BXD: A Caça

O som de batidas surdas em cadeia faz frenético o ritmo da cena. Gotas de suor escorrem por costas e pescoço. Uma mão negra retira excessos de cima de duas sobrancelhas grossas. As gotas que caem no solo quente não fazem nada em acrescentar à melodia da corrida.

O caçador prossegue em vigilância. Havia avistado uma presa mas esta acabou sendo interceptada por um outro grupo de batedores e, estando sozinho, preferiu evitar um confronto direto e se afastou.

É o momento mais quente do dia e o sol escalda sem trégua. O solo pela. Os pés do caçador já há muito foram condicionados a tais condições adversas. Sua sola é expeça e quando ainda assim a quentura torna-se insuportável, o rapaz então aplica uma técnica em que põe-se a contrair os pés, retirando suas plantas do chão e andando com a parte lateral externa dos mesmos pelo solo fervente. Quando tudo lhe falha, procura a sombra mais próxima e ali se abriga por algum tempo, e é isso o que acabara de fazer.

Seus olhos incessantemente vigiam os céus. De lá vêm sua caça, normalmente planando erroneamente, sem controle algum, traída por vento e brisa e por própria leveza, ansiada por observadores sempre à espreita em terra.

Estes possuem em si os mais diversos portes. O parâmetro mais regular são os sexos. Como mulheres e meninas ali costumeiramente empenham seus esforços dentre outros interesses, esta atividade é tomada como responsabilidade normalmente pelos rapazes.

A idade é tão variável quanto os biotipos de seus praticantes. Em maioria, constituem-se de garotos entre seus 10 e 16 anos, mas homens mais velhos motivados por tédio, desprendimento, frustração ou às vezes no intuito de doar a presa a uma criança menor também tomam parte na vigília e apreensão. Quando isso ocorre, a disparidade torna quase inútil qualquer tentativa de competição. Contudo, apesar de tais excepcionalidades, a caça é naturalmente praticada por aqueles mais jovens.

O caçador em momento algum diminui sua atenção. De olhos alçados e cabeça erguida ao azul dominante do céu, continua em espera. O dia não é tão movimentado quanto outros recentemente passados. No entanto, para ele é inconcebível chegar em casa para o almoço de mãos vazias. Há sempre a possibilidade de ignorar o ato de caçar e comprar em algum local próximo o produto pronto de todo esse trabalho, porém isso seria desonra equivalente.

Em seu reduto o caçador, além de manter constante a concentração acima de si, também constantemente exerce sua percepção aferindo todas as condições influentes na execução de seu serviço. Analisa sem cessar a intensidade e direção do vento, assim como também observa com diligência lugares favoráveis onde a boa oportunidade pode melhor acontecer.

É então que no céu vê caindo um possível alvo. Um papagaio abatido a cair, derrubado por um semelhante coabitante dos céus que certamente não possuía habilidade suficiente para finalizar o serviço e capturá-lo. Às vezes há também a sorte de um vento mais intenso tornar a caça mais impropícia para o caçador que tenta apropriar sua presa. Contudo, isso pouco lhe interessava. Com explosão põe-se a avançar em um tiro de corrida. A rapidez de seus passos combinada à adrenalina despertada pelo momento faz desprezar tanto sol castigante quanto chão punitivo. De peito e canelas nuas o caçador vai em ofensiva com ímpeto, cobrindo ampla distância em um período de segundos. Ele precisava ser veloz pois sabia que outros munidos daquele mesmo impulso que o movia já também iam em direção ao alvo cadente.

Seu corpo em aceleração corta o vento, este lufando contra suas orelhas. O coração bate acelerado. Devido ao instinto indômito que envigora uma concentração rígida, o caçador bufa sem nem mesmo compreender fazê-lo. Seus pés correm a comando impercebido, controlado apenas pelo fugaz e ágil espírito. Olhos não desviam seu foco do alvo agora mais próximo do chão. Qualquer obstáculo no caminho é percebido e evitado através de uma atenção inadimplente, mais periférica do que central.

