A Redoma de Vidro: Quando a literatura é um modo de renascer

Originalmente publicado na Revista Capitolina: http://www.revistacapitolina.com.br/redoma-de-vidro-quando-literatura-e-um-modo-de-renascer/

Um romance de formação é um gênero literário que narra eventos fundamentais para a transformação de um jovem em uma pessoa adulta. Esse tipo de história normalmente é contada de maneira autobiográfica, isto é, a partir de narrativas em que a autora relata um acontecimento que ela mesma vivenciou. Mas não se trata apenas de contar uma história; a literatura é um processo criativo, e no momento em que a autora escreve sobre sua experiência, ela já a transforma. Assim, um romance de formação é sempre uma dupla gestação: ao mesmo tempo em que autora dá forma a um texto, ela também dá origem a si mesma, renasce, com essa criação.

A redoma de Vidro[1] é um perfeito exemplo de um romance de formação. Esther Greenwood, a narradora do livro, é uma jovem de 19 anos que está vivendo o que deveria ser o melhor dos tempos: ela é bolsista de uma boa universidade, ganha prêmios pela sua produção acadêmica e conseguiu um estágio em uma revista feminina que lhe permite passar as férias em Nova York. Mas, ao contrário do esperado, Esther não se comove com essas conquistas — ela se sente apenas vazia. Diante do imprevisto de não se satisfazer com a realização dos seus sonhos, Esther começa a questionar suas escolhas e sua própria identidade. Esse é o ínicio de sua crise e da história contada em A redoma de vidro.

Na verdade, não é tão simples delimitar a origem de uma crise. É durante o período em que vive em Nova York que Esther irá se sentir mais confusa, já que entra em contato com uma nova rotina, conhece pessoas diferentes, frequenta festas e bares e, principalmente, observa tudo com uma curiosidade intensa. Esse convívio com uma realidade diferente da sua — afinal, até então ela era apenas uma universitária que passava a maior parte do tempo se dedicando aos estudos — , provoca um choque suficiente para que a ideia que Esther tem do mundo (e de quem ela é nesse mundo) se desestabilize. Mas os questionamentos sobre suas convicções parecem ser mais antigos, e é isso que a narrativa nos mostra ao intercalar histórias que conteceram em diferentes tempos de sua vida. Ela já chega em Nova York com um problema pairando sobre sua cabeça: o problema da pureza.

Porque Esther tinha um noivo que — assim como seus sonhos — parecia perfeito: ele a amava, era um estudante de medicina e filho de uma família nobre. Até que esse noivo revelou algo que transformou todas as impressões que ela tinha sobre seu relacionamento; ao contrário dela, ele não era virgem. Depois que descobre isso, Esther se vê em mais um conflito entre suas expectativas e a realidade que a inunda de hesitações. Primeiro não acha justo, pois o noivo nunca deu a entender que tinha tido qualquer experiência sexual; pelo contrário, se mostrava ingênuo. Também achou uma injustiça o quanto a questão de ser ou não virgem era mais impositiva às mulheres do que aos homens. Em um certo momento do livro Esther diz: “Quando eu tinha dezenove anos a pureza era um grande assunto”. E esse assunto é um dos que mais a atormenta quando está em Nova York.

Após essa descoberta, Esther decide que deve desistir de ser pura. Mas mesmo enquanto reconsidera sua virgindade e começa a planejar sua primeira experiência sexual, ela não abandona a ideia de pureza. Quando está em Nova York, Esther vive noites cheias de eventos. No entanto, sempre retorna para casa com o desejo de se ver livre deles, de se tornar pura novamente. Por isso toma banhos quentes em banheiras até que todas as experiências que viveu durante a noite sejam apagadas, até que se transforme em algo límpido como um bebê recém-nascido. Mas esse renascimento, que implica em livrar-se das impressões do mundo, deixa-a apenas com o seu próprio silêncio, o que só a torna mais vazia e deprimida. O desejo de pureza impedia que sua vida fosse contagiada, então ela existia sem ruídos e laços. A redoma que paira sobre sua cabeça é esse silêncio que a separa do mundo.

Além desse conflito entre ser ou não pura, Esther percebe que não tem certeza sobre seu futuro. Durante toda sua vida ela se empenha quase que exclusivamente nos estudos, correndo atrás de boas notas e prêmios, mas se vê subitamente diminuindo o ritmo, incapaz de se dedicar tanto a esses objetivos. Mas é quando sua chefe a questiona sobre seus planos para depois da faculdade que o cenário de uma crise se torna mais concreto; Esther responde antes mesmo de poder pensar, como se as palavras tivessem vontade própria: “Não sei”. Ao dizer isso com tanta espontaneidade, ela descobre que é verdade. Sim, ela tinha planos: queria conseguir uma bolsa para um curso de pós-graduação ou estudar em outro país, ser professora universitária e escrever livros. Mas, naquele momento, já não tinha mais tanta certeza sobre esses objetivos e tudo que construiu até seus 19 anos parecia uma farsa.

