Olhares sobre a Páscoa

A passagem da Páscoa mexe comigo, internamente eu digo. Busco referências dos motivos e acredito que meu pai tem grande influência. No seu período como pastor protestante, valorizava esta data com muito afinco, inventava ideias, temas e motivos para que esse momento do calendário tivesse um "q" mais especial, um convite a reflexão.

Esse ano resolvi pedir um texto pra ele sobre o tema, para que eu finalmente tenha como guardar sua visão de mundo e me lembrar na sua narrativa do seu real significado e as conexões entre a religião, história, filosofia, cultura e suas influências na nossa vida e na nossa visão de mundo.

Por vezes achamos que tudo isso não conversa diretamente conosco, ledo engano, somos afetados quando menos esperamos. Sou muito curiosa em saber como todo esse tecido nos afeta. E quero incentivar esta consciência mais e mais. Esta foi uma breve introdução para uma crônica desenhada pelo meu pai, Doraci Natalino de Souza, leitor voraz de tantas obras, com formação teológica, filosófica e hoje, o vejo como um crítico da cultura. Gosto muito da ideia de uma Páscoa que nos convida a parar e refletir sobre os rumos do ano até aqui, um momento de encontro com pessoas especiais pra nós, onde trocamos impressões e podemos olhar pra frente e seguir em busca do encontro com a nossa arte. Vejo como uma parada estratégica, muito menos capitalista do que tem se tornado.

Espero que gostem da crônica:

"O pai pergunta ao filho: quer saber sobre o significado da Páscoa?
____ O filho responde: de qual Páscoa?
Mas filho quantas Páscoas existem?
____ No mínimo três.
Reflete o pai por alguns instantes e diz: como assim? Onde você aprendeu isso?
____ Na Bíblia!
____A primeira é a Páscoa judaica que gerou o judaísmo e o islamismo; a segunda é a Páscoa de Jesus de Nazaré que ocorreu no âmbito dos quatro Evangelhos; e, a terceira é a Cristã que gerou o cristianismo e posteriormente a Reforma Protestante e tudo mais que surgiu até nossos dias.
____O Senhor não sabia?
O pai confessa nunca ter pensado dessa maneira.
Fica sem jeito e diz ao filho: vejo que você sabe mais sobre a Páscoa do que eu.
____A primeira Páscoa, “Pêssah”, em hebraico significa passagem. Passagem do Anjo libertador; da escravidão à liberdade. Saída dos hebreus do Egito rumo à terra prometida por D´us, chamada Canaã.
Essa passagem foi regada a muitas pragas e castigos sobre os egípcios, permeada, portanto, de ódio, ressentimento, revide, sofrimento, dor e sangue.
O pai toma um fôlego e diz: vamos para a segunda Páscoa.
____A segunda Páscoa que é Jesus de Nazaré, na verdade se dá dentro de uma expressão total e inseparável em sua vida, desde seu nascimento até o momento mais valorizado pela tradição, ou seja, paixão, morte e ressurreição.
Em Jesus dos Evangelhos, “Pêssah”, significa passagem da escravidão à libertação do homem e em todos os sentidos e direções.
Completamente diferente da primeira Páscoa, mensagem, conteúdo e testemunho; Jesus — Páscoa Eterna, não faz qualquer resistência frente as baixas paixões humanas.
Ele, Jesus de Nazaré, apresenta a possibilidade do homem ser livre, livre de todas essas opressões.
Esta Páscoa trás uma novidade: afirmação da vida!
Jesus de Nazaré em nenhum momento de sua vida aceita a negação da existência, mas sustenta a nova visão de mundo, novos valores, ou seja, a transvaloração de todos os valores humanos mostrando a importância e necessidade dessa passagem: da mente escrava para a mente livre, da moral à Ética; da violência à paz; do ódio ao perdão; da tristeza à alegria; da adaptação à superação; da má consciência à boa consciência; do amor ágape ao amor “fati”; do plágio à criatividade.
Para fundamentar sua ideia usa parábolas, aforismos e metáforas, assim como esta: “Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida”. Jo. 6.55
Se os humanos tivessem captado e absorvido essa dimensão da Páscoa Eterna em Jesus de Nazaré, não seria possível a continuidade e o aumento de derramamento de sangue, sangue de inocentes sobre a terra e tantos outros descaminhos.
A Páscoa de Jesus é totalmente desinstitucionalizada, desespiritualizada, seu objetivo é atingir a todos os seres humanos, indistintamente, começando pelos mais necessitados, fazendo discípulos e levedando toda a massa.
A Páscoa de Jesus de Nazaré é a melhor interpretação do existencial, é a vida em expressão artística, em pura arte.
Vamos à terceira Páscoa:
_____A terceira Páscoa é a cristã, sim, uma mistura entre a primeira e a segunda, uma espécie de plágio da primeira e deturpação da segunda.
A Páscoa cristã institucionaliza, espiritualizada ao máximo, faz da ideia da passagem da escravidão à libertação do homem, recuperação e revitalização do antigo idealismo de liberdade da primeira Páscoa, levando-a diretamente à Canaã eterna sem passar pela realidade da vida.
Recupera e revitaliza a visão moral judaica de mundo; ideia de julgamento, revitaliza a culpa, o medo e o castigo, abandonando totalmente a dimensão extraordinária da Páscoa de Jesus de Nazaré que elimina a culpa, admite o medo apenas mobilizador, colocando o perdão, gratidão e generosidade no mais alto nível da afirmação da vida humana.
Na Páscoa cristã, infelizmente, não há passagem, há estacionamento perigoso da construção do poder, há, sim, apenas permanência, retrocesso e negação da vida.
Talvez, seja nessa perspectiva que temos de interpretar o livro do extraordinário sociólogo Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
É o mesmo que dizer: A Páscoa cristã desenvolveu uma ética de grande negação da vida que para preencher esse vazio precisa de muito capital e muita necessidade de consumir chocolate.
Diz o pai ao filho, nunca pensei que poderia ter um gato nessa tuba, não é?
____Gato não pai, mas gato por lebre!!!!!”

Em busca da afirmação da vida, com toda sua realidade. Menos culpa e ressentimento e mais generosidade.

Até breve!

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