É agora já a vida

Talvez vocês saibam exatamente o que sonham ser. Ou talvez estejam paralisados, porque não têm ideia de qual é sua paixão. A verdade é que não importa. Não precisam saber. Só precisam continuar seguindo adiante. Só precisam continuar fazendo algo, aproveitar a próxima oportunidade, continuar abertos a tentar algo novo. Não precisam se encaixar em sua visão de emprego perfeito ou de vida perfeita. O perfeito é chato e sonhos não são reais. Apenas… FAÇAM. — Shonda Rhimes

Foi preciso muito tempo para que eu descobrisse que o que eu entendia como espera já era na verdade minha vida. É compreensível, porque quando estamos na escola nada nos diz que somos donas de nós mesmas. O uniforme, os horários, as provas e até os lugares das cadeiras deixam bem claro que nós ainda não podemos fazer escolhas. Foi um grande evento para mim quando a professora deixou que usássemos canetas em vez de lápis, tínhamos agora o direito de errar sem o conforto das borrachas — corretivo líquido demanda um trabalho que não é para qualquer um. Dentro dessa rotina, esperava o momento que iam dizer: agora é com você, vai na fé.

A escola faz parte da ideia de progresso em que nossa sociedade se ordena, na qual a criança precisa aprender a ser como o adulto. Assim, dividem nosso tempo de vida em fases com determinadas expectativas e cobranças. Precisamos passar de ano, colecionar informações até nos tornamos prontas para o mundo. Pensando dessa forma, nós, jovens, somos melhores que as crianças, mas ainda não estamos prontas, ainda não sabemos como é a vida de verdade. Isso é uma grande besteira. O tempo é para ser experimentado longe do peso de ser adulto ou criança. Cada experiência de vida é única e não deve ser reduzida a esse tipo de imposição.

Na realidade, nunca estamos preparadas para a vida. A escola ou a universidade nos preparam para um tipo de conhecimento bastante específico que nem de longe abarca a vida em toda sua complexidade. Quando entrei na faculdade — que eu tanto esperava — caiu a ficha que dá pra passar uma vida inteira esperando. Dá para passar anos esperando o vestibular, a formatura, a emprego perfeito, o final de semana, as férias e a aposentadoria. A triste verdade é que sempre vão existir pessoas ou situações que diminuem nossas escolhas, nossa capacidade de pensar e sentir por conta própria. O que eu quero dizer é que, sim, talvez seja preciso obedecer algumas normas e autoridades, mas isso não significa que você está se preparando para a vida, porque nesse exato momento já está experimentando uma série de sentimentos e vontades.

O único modo de não se abater por essas imposições é levar a sério seus sentimentos e vivências. Enquanto sentimentos, vivemos de verdade. Não é preciso ser adulta ou ter uma formação escolar para que o que você deseja seja algo significativo. Sentir, criar, ter opiniões, viver, são coisas muito sérias que independem de uma idade, um diploma ou uma experiência profissional. O tédio nas aulas, o coração que dispara em uma mensagem, o sono depois do almoço, o sol que pede praia, a dificuldade em entender matemática, a vontade de colorir, o medo da prova, os diários, a felicidade da sobremesa, nada disso é espera, é já agora a vida.

Texto originalmente publicado na Capitolina: http://www.revistacapitolina.com.br/e-ja-agora-vida/