Sofa28 Cap1 :: Moro sozinha e sempre quis tomar mais de um caneca de chá

Este mês completo 28 anos de existência na Terra. Sinto que o tempo passou e eu cresci e agora sou mulher, e é preciso encarar essa vida como uma adulta que paga contas, dá feedback nos produtos que compra pela internet e acorda 2 horas mais cedo numa quinta-feira para lavar a louça.

Moro sozinha com dois gatos no apartamento que, quando minha mãe tinha a minha idade, morava com o marido dela (meu pai) e eu (com 1 ano). Meu namorado sueco vai se mudar para cá e já me bate o desespero ter que dividir com mais uma pessoa. “Como minha mãe aguentava isso” eu me pergunto todos os dias. Dias se passam e eu sonhando em ter um apartamento de 3 quartos, um pra mim, um pro boy, um pro Airbnb (porque né, alguém vai ter que pagar o aluguel e não vai ser meu prolabore de empresária). Como é difícil voltar a dividir o espaço depois de tantos anos morando sola.

Aos quase 28 anos, comprei meu primeiro bule de chá. Le Creuset. Chique. Roxo. Lúdico. O suficiente para tomar umas 2 a 3 canecas (não tenho xícara) de chá sem ter que segurar a peça de metal que segura a erva com o dedo para não furar o olho. Foi um acontecimento. Foi uma coisa. Foi um uau. Um momento Brastemp na minha vida. Com o bule eu trabalho, substituo (tento) o café preto, deixo de tomar uma garrafa de vinho inteira depois de 14 horas de trabalho, e me sinto adulta. Digna dos meus (quase) 28 anos.

Cresci pensando que sou criança a vida toda (mas não a síndrome de Peter Pan). Espero a aprovação da minha mãe. Do meu pai. Da minha tia. Da minha avó. Do meu melhor amigo. Do meu sócio. Nada do que eu faço é bom o suficiente para sem o aval dele(s). Me sinto pequena fisicamente e emocionalmente perto deles, como uma criança vulnerável que se faz de vítima o tempo todo. Minha consciência me trai nesse pensamento, enquanto na verdade, eu sei que eles é que buscam a minha aprovação e a minha força para tudo.

Aos 7 imaginava que aos 15 eu seria adulta, linda, magra, alta, feliz, como a minha Barbie. Aos 15 imaginava que aos 18 eu seria adulta, linda, independente, feliz, aventureira. Aos 18 eu imaginava que depois da faculdade seria CEO na indústria têxtil. Aos 20 (já formada) imaginava que aos 30 eu seria (finalmente) adulta, com uma carreira, dinheiro no banco, um carro, férias em hoteis, morando no exterior, com marido gringo e filhos de olhos azuis. Festas black tie todos os finais de semana. Aos 28 eu não imagino mais nada.

Comprar o meu bule (que certamente teve o aval e uma ponta de inveja de todos que eu citei acima) foi o momento em que eu poderia finalmente agir como uma adulta e tomar um líquido em dois recipientes próprios para isso. (Tomo água direto da garrafa de 1,5l para não sujar copo). Foi o momento em que eu poderia finalmente oferecer chá para as visitas sem que elas se sentissem obrigadas a tomar a caneca toda. Assim como os adultos fazem. Será que um dia eu chego lá?