A ética do internauta e a ética do marceneiro

(Foto do site www.araucopaineis.com.br)

Sou jornalista, mas gosto mesmo é de vôlei. Gosto de sacar viagem e também de sujar a roupa toda rolando na quadra para salvar a bola que parece perdida (numa dessas, fraturei o braço esquerdo, o que prejudica um pouco minha atividade profissional). Mas o importante é que minha ética como atleta é igual à minha ética como jornalista — não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão.

Quem conhece o texto de Claudio Abramo (1923–1987), jornalista demitido por fazer greve no fim dos anos 1940 e preso pelo Doi-Codi por subversão nos anos 1970, já deve ter notado minha paródia. Ele, em vez de vôlei, gostava de marcenaria. A analogia entre a ética do marceneiro e a ética do jornalista foi uma das primeiras lições que recebi na faculdade de jornalismo — e nunca mais esqueci. Talvez tenha sido marcante porque meu pai sustentou três filhas trabalhando a vida toda como marceneiro — e ele é mesmo um dos cidadãos mais éticos que eu conheço. Seguramente mais ético do que alguns jornalistas que conheço. Talvez seja marcante porque nos confronta com “A regra do jogo” das empresas de mídia, um jogo que nem jornalistas nem cidadãos gostariam de jogar.

Lembrei do texto do Abramo, lido há mais de uma década, na semana passada, em meio às discussões do GP Comunicação, Mídias e Liberdade de Expressão do Intercom, um dos principais congressos de pesquisadores em comunicação do país, desta vez sediado na Universidade de São Paulo (USP). Ética não é propriamente minha linha de pesquisa, estive lá acompanhando uma aluna, que fez um TCC sobre a ética jornalística em conflito com a autorização prévia de biografias. Repare que no artigo defendemos uma ética jornalística, pautada por princípios como verdade, autonomia, liberdade de expressão, interesse público, direito à informação e respeito à honra.

Na sequência dos trabalhos postos em debate por lá, o colega Dairan Paul (UFSC) apresentou um artigo interessantíssimo (que, por alguma razão desconhecida está com link quebrado nos anais do evento) sobre uma tal “ética radical de mídia”. Pelo apresentado pelo autor (no vídeo ao lado Dairan dá o resumo), esse conceito versa sobre uma ética compartilhada por jornalistas e amadores — não é necessário dizer que ambos compartilham dos mesmos canais para divulgar conteúdos atualmente, certo?

Pois é, e os princípios por trás desta ética radical, uma espécie de ética compartilhada por todos os criadores de conteúdo na internet, sejam jornalistas ou não, seriam coisas como verdade, liberdade de expressão, interesse público, etc. Não seria a mesma ética do marceneiro?

Há bibliografia suficiente tanto para dizer que sim, quanto para dizer que não. Como eu disse no começo, esta não é propriamente minha área de pesquisa. Mas há uma questão que vem me inquietando há algum tempo e tem a ver com essa conversa. Algo que já comentei com alunos de graduação em sala de aula, colegas da pós no café da universidade e agora coloco no mundo por aqui: precisamos desenvolver uma “educação para a mídia”.

Não há mais como conter o avanço do conteúdo publicado por amadores na sociedade em rede, jornalistas precisam aprender a conviver com isso — e a sociedade também precisa aprender a conviver com isso. São numerosos os exemplos de publicações irresponsáveis nas redes sociais que levaram a linchamentos (inclusive de pessoas inocentes) e suicídios (após divulgação de fotos íntimas, por exemplo), entre outras formas de dano. A imprensa está imune a isso? Sabemos que não totalmente, mas, se com todas as lições de ética que um jornalista recebe na sua formação, ainda assim ocorrem desvios, como esperar que amadores lidem bem com tamanha liberdade (e responsabilidade) para divulgar informações?

É preciso pensar mais sobre liberdade de expressão, privacidade, prevenção ao dano e outros princípios éticos necessários para preservar nossa sanidade nestes tempos difíceis. E falar em liberdade significa também falar em limites — não é porque há liberdade, que tudo é permitido. Parece paradoxal, como realmente é. Paradoxal como a própria ética jornalística, muitas vezes submetida à ética da empresa jornalística — as regras do jogo de Abramo.

O que o velho jornalista defendia era não ser possível ao jornalista despir-se de sua condição de cidadão, com suas visões de mundo e suas paixões, no exercício da profissão. Nestes tempos em que se fala tanto em “jornalismo-cidadão”, é preciso, afinal, falar mais sobre ética — a do marceneiro mesmo.

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