Estou na vida como numa varanda. Vejo na rua passarem as pessoas com as suas tragédias íntimas. Vejo-as nascer e morrer. Nestas terras ácidas a natureza conspira contra nós. Um homem morre, desaparece, e logo a sua obra inteira se corrói e se corrompe e se desfaz. Os palácios de hoje amanhã serão ruínas. Uma panela de sopa, deixada ao ar, fermenta numa única noite. Os fungos crescem nos armários como plantas malignas e se os deixarmos ocupam inteiramente os quartos e as casas. A própria memória rapidamente se dissolve. Creio que aqui já ninguém se recorda de como morreu o velho Arcénio de Carpo, e muito menos se lembram de Fradique Mendes. A mim chamam-me a brasileira e os mais novos acreditam realmente que eu nasci no Brasil.
(José Eduardo Agualusa. Nação Crioula: a correspondência secreta de Fradique Mendes, 2002, p. 159).