entre salas de espera e terminais rodoviários


A fugitive too dull to flee

Tenho alguma obsessão com retornos. Escrevo ou escrevia sobre reencontros. As unhas ficadas no que é inevitável. Agora o aleatório segue ligado. Ainda assim às vezes brinco com minha cabeça sobre essas narrativas.

De repente, em meio a essa emergência desnecessária, você se materializa ao meu lado. Te conto meus sintomas. Você debocha das minhas dores. Você não é um dos pacientes, está só à espera — de quem eu não tenho forças para inventar, um filho seria um bom plot twist. Eu sei que os resultados são inúteis, mas já que estamos aqui fazemos o que sabemos de melhor: reclamar. Observamos os casos horríveis que me tornam uma figura cômica. Digo que queria ser como aquela mulher ali ajudando o pai. Ela tem tudo arrumadinho. Você me pede explicaçõs armado com julgamentos velhos. Não, não é que eu queira viver uma situação semelhante, não quero ter que ajudar meu pai. Quero apenas estar preparada. Até agora só fui quem pede ajuda. Eu sei o que você vai falar, mas continuo o monólogo mesmo assim e espero até receber exatamente o previsto e isso não ser nem um pouco entediante. Escuto sobre meus complexos, minha culpa exagerada, meu egocentrismo tão pesado que se volta sobre mim mesma, estática. Você sabe tudo. É uma pena que não tenha uma irmã, acompanhar o crescimento de uma mulher talvez ajudasse. Mas minha solidão, na verdade, é precisa das filhas únicas. Nos debatemos sem espectadores. Não há registros. As feministas — lá vem — sempre tem alguma resposta. E sim, às vezes me pego usando a opressão ou tudo aquilo que não posso controlar para justificar precisamente os erros de caráter que estão ao alcance da minha mão. Porém, não é esse tipo de justificativa que os homens usam há milênios para encobertar suas cagadas? Ser um pouquinho descarada faz parte do processo de ressignificar a história. Você fica satisfeito ao apontar o óbvio, sai da conversa sem sentido carregando o que deseja: estava certo desde o início. Deixo que você acredite em qualquer coisa, é uma das vantagens de já não se importar. Tenho mais controle, inclusive sobre você, diante da minha indiferença. O que agora não vale nada além da apatia e a convivência com alguns fantasmas.De repente percebo que essas cadeiras também soam como um outro cenário: Uma rodoviária. Melhora a cena. Um alívio não ter bebês ou doentes terminais. Só destinos diferentes que partem da Novo Rio.



Minhas memórias inventadas são pedrinhas que seguram balões. É como aquela cena de Girls em que a Hannah encontra o Adam. Ela está um caos vestindo só uma blusa enorme e um curativo no ouvido, enquanto ele está mais ou menos bem, inseguro e perdido, mas capaz de controlar a própria merda — é claro que no fim do episódio aprendemos que uma hora a coisa escapa e não é bom. Ela não se esconde, revela na cara a inadequação, ele se apropria disso para fingir que tem um lugar, está na festa dos amigos da namorada. De repente, por repulsa ou atração diante da vulnerabilidade exposta, ele ganha certeza do que está fazendo. Se algum dia acontecesse algo similar, acho que seríamos igualmente covardes desviando do que é frágil ou honesto. Íamos forjar pertencimento até que cada um chegasse em sua estranha casa com os tímpanos perfurados.

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