O doce fora guardado com amor, sabe. Daquelas coisas que você tem pena de comer, porque sabe que vai ser difícil ter de novo, e vai saboreando aos pouquinhos. Demora tanto que ele até açucara no meio do processo, e você ignora e come mesmo assim. Mas, à medida que o fundo do pote se aproxima, a velocidade da colher desacelera e você já começa a sofrer por seu fim antecipado. E tanta cautela resulta no esquecimento do doce, entre caixas de mudança. Talvez não tenha ficado exatamente esquecido, mas a dificuldade de enfrentar o fim foi tamanha que acabou sublimando sua existência.

Foi aí que você encontrou com o pote de novo, meio sem querer, entre tantos outros que você queria bem. Tirou o pó da tampa, olhou ele de lado, lembrou de todas as colheradas que comeu, observou os rastros deixados dentro do vidro. E aí olhou o fundo, o dedinho que restou ainda estava lá. Corajosamente, buscou uma nova colher, mas ao abrir a tampa, teve que aceitar. Constatar que deixar coisas guardadas com medo de que elas estraguem faz com que elas… estraguem. Afinal de contas, leite e açúcar não vão durar pra sempre.

Só me restou jogar o resto fora e guardar o vidro. [sempre guarde o vidro — pra encher de novo]

Talvez esse texto não seja só sobre doce de leite. Mas só talvez.