Lá vem as caraminholas

São duas e meia da manhã. Não estudei. Não dormi. Não produzi. Não passei ácido na cara pra tentar consertar o estrago que fiz enfiando as unhas na pele ao chegar muito perto do espelho do banheiro depois de escovar os dentes. Não organizei minha vida, nem meus pensamentos. Não fortaleci minha autoestima nem investi num mecanismo de autoaceitação. A verdade é que eu não sei que mecanismo seria esse, assim como não sei que força sobrenatural me faria enfrentar todas angústias que aparecem de surpresa no meio de uma caminhada contemplativa na luz do pôr-do-sol, ou que deitam comigo na cama na tarde de um domingo qualquer, ou que me deixam acordada nas madrugadas dos dias chamados úteis, mas que não me parecem nem um pouco úteis e põem à prova meu valor como ser humano, já que quem não produz não parece ter valor. Eu não sei bem quando foi que a inércia começou a me consumir dessa forma e com essa voracidade. Só me lembro de um período muito anterior, muito distante, em que ela não existia, em que eu era produtiva e criatividade não era um problema. Ao mesmo tempo em que me lembro da existência dessa época em que eu não parecia estar presa numa areia movediça que me empedia de caminhar, constantemente algo me diz que tal época nunca existiu, que isso é invenção da minha cabeça pra aceitar o que eu sou agora, pra tentar encontrar uma ponta de esperança pra que eu não mergulhe pra sempre nesse estado de inércia incapacitante, que não me deixa criar, que não me deixa descansar sem o tormento de que não estou sendo útil pra ninguém, nem pra mim mesma. O que eu gostaria, sinceramente, era de encontrar um caminho que simplesmente me leve a concluir as coisas da vida sem dar o peso de uma reflexão existencial pra cada ação. A questão é que parece que o peso existencial das coisas é algo que me é instrínseco. Não sei me desvincular dele, não sei como ser prática nem como perder o medo de me tornar vulnerável. No entanto, é a vulnerabilidade que dá acesso às feridas e só pelo acesso às feridas que alguma cura pode ser possível. Eu desejo que um dia esse medo não me paralise mais e que eu possa finalmente experimentar a liberdade de ser vulnerável.