Precisamos falar sobre saúde mental

e isso não tem nada a ver com os vacilos dos nossos amigos

quadrinho de Ellen Forney, autora de “Parafusos — Mania, depressão, Michelangelo e eu”

Às vezes parece que as redes sociais se transformaram em uma máquina de produzir imperativos prontinhos para alimentar nossa coleção de neuroses: Verdades redondinhas, sem qualquer brecha para caber as incoerências de nossas vidas e, consequentemente, com pouco valor prático.

Na semana passada, após a triste notícia do suicídio de Chester Bennington, vi o twitter sendo tomado de desabafos e experiências pessoais até chegar nesse inevitável tom de denúncia que parece rondar nossos discursos com uma frequência assustadora. A discussão rapidamente passou da necessidade de se debater saúde mental para uma urgência em apontar culpados. De repente começaram a surgir uns tweets (que logo migraram em prints para as outras redes sociais) falando coisas como:

Vocês na internet “é importante falar de saúde mental blablabla”, mas na vida real aparece alguém desabafando e vocês já “aff pessoa tóxica, pra baixo, sai de perto de mim”

ou

gente que nessas horas acha importante falar sobre saúde mental, mas que fica com raiva quando o amigo fura o rolê

e coisas do tipo.

Esse tipo de tweet (e sua repercussão, com milhares de retweets) me incomodaram não tanto pela mensagem, mas pelo tom que assumem. Fico me perguntando o que as pessoas que produzem e/ou afirmam esse tipo de discurso estão em busca. Acho que é algo mais ou menos entre essas três demandas (e penso isso pelas vezes em que eu mesma reproduzi esse tipo de comentário na internet):

- Extravasar uma indignação

- Julgar quem não tem empatia

- Assumir uma posição de superioridade moral

A primeira demanda eu estou 100% de acordo, inclusive amo/sou. O que é afinal as redes sociais se não o SAC do mundo? Tem que reclamar, fazer textão, desabafar, fazer o que quiser mesmo. Mas então por que a gente assume esse tom de julgamento? Por que a gente não desabafa dizendo “poxa, tá vendo que horror? vamos ter mais atenção uns com os outros, aquele amigo sumido que só fura, dá uma atenção, procura saber, seja mais paciente, vai que tá passando por algo e não se sente confortável pra desabafar. Vamos ser menos babacas e mais cuidadosos com nós mesmos, por favor”.

Existem muitas formas de desabafar e cada uma dessas formas indica diferentes posições e possibilidades. Esse tom de denúncia me parece muito pouco produtivo, ainda que nos dê algum tipo de satisfação. Porque, de fato, é satisfatória essa ilusão de que há alguém para culpar — o que quer dizer que há também um lado certo — , sobretudo em um momento de instabilidade tão grande em que nos encontramos desesperados por qualquer respaldo. Mas eu acho que cada vez mais estamos nos agarrando a estruturas fadadas ao fracasso que, em vez de nos ajudarem na árdua conquista de um pouco de autonomia, só contribuem para intensificar um ranço de ressentimento, mágoa e ansiedade social.

Demandar compaixão e compreensão das outras pessoas não serve para absolutamente nada enquanto não conseguimos cultivar um pouco mais de cuidado e respeito por nós mesmos. E enquanto esperamos que os outros aplaquem ou resolvam nossas dores, essa autonomia simplesmente não se desenvolve — mas isso é assunto para outro texto, provavelmente escrito por alguém com mais estabilidade emocional do que eu, risos.

Ultimamente parece que empatia é a saída para todos os nossos problemas. Não importa o que aconteça, com um pouco de empatia, poderia não ter acontecido. Assim, a cada notícia horrível vem esse clamor por mais empatia por favor. Acredito que essa é só uma frase de efeito fácil e pouco plausível para lidar com as questões humanas que são mesmo horríveis e às vezes parecem sem qualquer vislumbre de solução.

Fico pensando se essa demanda por empatia não se torna apenas mais um imperativo que aumenta nossa pressão social, esse horror de culpa, ansiedade e estresse. Se estamos todos meio mal como podemos esperar que o outro esteja incondicionalmente disponível para compreender nossos problemas? Como exigir compaixão e cuidado dos outros? Quando esses gestos se tornam obrigações eles não perdem os seus sentidos? Contribuir para uma vida compartilhada mais gentil e solidária não deveria passar por discursos passivo-agressivos. Me parecem dois movimentos muito distintos querer praticar a empatia e demandá-la dos outros e, em geral, o que vejo por aí é mais uma demanda do que uma prática. Empatia virou uma carta na manga que todo mundo faz uso quando precisa.

Para além do problema de um discurso imperativo, acho que tem um furo ainda mais grave. Porque empatia não salva ninguém. Os problemas que envolvem saúde mental estão atrelados intimamente à nossa sociedade e seu sistema de produtividade que se baseia na exploração da vida humana, sustentada principalmente por lógicas racistas e machistas. Empatia está na beira dessas questões, no nível das relações individuais, e quanto mais focamos nessa superfície menos enxergamos as estruturas que nos envolvem. É assim, desviando da raiz de nossos problemas, que vamos nos devorando em discursos vazios, propagando culpa, aderindo a soluções lucrativas e de satisfação rala.

Precisamos falar sobre saúde mental, porque isso envolve nossas vidas. Precisamos falar sobre saúde mental porque a cada 40 segundos alguém se suicida e é urgente que esse números sejam compreendidos como um sintoma de que algo está muito errado. É preciso demandar enquanto sociedade que nossos limites mentais sejam uma questão de saúde, tão sérias e palpáveis como diabetes, hipertensão, asma. É preciso falar sobre depressão levando em consideração nossa educação e saúde públicas, nossos direitos trabalhistas, nossa realidade enquanto corpos humanos com vidas e necessidades diversas que são muito mais do que meros instrumentos de exploração.

Nossos amigos frequentemente falham e vacilam, essa falta de compreensão decisivamente afeta a vida de quem vive com depressão e/ou ansiedade. Mas nossos amigos vivem no mesmo mundo bagunçado que nós, enfrentam de diferentes formas esse mesmo sistema, muitas vezes também estão lutando para preservar suas estabilidades emocionais, são falhos e incoerentes como qualquer ser humano. Então, não adianta demandar empatia se for apenas para competir no ranking de quem está mais na merda.


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