Em uma rota transversal, ouve-se a percussão caótica de múltiplos passos urgentes à cerca. O caçador prossegue em linha reta colocando seus adversários para trás. Estes carregam consigo aparatos construídos com única função de auxiliar no trabalho de apanhar desejados espólios. Vários deles carregam consigo fundas improvisadas, ferramenta quase que padrão de batedores. Dois deles carregam varas utilizadas para possibilitar interceptações de longa altura.

O caçador, agora em meio a vários outros batedores, continua a correr sem retirar os olhos do alvo nem interromper a contínua análise que faz das várias condições a sua volta. Sabe que os dois concorrentes equipados com varas consequentemente serão os últimos a chegar ao local de queda e que a maioria dos que sobram, apesar de estarem em faixa etária semelhante, são mais esguios e por isso apresentam poucas chances de ganhar uma batalha de força, caso a isso chegue. No entanto, são rápidos. Logo emparelham na corrida e a disputa fica intensa.

Um dos corredores tenta ultrapassá-lo e em antecipação o caçador o impede deslocando seu corpo para a direita. Entretanto, ao fazê-lo seu lado esquerdo fica momentaneamente vulnerável e um dos corredores aproveita a oportunidade para avançar e colocar alguns passos entre si e seus adversários. Por mais que a competição seja física e competitiva, existem regras tácitas entre todos aqueles que tomam parte. Dentre estas regras, que não foram ensinadas mas aprendidas ao longo da vivência e convívio destes caçadores, há a das mais severas que proíbe o caçador de puxar ou segurar seu adversário, este que agora encabeça o grupo.

Agora, ele precisa contar com a sorte. Primeiramente, com a sorte do alvo estar a um nível pouco acima do solo para que assim os lanceiros mais lentos não tenham vantagem sobre os caçadores desarmados e os fundibulários. A outra sorte é que estes últimos não consigam ser precisos o suficiente para atingir e fisgar o alvo antes que este esteja prestes a tocar o chão. O caçador conta com o sol mais aceso nessa hora do dia para atrapalhar a visão desses especialistas.

O alvo se aproxima do chão. No nível em que está, certamente elimina os lanceiros da disputa, o espólio será do mais veloz.

Com um pique final, o caçador acelera sua já ágil passada e emparelha com o líder da carreira. Este tenta aumentar o passo mas não consegue.

O alvo está prestes a tocar o solo. Por mais sorte não se dirigiu a nenhuma árvore. Veio cair em espaço amplo, em terra de ninguém.

A disputa entre os dois favoritos é extrema, com ambos atravessando a capacidade de seus esforços e seguindo com energia de reserva. O inimigo é valoroso, o caçador pensa. Mas desistência não é alternativa.

Percebendo a envergadura maior de seu oponente e isto como sendo talvez o atributo a lhe dar a vitória na batalha, o caçador dá um salto em direção ao seu troféu. Sua mão toca sua cauda e seus dedos se fecham urgentes na noção de posse que era sua.

Contudo, seu adversário também possuía a mesma crença, puxando o espólio para si na pretensão de conquista realizada. Ambos começam um cabo de guerra, forçando e resistindo de igual maneira. Não era raro tal discordância culminar em um embate físico.

— Qual é, mano, o papagaio é meu!

— Papagaio é teu?? Tá maluco?!

— Eu peguei primeiro, tu viu! O papagaio é meu!

— Que mané papagaio, menor. Aê, Pedrin, chega mais!

Seu adversário não está sozinho. Um dos perdedores se aproxima. Apesar de ser péssimo sinal, o caçador não cede e continua a segurar o que acredita ser seu prêmio de direito.

— Fala tu.

— Se liga só. Aê, menor, fala pra ele o nome disso.

Com a outra mão ele aponta para a recompensa.

— Papagaio, pô.

Seu algoz, Pedrin e alguns dos meninos em volta põem-se a rir. Depois de alguns segundos, Pedrin diz:

— Que papagaio, menor. Tá vendo pena nissaí? Issaí é pipa, cara.

Riem um tanto mais a sua volta. Ele apenas observa calado.

— Aê, menor, pode ficar, tem caô não. Meu nome é Heverton e o teu?

Heverton larga a cauda do papagaio — ou pipa — e lhe oferece sua mão direita.

— Mike, beleza?


Assim Mike ficou conhecido como Papagaio pelo bairro onde mora.