#blessed

Felipe sorri para o teto e me pergunta se acredito em livre arbítrio. Sem hesitar, nego. Logo estamos conversando sobre construções sociais, psicologia, desejo. #minadehumanas. Tudo é linguagem. Seu Iphone, meu copo de vinho, seus olhos marotos de maconha, tudo feito de linguagem. Portanto, puro improviso. Não podemos acreditar em predestinações e a liberdade soa como mais um destino.

Ainda assim, me bate uma onda de ser esse o lugar certo. Poderia dizer que tudo que aconteceu neste ano me conduzia até aqui. Veja bem o nível de egomaníaco, para eu estar aqui foram necessários desvios monstruosos, um ataque terrorista pra ser mais precisa. Se há deus, sou então sua favorita? Não posso acreditar nisso. E penso isso involuntariamente. É porque a felicidade ou a tristeza precisam estar fora de nossas mãos, são presentes. O que se passa é que estamos sempre fora de nossas mãos, mas a isso damos um nome velado: descontrole.

E fugimos dessa sombra até estarmos nesse ponto perfeito em que podemos apostar em alguma sabedoria, caminho ou divindade além. Nessa posição perfeita é que inventamos que há enfim algum sentido. Esquecemos que o calor de nossa embriaguez tem seu preço. É insuportável se manter constantemente humano. Devemos ousar qualquer ordem que não se desmanche em vazio.

Por isso juntamos coincidências, erros e o que por sorte chamamos de encontro em uma saída mística. Por exemplo, Camila me indicar um restaurante que fica exatamente a dois minutos da minha estadia é o que pode se usar como um sinal. Ou quando Gabi leu as cartas e apontou o que me aguardava. Quando encontramos, insistimos nesse minúsculo sentido do tamanho de duas silabas: e u.

Não posso acreditar em mim mais do que acredito em árvores.Menos ainda, posso acreditar em mim como acredito em folhas aleatoriamente despencando. Essa inevitabilidade que cruza meu percurso e dança no ar até uma sobrevivência possível. Isso não nos dá uma linha ou uma tela em branco. Apenas contexto: espaço, tempos, línguas. Deus é finito como um pôr do sol. E nós,em nossas relações frágeis e espontâneas, construímos nosso reino.


Eu diria que a depressão é um modo de estar atento ao mundo e a felicidade é a enorme ignorância diante das possibilidades.


O vazio só é áspero na inércia. Quando a casa cai, a porta é superposta. Se a mantemos é por amor aos símbolos, um modo caduca de atrasar o fim.

Survival series, Jenny Holzer.