Correspondências

— Sabe o que eu queria fazer? Levar você pra sua casa. Não você me levar, mas eu te levar, porque você sabe que quando eu tô na sua casa a sua casa não é sua, é minha. E o que você mais quer é morar em mim. Então eu tiro a sua roupa e a gente conversa daí.


Noites demais pra poucos cigarros. Muitas camas à procura de uma só mulher. A noite grita, se esgana, com voz de velha. Não de senhora sábia mas de coroa caduca, que grita da janela pra calçada vazia. Todos escutam a mesma voz, mas ninguém ouve suas palavras. No outro quarteirão ainda se ouve os ganidos. Na porta de casa. No trinco do portão. No macio do travesseiro. E existir já deu no saco.


Eu já quis ser mais vulnerável. Mais aberto, até. Mais permissivo. Simplificar as coisas, minha vida como um todo. Foi um dia feliz quando acordei e já não queria mais estar na pele de qualquer outra pessoa. É algo que simplesmente acontece algum dia. Isso quando é pra acontecer, porque deixamos acontecer, porque trabalhamos pra acontecer. Não tem manual por aí, a gente aprende conforme vai em frente dando tiros no escuro, com lampejos de respostas aqui e ali. Se um conselho é bem-vindo, nunca caia na ilusão de achar que sabe exatamente onde está.


— A gente vai vivendo de ontem em ontem. Não sei se a gente vai um dia chegar a algum lugar que se queira se estamos todos olhando pra trás enquanto caminhamos. A gente já tá em maio, reparou? O tempo passa e os dezembros visitam com cada vez mais rapidez. É como girar uma ampulheta. O jogo vai começar, fica feliz. Depois te avisam que só se joga uma vez. Nada me assusta mais do que a ideia de reincarnação. São vinte quatro anos queimando no pique de cinco por um. Se depois do meu tempo atual acabar, eu vier como um outro alguém, que me façam o favor de me manter ignorante. Eu tô falando pra caralho, né? Eu tô. Vamo botar um som e fechar essas cortinas.