouviu de Eminem (Headlights) a Sinatra — interpretado por Rod Stewart (The Way You Look Tonigth), observando as luzes de natal nas janelas vizinhas e a piscina, lá embaixo, que nem sabia que existia ali. pensou até em descer e invadir a piscina, mesmo sendo 23:00h. queria emoção naquela noite e o máximo disso que tinha encontrado ali foi o gato tentando se equilibrar pendurado na tela de segurança que cobria a janela em que ela estava debruçada.

cansou. sentou na poltrona que ao seu olhar parecia propriedade felina, sem saber se ficaria acordada até amanhecer, o esperando acordar e internalizando que, bem, o combinado era esse. nunca chegaram a falar nada além de sexo e “amizade”, a não ser no dia em que ele perguntou a ela o que sentia quando eles estavam juntos. ela ainda não sabe se a pegunta foi mesmo ingênua e curiosa como ele alegou ou se ele só alegou isso porque a resposta dela foi um “sei lá. coisas boas”.

talvez, ficar acordada a noite sem ter o que fazer no apartamento alheio possa ser uma das duas coisas: o dono do apartamento tem um julgamento muito raso a respeito das pessoas em quem confia a sua casa, seus gatos e seus órgãos enquanto dorme ou mais uma daquelas indiretas da vida que com certeza será ignorada. com dificuldade, mas será. talvez sejam as duas coisas.

não são culpados. acredito que não criaram expectativas maiores a respeito desse combinado. talvez, esperassem um pouco menos de cansaço da parte de cada um e um pouco mais de banho da parte dos dois. talvez, depois disso, poderiam começar a evitar o outro — o que eu considero um ato covarde, mas não desnecessário quando é o que se tem vontade — para que nunca mais chegassem a combinar nada. ou poderiam voltar a combinar muitos outros combinados.

enfim.

eram 23:23h e ele ainda dormia.

até o amanhecer, tá combinado. de lá em diante, são outros quinhentos.