Sobre ser artista e autoestima

Sabe, minha memória é bem ruim e tenho quase certeza de que a maioria das coisas que lembro na verdade são versões altamente distorcidas ou inventadas do que realmente aconteceu. Uma delas, em particular, é de quando eu não devia ter mais do que 10 ou 11 anos. Talvez um pouco depois. Bom, o lance é que eu estava olhando uma página em particular na revista “Como Desenhar Mangá: Mulheres”, sobre desenhar cabelos.

“Acho que NUNCA serei capaz de fazer algo assim!”, pensei enquanto encarava, fascinada, os detalhes intricados da Denise Akemi. E esse é um sentimento bem comum quando nos deparamos com gente infinitamente melhor do que nós, né? Aquela Outra Pessoa é tão, mas tão foda, que parece não existir nenhuma justificativa racional que explique tamanha maestria.

A isso, penso que muito se deve à chamada mente descontínua, que nada mais é do que a nossa incapacidade de enxergarmos processos. No caso do desenho e pintura, significa, simplesmente, que somos muito limitados na hora de visualizar as principais etapas de desenvolvimento de um artista (a menos que o próprio tenha disponibilizado uma linha do tempo de tal ínterim, por exemplo). O Pirulla dá uma explicação bem didática a respeito no vídeo A maldição da mente descontínua.

Meu ponto aqui é o seguinte: Se você sofre com isso, a ponto de até rolar aquele desânimo sério de continuar a desenhar ou mostrar seus trabalhos ao mundo, meu conselho é

Calma que é temporário.

Ser um artista, qualquer um é. Ser um bom artista, bem…

Peço perdão se isso soa muito papinho motivacional, mas veja, quem conseguiu se destacar num mundão saturado de artista mediano não só venceu tal barreira de ficar se comparando aos seus mestres como também provaram para si mesmos que podiam. Que, se tivessem à disposição um material de estudo de qualidade e tempo o suficiente para desenvolver a percepção visual (dentre outras coisas), eles eventualmente chegariam lá.

(Aliás, se parar pra pensar, comparar seus trabalhos com gente trazendo uns 20 anos de carreira ou mais nas costas é algo um tanto descabido de se fazer.)

Por isso, continue estudando, pondo em prática críticas de colegas melhores que você e análogos aos seus propósitos artísticos e, talvez, você verá aquele mesmo artista fantástico não como “argh, não presto pra fazer isso”, mas sim “ok, não estou nesse nível, mas já tenho algumas ferramentas importantes que estão me levando ao caminho certo”…

… Que foi basicamente o que pensei assim que bati o olho nessa belíssima peça por Rainer Petter (e que deu a ideia desse textinho). Ele é muito melhor do que eu, mas consigo identificar algumas das razões pelas quais os trabalhos dele são tão fascinantes e gostosos de se olhar. Valores, temperatura de cor, ritmo, composição, storytelling… Tudo perfeitamente passível de aprendizagem, cheio de livro e curso ótimos mundo afora.

Não precisa esperar por algum milagre. Com a orientação apropriada, prática inteligente e disciplina, é possível.

E é um sentimento que me soa mais verdadeiro e palpável à medida que prossigo estudando.

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