Arrebol

Arte por Jarek Puczel

— Vai querer?

— Mas é claro.

— Essa é da boa.

— Você sempre diz isso.

— Porque confio no produto.

— Rápido que daqui a pouco minha colega de quarto chega e ela é mó quadrada.

— Relaxa. Não vale a pena fazer isso tensa, é um puta desperdício.

— Só sei. Essa aí não é fraca não? Nunca ouvi falar desse cara.

— Cê tá de bobeira na pista.

— Bora, para com esse suspense.

— Já falei pra relaxar, se não relaxar eu pego a parada e meto o pé.

— Ok, tô relaxada.

— Tá querendo, né?

— Cê sabe.

— Eu sei, mas fala pra mim.

— Eu quero.

— Quer o quê?

— Cê sabe…

Eu rio. 
Rio não porque a situação é realmente engraçada — especialmente olhando de fora. Rio por coisa mais endógena. 
Eu sempre acho divertida a forma como basta olhar alguns segundos mais delongado e com um tanto mais de profundidade pra fazer uma garota perder totalmente a compostura.
Gosto de transitar temerariamente sobre a linha tênue que há entre o flerte e a graça. De deixá-las duvidosas e cheias de receio, com essa vã ilusão de um controle que não existe e que nunca vai existir. 
E, quando as coisas parecem já suficientemente delineadas, quando as regras parecem evidentes e elas sentem que seguram todas as cartas na mão, eu trago as peças de xadrez.
Confesso que é um jogo utilizado pura e exclusivamente pro meu próprio entretenimento. Torna tudo mais intenso e, assim, mais prazeroso.
Tudo fica infinitamente melhor quando pode nunca mais acontecer novamente, pra ambos.

— É, eu sei, guria. Eu sei — digo rindo — Tá preparada?

— Sim, muito.

A gente sempre faz isso juntos. Não só juntos mas simultaneamente. 
A diferença é que, como sou eu quem trago as paradas de fora, eu normalmente já sei o que esperar com cada lance novo.

Esse já começa com uma leve onda inicial. Sutil demais, mas não o suficiente pra não gerar no teu sistema a suspeita de que a coisa vai tomar um rumo intenso em breve.
Você sente os seus ouvidos retumbarem. 
Uma vez. 
Agora duas.

Uma.
Duas.

A coisa toda é bem rápida, 
dura uns 4 segundos:
A onda,
As batidas, 
e pronto, 
tudo desmorona em cima de você 
da forma mais extasiante.

Eu jogo a cabeça pra trás, absorvendo tudo. Esqueço que ela tá no cômodo por alguns segundos.
Não é nada pessoal. Só perdi um pouco o caminho.

Sinto o arrepio subindo pelas costas.

— Nossa…

Eu sentado na poltrona,
ela sentada em seu braço.

Ela me observa como quem observa o sol. 
Quando abro os olhos e a vejo, ela desvia o olhar.
Medo de acabar se cegando.

A puxo de cima do braço da poltrona e ela desliza, caindo de costas no meu colo.
Aproximo meu rosto.
Ela não dobra a distância.

— Tá sentindo? — pergunto.

Ela abre um sorriso, um pouco aturdida.

— Sim.

— É boa, né?

— É ótima.

Ela me olha, mas enxerga só o brilho do sol. Distingue a forma, sente o esplendor, mas não ousa me tocar.

— Sim, cê pode me beijar.

Ela exita,
eu a beijo.

Virada de bateria.

Daylight
I wake up feeling like you won’t play right

— Tá sentindo o contrabaixo?! Esse teclado?

— Sim, e esse vocal é maravilhoso!

— Eu te falei que cê tava de bobeira, num falei?

— Tava mesmo, ele é muito bom.

You make it hard for a boy like that to know wrong

Me aproximo novamente como se fosse beijá-la mais uma vez, encosto minha boca em seu pescoço, a envolvo por debaixo dos braços e a levanto ajeitando suas pernas pra que sente sobre mim.

É ela quem me beija.
Me segura com as mãos abaixo das orelhas e me beija com paixão.
Como se fosse me perder.
Como se a noite logo viesse me roubar.

If you want it, yeah
You can have it, oh, oh, oh
If you need it, oooh
We can make it, oh

Eu me levanto com ela em meus braços.
Adoro o susto que ela toma. Mais uma de tantas surpresas.
Fico de costas pra cama e a coloco no chão.
A beijo com intento
afirmando que estou aqui,
que não vou a lugar algum.
Não agora.

Tiro minha camisa.

Tiro sua blusa.

Beijo seus ombros.

Abaixo seu short — 
ele prende na bunda dela
por um momento.

Ela levanta um pé e com o outro chuta o short pra longe
(eu nunca sei pra onde vão as roupas nestas horas).

Coloco minhas mãos em sua cintura
e acaricio sua pele em um movimento ascendente.

Meus braços param, envolvendo suas costelas,
minhas mãos param em suas costas.

Minha boca pousa em seu pescoço e enquanto o beijo as mãos trabalham.

O sutiã se solta e
ela o deixa cair sobre o chão.

Me sento na cama.
Ela é linda demais. Cada detalhe descoberto me faz mais absorvido pelo instante. Daqui pra frente não há incógnita. 
Nós não vamos à lugar nenhum,
mas estaremos aqui. 
Seremos agora.
Amanhã não seremos mais.

A noite sempre vem levar o sol embora.
Mas não sem deixar as estrelas.

Now stay woke

— Essa última é com você. Você quem deixa ou não acontecer.

Niggas creepin’

— Você é meu.

Now don’t you close your eyes

noite sem lua