Mais
— Tua casa tá tão arrumada, eu não queria bagunçar as coisas.
— Cê chama isso aqui de arrumado?
— Se tu viste a minha…
— A casa de quem viaja muito é sempre bagunçada.
Ela sorri
— Eu te ofereceria alguma coisa pra comer, mas… não tem comida. E eu te ofereceria algum lugar pra sentar, mas… não tem cadeira.
— Ôxe! E onde tu dormisse? No chão?
— Sim. E não. Cê tá quase pisando na minha cama, no caso.
— Ôxe!
— É, pois é.
— Bom, pelo menos são só 3 cm de queda se tu cai da cama.
— Exato. Foi o argumento que o vendedor usou pra me convencer a comprar um colchão inflável ao invés de uma cama de estrado de alta periculosidade?
— Ah, sim, claro. É um argumento infalível, esse. Quase me convenceu, inclusive.
Eu sorrio
Ela sorri de volta, com os olhos, não com os lábios
A noite não pergunta por quê, ela acontece. O tempo se relativa de maneiras que Einstein não predisse. Algumas noites são égide para toda uma vida.
As falanges de seus dedos se acoplam entre os meus. O quarto não permite intrusões. A lua estava linda lá fora mas o astro de luz neste nosso novo universo é outro. O mundo não ganhou entrada, ainda que nossa dança seja franca.
Suas mãos são tão pequenas que parecem demandar pelos meus cuidados. Ordem que eu acato.
Algumas maquiagens de mundo estão jogadas pelo chão.
— Hoje em dia eu sou mais feliz por não precisar fingir que sou feliz.
Eu toco a ponta de seus dedos com as pontas dos meus. Abro sua mão por completo. A minha é consideravelmente maior, tal como é consideravelmente maior a torre em comparação a rainhas. Não jogamos mas parece que estamos ganhando.
— Esses seus olhos parecem procurar alguma coisa que eu acho que eu não trouxe.
— Os seus olhos parecem querer me dar algo que eu não mereço.
Seus dedos deslizam sobre as minhas costas nuas. O traço é orientado mas o toque é suave. Como de costume, a atividade me arrepia por inteiro. Conheço as formas que sobrescreve muito mais do que ela. O gesto como um todo, com toda a sua reciprocidade, marca a minha carne de maneira mais profunda que as tatuagens.
— Eu não tinha a mínima ideia de que você era tatuado.
— Não há ninguém que tenha essa ideia.
— E isso quer dizer o que diz?
— O que isso diz?
— Que eu não sou ‘ninguém’.
— Diz mais do que isso.
— Como assim?
— Eu só conheço dois tipos de pessoa: ninguém e alguém especial.
— ….
— Não há ninguém que conhece essas tatuagens e ninguém vai nunca conhecer um momento como este. Tudo isto é só seu.
Eu explico o significado por trás dos ideogramas tomando-a pela mão e traçando com seu dedo indicador cada linha. Mais do que as figuras, falo sobre ancestralidades e a cultura do povo africano idealizador desses signos. Deposito no seu colo tudo o que há de mais valia para mim, tudo na esperança de que algo lhe sirva. Os olhos dela são como dois braços estendidos. Eu já não ligo mais se falo com coerência, sua invitação me abriu uma escotilha oxidada que há muito permanecia fechada. Eu deveria sentir temor por me esvaziar e tornar inerme, mas não sinto. Se ela tomasse um punhal eu faria que sim sem qualquer resistência. Naquele ponto, a minha força era a sua. Ao mesmo tempo, seus olhos não me pediam nada. Eram absolutos, como que suplementados por aquele momento simples. Não me exigiam. Nem que ficasse ou que fosse.
Há alguma coisa na autonomia do próprio sentimento que parece que mais nos motiva a doar. Quanto mais desnecessária se prova, mais solícita fica a caridade.
— Você veio pra arrumar a minha bagunça, mas eu só vou conseguir bagunçar o teu quarto.
— É tudo que eu mais quero.