É quando Esther retorna para a casa de sua mãe e recebe a notícia que não foi aceita em uma oficina literária que a crise se intensifica. Era uma notícia duplamente devastadora: primeiro representava um fracasso que confirmava suas dúvidas, e também significava que iria passar o resto das férias de verão com a mãe, com quem ela tinha uma relação conturbada. De modo que Esther não gostava da ideia de passar tanto tempo em sua antiga casa. Ela então reflete sobre o que pode fazer. Decide que não vai desperdiçar seu tempo livre, que será produtiva, e que até o fim do verão terá escrito um livro. Mas quando tenta escrever Esther sente que não tem nada a dizer sobre a vida, que nunca tinha vivenciado algo intensamente, como um caso de amor, a perda de alguém querido ou alguma aventura em realidades diferentes. Enfim, ela sente que precisa de mais experiências.
No entanto, quando Esther pensa sobre o que deseja viver, sempre escolhe um caminho que nega suas possibilidades; sonha em ser uma outra pessoa, uma desconhecida, em uma cidade nova. Em sua busca por experiência, ela, mais uma vez, ignora sua própria realidade. Acredita que em uma cidade em que ninguém a conheça possa ser ela mesma, e com isso ignora que quem ela é depende do lugar que ocupa no mundo. A vida de Esther não pode começar enquanto ela nega esse compromisso com a realidade que existe além de sua redoma. É é nesse período em que retorna à sua cidade natal que ela entra em uma espiral de dúvidas, até que a redoma se torna sufocante e não a deixar enxergar uma saída.

Sua crise chega a tal ponto que a impede de ler, escrever, comer ou dormir. Esther se sente um zumbi, vagando indiferente ao que lhe rodeia. Envolta nessa situação desesperadora, ela tenta o suicídio. Felizmente, Esther é mais de uma vez salva. Após essa tentativa, ela é internada em uma clínica psiquiátrica, onde recebe o tratamento para tentar se libertar da redoma. É nessa clínica, talvez, que Esther vive sua primeira experiência marcante, ou reconhece que aquele silêncio já era também uma experiência. O que se passa durante o tempo em que está internada não transforma Esther em uma nova pessoa — em alguma medida ela continua tendo os mesmos problemas e a mesma dificuldade de se relacionar com as pessoas e o mundo — , mas lhe dá as ferramentas para perceber que a saída da redoma está no mundo.

Na verdade, o mundo é tão ou mais opressor que sua redoma, mas é só nessa realidade que se encontram os meios para que alguma libertação seja possível. É através do auxílio de uma psquiatra que Esther consegue abandonar aos poucos a pureza. O processo se dá por passos pequenos. que parecem insignificantes, mas que fazem com que ela situe seu corpo na realidade e se sinta dona desse corpo. Às vezes utensílios aparentemente simples são capazes de dar à vida uma nova dimensão. Um dos grandes receios de Esther em relação ao sexo era engravidar, pois não queria correr o risco de perder o controle sobre seu corpo e suas escolhas. É através dessa médica que descobre meios de se proteger, de ser responsável por si mesma. Assim ela passa por sua primeira experiência sexual, como um rito que inicia sua saída da redoma. A partir dessas descobertas e da aceitação de alguns riscos, Esther consegue receber alta. A saída do hospital é seu último ritual. Um ritual de auto gestação: dessa vez ela nasce pelas próprias mãos, para o mundo.

O final de A redoma de vidro é aberto. Nós não podemos saber o que acontece quando Esther sai do hospital. Muitos supõem que a personagem tem o mesmo futuro que sua autora e se suicida. Mas eu acredito que, se Sylvia Plath deu ao mundo essa história, é porque ela pode ser diferente de seu destino. A criação de um livro é uma entrega que tem potencial para transformar muitos rumos. A primeira vez que li A redoma de vidro eu tinha 18 anos, era caloura do curso de história e morava em uma nova cidade, Niterói. O livro conversava com a minha condição; eu era muito jovem, cheia de dúvidas e vontades intensas. Como Esther, eu me sentia destinada a não ter uma vida que se resumisse a lógica de crescer, casar, se reproduzir e morrer; eu seria uma mulher que iria estudar, viajar e escrever. Mas também era igualmente inexperiente, tomada por uma curiosidade feroz e um tanto frustrada com minha realidade. Passei todo meu ensino médio acreditando que a faculdade me esperava com um futuro incrível. Não foi bem assim, era sem dúvidas melhor, mas também era tão diferente das minhas expectativas que assustava. Ler a história de Esther me angustiava por tanta identificação e me dava uma certeza dolorida de que minha existência ia muito além dos meus ideais. Reler esse mesmo livro com 23 anos, depois de ter passado por crises e mudanças — de curso, cidade, identidade e tantas outras -, me fez perceber de um modo diferente a história de Esther e a minha também. Acho que se perder faz parte, mais ainda, é necessário. Quando temos muitas certezas podemos nos tornar intolerantes e nos fechar para qualquer diferença e possibilidade de mudança. É por isso que acredito que a crise de Esther foi um meio para ela duvidar de todos os seus ideias, destruir tudo que era um destino e, assim, poder começar uma vida que se cria junto com o mundo.

[1] A redoma de vidro é um livro escrito por Sylvia Plath e publicado pela primeira vez em 1963 sob o pseudônimo de Victoria Lucas. Sylvia Plath (1932–1963) foi uma escritora e poeta americana. Além de A redoma de vidro, escreveu os livros de poesia The colossus and other poems e Ariel, seus contos estão reunidos em uma publicação póstuma chamada Johnny Panic and the bible of dreams.