Janela

O moinho se renova, a água estagna. Existem vários cantos no espaço onde não se guarda nada, sendo apenas cantos. Sei do imbróglio que há entre eu e o mundo, entre o que aqui sinto que há e o que sei por certeza não existir lá fora. Onde agem meus olhos é onde a disforia ataca. Daqui para lá há certa liberdade, de lá para aqui é quando dela me privam. A janela deste quarto poderia ser somente o que atribuem a ela ser. Um mirante frente o espaço limitado entre onde resido e o que alcança a vista. Em realidade, esta janela é a fronteira existente entre o mísero campo conhecido e todo o resto que me é alheio. O ponto zero, antípoda do mundo. Desta janela para cá é onde habito. Desta janela para lá tem início um onde que me interpela. Surpassa-se o quintal que me é observável, também a rua paralela e também a outra perpendicular. Para muito além do pedestre, meu igual, meu irmão. Da janela para cá existo, no antro do meu maior estar. Da janela para lá infiro, no máximo suponho em algum lugar estar, quando, na verdade, nenhum lugar é lugar meu. Levo esta janela comigo. Numa outra cama, num outro quarto, frente a uma outra janela, ela fica aberta. De mim para lá é o mundo que é meu e o mundo que me afronta, por vezes com seu silêncio intenso. Levo comigo meus porquês e meus o quês e estes pesam em qualquer leito com força igual. Ainda que tente, não sei ainda viver fora de mim. E temo que isso seja talvez impossível. Se a escolha me fosse dada, viveria no intervalo entre lá e aqui. Desprendido no meio transitório de lugar nenhum. Nada meu, nada eu. Nada. O indevir. O mais puro estado natural — quiçá o único. Infantilidade minha, sei. Desejar a alcova de deus. Contanto, me contento com o amor e as várias trivialidades decididas do ser. Com a mera experiência. Com a poesia. Com a foda. Com sentimento e brevidade. Tentativa e elucubrações e perene sensação de não-pertencer.