Sobre a pós-ferida

Leslie Jamison m A grandiosa teoria unificada sobre a dor feminina

Dormi abraçada com o livro, porque é o que alivia minha solidão nessas sextas — já aceitei que é dia mais difícil da semana. Acordo e volto a ler sobre a dor feminina. Escuto Fiona porque faz sentido. Entendo o que se passa com a gente. Suturadas.

This is not about love
’Cause I am not in love
In fact I can’t stop falling out
I miss that stupid ache

Sinto falta daquela dor, porque enquanto se chora ainda há um prazer e porque sinto falta de onde ela vem. Aquela dor vem de alguma espera. Uma ânsia que agora vejo como desmedida, juvenil, insensata.

Eu me preocupo com uma série de coisas: a política nacional, o futuro, meu saldo negativo e, óbvio, meus relacionamentos. Eu fico cansada. Eu faço listas, invento novos projetos, abro o tinder, troco mensagens, evito ler comentários nas reportagens sobre a Dilma, evito a histeria, quase sempre desisto de tentar e de entender. Eu não choro. Eu vou aos bares, eu encontro minhas amigas, eu recebo cafunés, quando beijo geralmente estou bêbada ou a caminho. Eu não desejo mais do que isso.

Nas redes sociais se diz que criar expectativas é o pior dos erros. A indiferença é o lugar mais árido.

Nenhuma mensagem faz meu coração acelerar. E, se faz, é amargo. Meu peito logo se contrai em recriminação. Podia ser bom, mas é vexatório. Não sinta tanto. Não se renda. Não faça qualquer aposta. Eu pondero meu envolvimento através dos nossos privilégios. Minha pele, minha língua e minha moeda estão em desvantagens, logo, algo eu preciso poupar. Minhas amigas concordam. Eu estou certa. Me pergunto quando se tornou um fato misturar amor com dinheiro. Me pergunto o quanto eu perdi, aos 22 anos, com táxi e cachaça.Não vamos nem falar sobre minha produtividade acadêmica.

O fato é que se tornou uma estratégia manter nossas cabeças sobre as águas. Acho que demorei a ceder ao treinamento, mas meus nervos se acertaram, enfim.

Às vezes encontro um desses garotos pra quem perdi tanto dinheiro e sentimento. Misturo todos em uma coisa só, um objeto conflituoso. Me pergunto o que eles perderam. Às vezes escrevo só pra reencontrar. Às vezes sou sentimental e forço a barra da nostalgia. Pra sentir qualquer coisa. Inevitavelmente, eu passo por eles. De vez em quando ainda surge um poema ou uma mensagem em que pra eles ainda posso ser algo como uma menina.

A minha risada é tão irônica agora que se eu pudesse chorar, chorava.

Quando digo “Ele não muda”, minhas amigas entendem a proporção da ferida. Elas entendem que nós não temos outra opção a não ser mudar. Eu me ressinto por não poder sair imune.

A inocência é uma posição privilegiada.

Não sei o que fazer com um desejo oceânico que passa descrente pelas possibilidades.

Eu não queria escrever dessa forma. Eu não queria ainda incorporar a imagem da mulher que mesmo inteira carrega uma ferida. Mas essa é minha catarse possível.